sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Museu Vivo na minha Memória Candanga

Lendo sobre uma apresentação do Esquadrão da Vida  no Museu Vivo da Memória Candanga recordei do tempo em que participai do Grupo de teatro e das muitas tardes que passei por lá. Era longe de casa. Morando em um extremo de Brasília, precisava pegar um ônibus até a Rodoviária e de lá, outro para o Núcleo Bandeirante ou Candangolândia, para chegar. Era eu e o Aluísio indo de lotação na maioria das vezes, nos dois percursos, porque era mais rápido que ônibus com regularidade entre trinta a quarenta minutos. E até hoje desconfio que continue sendo. Quando era possível, pegávamos carona.

As lembranças desse período intensamente teatral entre meus dezenove para vinte anos são um mapa. A parada de ônibus lotada na chegada e na saída. A concessionária de automóveis brilhante contrastando com a entrada humilde do Museu. A guarita e suas solicitações. Uma estrada asfaltada a pé. Casas coloridas em uma rua como um parque temático vazio. Oficinas distantes umas das outras onde equipamentos funcionavam em horários  diferentes do nosso e trabalhadores invisíveis deixavam sobras de material como  único indício de sua existência. O prédio onde ensaiávamos, com platéia e palco. A área externa entre um prédio e outro onde treinamos acrobacias. Lá após muito custo dei minha primeiro e única virada completa, quase bem sucedida não fosse minha testa. Apesar de ter sido só um acidente cênico do meu ponto de vista, pois não me machuquei de verdade, fui colocado em repouso, mas tinha certeza que podia tentar de novo. Um padrão no piso da área copiado na contra capa do caderno, a planta de um cenário esperando uso. Um ensaio do lado de fora, embaixo das árvores, onde Ary tocava uma música de andamento complicado e explicava  o porquê disso. O escritório administrativo no meio das casas coloridas, na rua de quase de brinquedo, onde de vez em quando íamos solicitar alguma coisa. As mangueiras carregadas, forravam o chão debaixo delas. Onde em um momento de folga sentar para chupar mangas com uma colega e um funcionário do Museu, encontrando na distração alheia um erotismo ancestral e pueril.

Tudo no Museu era transitório mas permanente. Um lugar fora do tempo, difícil de alcançar e cansativo para sair. Uma cidade interiorana para habitar, uma ilha de quietude cercada de trânsito. Na volta íamos retornando ao ritmo frenético da cidade e na rodoviária de Brasília eu e Aluísio tínhamos nossa pausa para o lanche. Comíamos na clássica pastelaria Viçosa. Semana após semana. Numa delas a fritura e o caldo de cana cobraram seu preço em abundante desinteria, mas após uma pausa na dieta voltamos com um ritmo mais comedido. Quando chegávamos em casa após o segundo ônibus, o ensaio acrobático virava prática. Eu não tinha chave de casa e por algum motivo estranho nem uma cópia. Chegávamos muito antes dos meus pais voltarem do trabalho. Nosso primeiro desafio era a cerca de ferro e seus espigões metálicos. Fácil graças ao muro do vizinho. Depois entrar na casa. Espetos de churrasco viravam gazuas, pinças desajeitadas para chaves distantes acaso esquecidas. Ou fazer Aluísio passar pela pequena janela redonda da sala, ir segurando seus pés enquanto ele deslizava pela parede interna para uma perfeita cambalhota em um espaço exíguo, já avisado para não acertar a mesa com tampos de vidro. O Museu era pura aventura. Temperado com uma missão secreta e sorrateira entre labirintos da papelada, pois o espetáculo não parava.

Parou um um dia para eu descer do barco. Já passava de um ano com o grupo, tempo que estipulei pra mim antes de embarcar, como o daquela jornada. O anúncio da partida quase não saiu da minha boca, instantes antes de falar o tempo congelara. Foi triste o ensaio interrompido. Não parti de vez mas ali no Museu disse adeus. Fui embora do Esquadrão e o Museu ali ficou, vivo na minha lembrança.

E até hoje está comigo. O lugar e tudo que deu significado a ele me acompanha por onde vou. Um museu onde a história é imaterial mas concreta porque estive lá, percorri seus caminhos e provei o eterno criado nas ruas e calçadas. Onde mitos nascem entre poeira, pés e canção.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010