sexta-feira, 15 de março de 2013

Você vai ficar aí assistindo?



Quando Jean Wyllys descreveu nas redes sociais a sequência de partidos que abriram mão de suas vagas, para cedê-las ao PSC garantindo ao mesmo maioria e a presidência da CDHM, lembrei de uma palavra: governabilidade.

Lembrei de uma cena antiga que remetia ao conceito: logo após Lula ganhar as eleições pela primeira vez, como a apresentadora do telejornal da Globo fez questão de frisar, com cara dura de quem dá um veredito de pena capital, que o presidente não governa sozinho. Ele precisa saber negociar com os outros partidos de forma a garantir a governabilidade. Era o mesmo jogo que Collor não soube jogar. A mídia fazia questão de desautorizar o Presidente com um discurso didático e óbvio a quem faz a carreira política, deixando claro que as corporações e o capital financeiro, os verdadeiros detentores do poder, estavam de olho.

Essa preocupação faz sentido para quem ainda acredita no nicho papão do Comunismo, mas era de um rançoso despropósito. O governo do PT nunca trocou o capitalismo por planos quinquenais, nem sequer ameaçou fazê-lo. Nenhum mega empresário teve sua empresa tomada pelo governo e coletivizada, tampouco o agronegócio viu suas terras serem desapropriadas por todo o país e entregue aos pequenos produtores. Não houve uma reviravolta que sacudiu o Brasil e derrubou os “donos do poder”de seus lugares gerando o caos e a incerteza, como a propaganda política da oposição queria passar. O Brasil ainda não mudou tanto quanto precisa, não conseguiu sequer garantir conquistas antigas, que pareciam certas mas precisam ser reafirmadas constantemente. Como os direitos humanos.

Que deveriam ser para todos. Assim como o governo, embora governantes e governados muitas vezes parecem esquecer tal fato. O deprimente episódio da comissão do direitos humanos é um bom momento para lembrar de pontos importantes que deixamos passar no calor das emoções e debaixo da chuva de desinformação da mídia:

O Presidente não governa sozinho. O partido da Presidente(a) não governa sozinho, embora muitas vezes queiram fazer você acreditar nisso;

O partido que elegeu o Presidente precisa do apoio de outros partidos. Ele busca aliados e negocia com os que não são seus aliados imediatos, inclusive com a oposição. A moeda de troca em muitas negociações são justamente cargos.

Embora isto seja óbvio para muitos, tais detalhes se diluem quando uma história é contada. No caso da comissão de direitos humanos, uma mensagem clara da escolha de uma indivíduo racista e homofóbico para a Presidência seria a de que os direitos humanos não são prioridade do governo. Isso entraria em conflito com os programas para a erradicação da miséria e da fome, mas coisas paradoxais acontecem na política. Na verdade o governo precisa do apoio e, principalmente, dos votos de grupos conservadores da política e a chefia de uma ou mais comissões são o esperado “pagamento” por esse apoio. Com as eleições no próximo ano, não cumprir acordos com quem o apoia pode ser fatal para o governo. É uma chantagem “gentil”.

Claro que a polêmica na comissão dos direitos humanos faz parte de um cenário mais complexo, pois ela ocorre no mesmo momento em que o veto aos royalties do petróleo é derrubado e em meio a uma série de votações, sendo uma ótima opção de despiste.

Mas isso não diminui a importância do episódio. Ele mostra a enrascada em que a instituição Estado Laico e também a sociedade se encontram. Uso o termo chantagem, não porque o governo seja o “bom moço” acuado pelos cães, mas porque a ameaça por trás desta serve para intimidar qualquer governo progressista que porventura venha a ocupar o planalto. Aos conservadores porém, presta um serviço inestimável. Vejamos a desolação que se apresenta:

Após o repúdio ao novo presidente da Comissão de Direitos Humanos, o primeiro raciocínio apresentado como solução, é a figura repetida do vamos eleger alguém diferente em 2014. Claro, afinal o principal partido de oposição ao governo tem um longo e bem conhecido histórico na luta dos direitos das minorias e ampliação dos direitos de grupos marginalizados, como LGBT, Índios, mulheres e negros. Só que não. Tente sobrepor as bandeiras do casamento igualitário, lutas feministas, combate ao racismo e criminalização da pobreza ás práticas do PSDB nas últimas décadas e veja por si mesmo o que aparece. E se algum representante deste partido disser o contrário, é simplesmente oportunismo eleitoral;

Mas não desista ainda da solução milagrosa da mídia, a troca do governo. Tente a Marina Silva. Certamente como evangélica – progressista ela deve respeitar os direitos humanos da maioria. Com ressalvas à população LGBT a ás mulheres que lutam pelo direito ao próprio corpo, claro. Tente visualizar o futuro do estado laico em um governo de Marina e sonhe, sonhe bastante;

Antes de batermos na mesma tecla novamente, mudar quem está no governo, tirar Dilma e PT do poder e ganhar um futuro abençoado, façamos uma pergunta: porque a troca do partido hegemônico atual vai trazer progresso ás lutas sociais em áreas tão polêmicas como casamento igualitário e direitos reprodutivos? De que forma áreas sensíveis como essa verão algum avanço em um congresso onde mais partidos representam os interesses do agronegócio, grandes empreiteiras, bancos e igrejas, do que os das mulheres, dos índios, dos afrodescendentes e LGBT? Como um novo partido voltado a diminuir as desigualdades sociais, vai fazer isso, se precisar sempre agradar aos setores mais retrógrados, reacionários e intransigentes da sociedade? Do que adianta o melhor e mais ético partido assumir o poder, se para governar ele depende do apoio dos mais corruptos?


Talvez você prefira desejar que outro meteoro atinja o congresso, ou de algum modo, todos os deputados e senadores sumissem, resolvendo o “problema”. Nas redes sociais, onde uma classe média que nunca passou fome chora de raiva porque existe um bolsa família, é uma imagem muito difundida, a do Congresso como um lugar recheado de sanguessugas, ratos, ladrões. Parece que bastaria este desaparecer, de preferência em uma explosão, que tudo ia melhorar no país. Então tá, suponha que todos os deputados e senadores morreram ou foram exilados. Que beleza nos livramos dos ladrões. E agora? Vamos botar os deputados e senadores honestos que sempre denunciaram essa situação! Certo, mas quem garante essa honestidade? Porque um cara honesto almeja algum dia participar de uma instituição aparentemente falha desde sua concepção, onde nada de bom se construía? Mudou de ideia? Quer aproveitar esse cenário de extinção dos congressistas e erradicar de vez a casa do mal? Ótimo, o que virá a seguir? Uma nova utopia surgirá por conta própria das cinzas do passado corrompido, nos levando a uma nova era de ouro? O povo vai governar de um jeito novo? Ou apenas o primeiro oportunista virá ocupar o vácuo de poder e fazer o que quiser? Imagine.

Parece que não refletimos ultimamente, só reagimos ao que acontece. Adoramos culpar alguém, principalmente o governo. O governo é representativo. Ele lhe representa. Se olhe no espelho quando for culpar o governo da alguma coisa. Principalmente se você não vota e espera que sua ausência no momento de escolher seu representante contribua para criar uma nova sociedade. Uma dica, não vai. Essa aberração na comissão de direitos humanos aconteceu por causa isso. Aconteceu porque a causa LGBT, dos direitos das mulheres, dos índios, dos negros, principalmente os quilombolas e membros de cultos afro-brasileiros está pouco representada no Congresso Nacional. E enquanto acreditarem que política não presta e que não adianta participar da política porque ela é naturalmente má, a coisa tende a piorar. Você quer mudança, vote, convença as pessoas a votarem.

Porque o Congresso Nacional pode ter mais políticos e partidos representando o progresso, do que reacionários e fascistas disfarçados de santos. Os eleitores podem colocar eles lá. Soa ingênuo? Acreditar que a política nunca vai mudar, sem fazer nada para modificar isso é o que então? A política não é um território inalcançável pelos simples mortais, ela depende do voto. Mas não pára aí. Ajude a fundar um partido novo, como o Partido Pirata brasileiro, por exemplo. Funde o seu. A diversidade dos representantes políticos do Brasil precisa aumentar. Não deixe a bancada evangélica ser um trunfo para os partidos conservadores, para os representantes do agronegócio, empresários e banqueiros, para os quais os direitos humanos são mais um empecilho do que um direito.

É preciso reduzir a influência da bancada evangélica na política nacional. É preciso acabar com a influência de um grupo que não aceita opiniões divergentes, e se recusa a dialogar, fazendo o possível para barrar avanços que contradizem a interpretação deles de um texto sagrado. Pois o dever do estado não é para com a fé de alguns mas com o bem de todos. A democracia e o estado de direito não é joguete de uma igreja, para ser usado como moeda de troca em busca de poder. É preciso deixar claro que essa bancada não representa o Brasil. Uma bancada comprometida com o retrocesso, que persegue abertamente as religiões de matriz africana e indígena, está fazendo de tudo para transformar o Brasil em uma república fundamentalista, aonde os gays ficarão no armário ou no túmulo e as mulheres continuam sem ter direito ao próprio corpo. Onde as cadeias privatizadas estarão cheias de negros, pobres e o Candomblé e a Umbanda serão uma contravenção, desta maneira, dando prosseguimento ao genocídio da população negra no país. Posso estar exagerando mas deixe passar dez anos de acomodação e aposte o contrário com o futuro dos seus filhos. Aja, não fique só assistindo.

O espetáculo da política é interativo. Seja você também um ator. Represente-se.