sexta-feira, 15 de março de 2013

Você vai ficar aí assistindo?



Quando Jean Wyllys descreveu nas redes sociais a sequência de partidos que abriram mão de suas vagas, para cedê-las ao PSC garantindo ao mesmo maioria e a presidência da CDHM, lembrei de uma palavra: governabilidade.

Lembrei de uma cena antiga que remetia ao conceito: logo após Lula ganhar as eleições pela primeira vez, como a apresentadora do telejornal da Globo fez questão de frisar, com cara dura de quem dá um veredito de pena capital, que o presidente não governa sozinho. Ele precisa saber negociar com os outros partidos de forma a garantir a governabilidade. Era o mesmo jogo que Collor não soube jogar. A mídia fazia questão de desautorizar o Presidente com um discurso didático e óbvio a quem faz a carreira política, deixando claro que as corporações e o capital financeiro, os verdadeiros detentores do poder, estavam de olho.

Essa preocupação faz sentido para quem ainda acredita no nicho papão do Comunismo, mas era de um rançoso despropósito. O governo do PT nunca trocou o capitalismo por planos quinquenais, nem sequer ameaçou fazê-lo. Nenhum mega empresário teve sua empresa tomada pelo governo e coletivizada, tampouco o agronegócio viu suas terras serem desapropriadas por todo o país e entregue aos pequenos produtores. Não houve uma reviravolta que sacudiu o Brasil e derrubou os “donos do poder”de seus lugares gerando o caos e a incerteza, como a propaganda política da oposição queria passar. O Brasil ainda não mudou tanto quanto precisa, não conseguiu sequer garantir conquistas antigas, que pareciam certas mas precisam ser reafirmadas constantemente. Como os direitos humanos.

Que deveriam ser para todos. Assim como o governo, embora governantes e governados muitas vezes parecem esquecer tal fato. O deprimente episódio da comissão do direitos humanos é um bom momento para lembrar de pontos importantes que deixamos passar no calor das emoções e debaixo da chuva de desinformação da mídia:

O Presidente não governa sozinho. O partido da Presidente(a) não governa sozinho, embora muitas vezes queiram fazer você acreditar nisso;

O partido que elegeu o Presidente precisa do apoio de outros partidos. Ele busca aliados e negocia com os que não são seus aliados imediatos, inclusive com a oposição. A moeda de troca em muitas negociações são justamente cargos.

Embora isto seja óbvio para muitos, tais detalhes se diluem quando uma história é contada. No caso da comissão de direitos humanos, uma mensagem clara da escolha de uma indivíduo racista e homofóbico para a Presidência seria a de que os direitos humanos não são prioridade do governo. Isso entraria em conflito com os programas para a erradicação da miséria e da fome, mas coisas paradoxais acontecem na política. Na verdade o governo precisa do apoio e, principalmente, dos votos de grupos conservadores da política e a chefia de uma ou mais comissões são o esperado “pagamento” por esse apoio. Com as eleições no próximo ano, não cumprir acordos com quem o apoia pode ser fatal para o governo. É uma chantagem “gentil”.

Claro que a polêmica na comissão dos direitos humanos faz parte de um cenário mais complexo, pois ela ocorre no mesmo momento em que o veto aos royalties do petróleo é derrubado e em meio a uma série de votações, sendo uma ótima opção de despiste.

Mas isso não diminui a importância do episódio. Ele mostra a enrascada em que a instituição Estado Laico e também a sociedade se encontram. Uso o termo chantagem, não porque o governo seja o “bom moço” acuado pelos cães, mas porque a ameaça por trás desta serve para intimidar qualquer governo progressista que porventura venha a ocupar o planalto. Aos conservadores porém, presta um serviço inestimável. Vejamos a desolação que se apresenta:

Após o repúdio ao novo presidente da Comissão de Direitos Humanos, o primeiro raciocínio apresentado como solução, é a figura repetida do vamos eleger alguém diferente em 2014. Claro, afinal o principal partido de oposição ao governo tem um longo e bem conhecido histórico na luta dos direitos das minorias e ampliação dos direitos de grupos marginalizados, como LGBT, Índios, mulheres e negros. Só que não. Tente sobrepor as bandeiras do casamento igualitário, lutas feministas, combate ao racismo e criminalização da pobreza ás práticas do PSDB nas últimas décadas e veja por si mesmo o que aparece. E se algum representante deste partido disser o contrário, é simplesmente oportunismo eleitoral;

Mas não desista ainda da solução milagrosa da mídia, a troca do governo. Tente a Marina Silva. Certamente como evangélica – progressista ela deve respeitar os direitos humanos da maioria. Com ressalvas à população LGBT a ás mulheres que lutam pelo direito ao próprio corpo, claro. Tente visualizar o futuro do estado laico em um governo de Marina e sonhe, sonhe bastante;

Antes de batermos na mesma tecla novamente, mudar quem está no governo, tirar Dilma e PT do poder e ganhar um futuro abençoado, façamos uma pergunta: porque a troca do partido hegemônico atual vai trazer progresso ás lutas sociais em áreas tão polêmicas como casamento igualitário e direitos reprodutivos? De que forma áreas sensíveis como essa verão algum avanço em um congresso onde mais partidos representam os interesses do agronegócio, grandes empreiteiras, bancos e igrejas, do que os das mulheres, dos índios, dos afrodescendentes e LGBT? Como um novo partido voltado a diminuir as desigualdades sociais, vai fazer isso, se precisar sempre agradar aos setores mais retrógrados, reacionários e intransigentes da sociedade? Do que adianta o melhor e mais ético partido assumir o poder, se para governar ele depende do apoio dos mais corruptos?


Talvez você prefira desejar que outro meteoro atinja o congresso, ou de algum modo, todos os deputados e senadores sumissem, resolvendo o “problema”. Nas redes sociais, onde uma classe média que nunca passou fome chora de raiva porque existe um bolsa família, é uma imagem muito difundida, a do Congresso como um lugar recheado de sanguessugas, ratos, ladrões. Parece que bastaria este desaparecer, de preferência em uma explosão, que tudo ia melhorar no país. Então tá, suponha que todos os deputados e senadores morreram ou foram exilados. Que beleza nos livramos dos ladrões. E agora? Vamos botar os deputados e senadores honestos que sempre denunciaram essa situação! Certo, mas quem garante essa honestidade? Porque um cara honesto almeja algum dia participar de uma instituição aparentemente falha desde sua concepção, onde nada de bom se construía? Mudou de ideia? Quer aproveitar esse cenário de extinção dos congressistas e erradicar de vez a casa do mal? Ótimo, o que virá a seguir? Uma nova utopia surgirá por conta própria das cinzas do passado corrompido, nos levando a uma nova era de ouro? O povo vai governar de um jeito novo? Ou apenas o primeiro oportunista virá ocupar o vácuo de poder e fazer o que quiser? Imagine.

Parece que não refletimos ultimamente, só reagimos ao que acontece. Adoramos culpar alguém, principalmente o governo. O governo é representativo. Ele lhe representa. Se olhe no espelho quando for culpar o governo da alguma coisa. Principalmente se você não vota e espera que sua ausência no momento de escolher seu representante contribua para criar uma nova sociedade. Uma dica, não vai. Essa aberração na comissão de direitos humanos aconteceu por causa isso. Aconteceu porque a causa LGBT, dos direitos das mulheres, dos índios, dos negros, principalmente os quilombolas e membros de cultos afro-brasileiros está pouco representada no Congresso Nacional. E enquanto acreditarem que política não presta e que não adianta participar da política porque ela é naturalmente má, a coisa tende a piorar. Você quer mudança, vote, convença as pessoas a votarem.

Porque o Congresso Nacional pode ter mais políticos e partidos representando o progresso, do que reacionários e fascistas disfarçados de santos. Os eleitores podem colocar eles lá. Soa ingênuo? Acreditar que a política nunca vai mudar, sem fazer nada para modificar isso é o que então? A política não é um território inalcançável pelos simples mortais, ela depende do voto. Mas não pára aí. Ajude a fundar um partido novo, como o Partido Pirata brasileiro, por exemplo. Funde o seu. A diversidade dos representantes políticos do Brasil precisa aumentar. Não deixe a bancada evangélica ser um trunfo para os partidos conservadores, para os representantes do agronegócio, empresários e banqueiros, para os quais os direitos humanos são mais um empecilho do que um direito.

É preciso reduzir a influência da bancada evangélica na política nacional. É preciso acabar com a influência de um grupo que não aceita opiniões divergentes, e se recusa a dialogar, fazendo o possível para barrar avanços que contradizem a interpretação deles de um texto sagrado. Pois o dever do estado não é para com a fé de alguns mas com o bem de todos. A democracia e o estado de direito não é joguete de uma igreja, para ser usado como moeda de troca em busca de poder. É preciso deixar claro que essa bancada não representa o Brasil. Uma bancada comprometida com o retrocesso, que persegue abertamente as religiões de matriz africana e indígena, está fazendo de tudo para transformar o Brasil em uma república fundamentalista, aonde os gays ficarão no armário ou no túmulo e as mulheres continuam sem ter direito ao próprio corpo. Onde as cadeias privatizadas estarão cheias de negros, pobres e o Candomblé e a Umbanda serão uma contravenção, desta maneira, dando prosseguimento ao genocídio da população negra no país. Posso estar exagerando mas deixe passar dez anos de acomodação e aposte o contrário com o futuro dos seus filhos. Aja, não fique só assistindo.

O espetáculo da política é interativo. Seja você também um ator. Represente-se.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Prova não prova

Era mais um Domingo de provas em Rondônia. Noite de véspera insone, o som altíssimo das festas da vizinhança tira o sentido do sono. De manhã mal ainda era difícil imprimir o nunca requisitado comprovante de inscrição. Um pedaço de pepel só pra ficar dobrando e desdobrando, para recordar e relaxar enquanto espera. A faculdade da prova tem uma arquitetura bonita, você vai gostar, disse a esposa. Lembro disso quando abrem os portões e caminho, olhando os prédios sem placa, procurando o que está em maiúsculas na folha, Neo Clássico. E ele é realmente, ao menos a parte superior da parte caixa cor de concreto, que me faz supor um edifício em construção. É mezzo feio, mas tem sua pompa, entre o vaticano e o mausoléu de Napoleão Bonaparte, todos vão lembrar da Glória de Roma e o poderio da sapiência. Ao lado ao menos, há um prédio branco baixo e comprido, vejo quatro arcos da sua lateral, o último o primeiro de um longo corredor avarandado, com uma sequência de grandes lanternas quadradas, de vidro e metal preto, a se distanciar. Talvez Árabe. O interior do prédio neo clássico é um grande hall, uma escadaria ascendente em curva, elegante, uma grande área central vazia, elevadores com seus fossos expostos, como em shoppings e uma grande cúpula de vidro e metal, deixando a luz entrar. A cúpula é uma da melhores coisas ali, passo grande parte do meu tempo antes de entrar contemplando-a. E tendo os mais diversos pensamentos. É incrível como a mente vai criando as mais diversas conjecturas em momentos inesperados.

O interior do prédio lembra uma versão com acabamento de alto padrão do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, onde estudei lá em Santa Catarina. Totalmente anti mendigo claro, sem banco algum. Mas a mesma concepção, aquele miolo amplo onde o pensamento do estudante expande antes de contrair na sala de aula. A gente entra na faculdade com essa ideia mesmo, de que ali é um lugar onde vamos expandir nossos horizontes. Com o tempo vamos percebendo onde as coisas realmente acontecem. Desde seu campus, a faculdade é ampla, mas a vida acadêmica é passar da amplitude para espaços cada vez menores, onde você se torna cada vez mais importante. Do Salão para a sala de aula para a salinha do núcleo de estudo para o escritório do orientador para uma mesinha e uma cadeira. O menor lugar é dentro do computador, aonde vai seu currículo, dentro das ainda menores caixinhas dos formulários. Você não existe fora daquela caixa. Os editais comprovam. A compartimentalização, não ensina humildade, é apenas  burocracia. Já viu um compactador de lixo? Não transforma lixo em Hai Kai, embora o poeta faça. A universidade também é assim, compacta o ser humano, até ele em um diploma. O subproduto é livro geralmente pouco lido, com sorte um pouco mais, quase sempre esquecido. Você é do tamanho do teu Lattes. Os caerriculos lattem e a caravana do emprego passa. Caerrículos são sempre mirrados. É quântico como uma palavra que remete a universo na pratica é agorafóbica.

Quando estou à beira de mais uma prova de concurso fico contemplando essa ilusão. Olho a cúpula de vidro lá no alto do prédio e toda a sua luz. Vai chover e tenho certeza que apesar da beleza há uma falha. A chuva cai forte, um som agradável, parece um bom presságio pessoal. O peso da chuva é intenso. Após alguns minutos olho o chão perto do feio jardim de inverno atrás dos elevadores, com quatro plantas parecendo palmeiras em um chão de pedrinhas sujo, estilo canteiro das bitucas. Uma goteira cai lá do alto da cúpula. Vejo outra. Fico pensando se ela está afixada no neo clássico com parafusos e na possível existência de uma cavidade circular ao redor da base, funda o suficiente para encobrir a fronteira entre abóboda e teto e deixa a água entrar. Penso na BR 364 cortada pela cratera e em um país onde chove em abundância desde sempre, mas a água é rala nos cálculos de engenharia. Não sabemos escoá-la, então reformamos o código florestal para matar os córregos. Criar mais mosquitos para matar os pobres que não morreram bebendo água suja.

E vou para a prova, já fraudada de saída mas ninguém fala nisso. Uma prova exaustiva com oitenta questões e duas redações. Nostálgica pra quem fez cursinho. Já começa com errata, datilográfica. Perguntas explicitam que você não decorou coisa metafísicas como anáfora, catáfora e dêitico. Prefiro lembrar de sardônico, meu sorriso enquanto recordo satisfeito a língua portuguesa morrendo nos lépidos dedos dos jovens miguxos ( alguns temem ). Recordo de anáfora, penso em ânfora. Lembro sobre ensinar o que é vasilhame,  sem definir o vazio nele contido. As funções pronomiais parecem o som de cacos quebrando.

Outras coisas que nunca farão parte do cotidiano trabalhista de um funcionário público, salvo em conversas no intervalo do café, como a lembrança de John Gleen orbitando a terra ou o apreço pela Semana de Arte Moderna. Suspeito corretamente que não considerar o general desertor sírio como líder de um conselho revolucionário vai me valer um erro e mais tarde descubro acertada a  suposição. A prova recorta as manchetes e tem posição política definida: não questionar. Ao menos isso é mais pé no chão do que saber qual o primeiro estadunidense a orbitar a Terra. Não questionar é uma constante de funcionário. Ou será do brasileiro?

As horas passaram, fui ao banheiro ao final das objetivas e o detector de metais não apitou para minhas moedas e chave no bolso, e nem pra fivela do cinto. Foi a prova mais tranquila que fiz até agora. A sombra da fraude ironicamente deu um ar nonsense a tudo aquilo. Mas é essencialmente uma piada. Mais tarde veio a notícia que as provas do meu cargo foram anuladas. Depois mais irregularidades afloraram. Sorria meu bem, você está sendo lesado.

De 2010 até este ano foi o período em que mais fiz concursos na vida. Um padrão emergiu desse período. Concursos com inscrição cara e poucas vagas, geralmente fraudados ( A prova está até na sabedoria popular, será que eles estão errados? ) e concursos com muitas vagas, de inscrição mais baratas, ocasionalmente manipulados. O de Domingo último um exemplo mais evidente do primeiro tipo. O segundo, foi o concurso para a prefeitura de Porto velho que precisava urgentemente contratar mais professores e médicos. Para não ficar com somente 60 professores aprovados, nove questões específicas foram anuladas.  Agora podem chamar mais de quinhentos professores. Manipulação favorável aos candidatos. A dos concursos fraudados só é favorável a quem já está previamente escolhido. Cartas marcadas, a piada recorrente. Cartas na manga, a piada dos gestores reféns de um modelo de contratação que é como a maioria das coisas no país, por fora, sério, por dentro pantomima. Sem desmerecer essa última.

A chuva cai, a BR 364 abre cada vez mais no meio, o trânsito desviado para um rua precária, como quase todas as vias não principais de Porto Velho, onde fora das avenidas predomina o mosaico entre asfalto e lama. Engenheiros formados com excelência, cálculos medíocres nas edificações, nos projetos da cidade, na receita do asfalto. a água enche os buracos na rua, olhos do chão refletindo a luz dos postes.

Espelhos onde a educação vê seu verdadeiro valor na sociedade.

Como ensinar a importância do invisível que não é deus?

Uma resposta deve ser formar burocratas.

domingo, 9 de outubro de 2011

Why So Serious?

Nos últimos dias, a proximidade dos dia da Criança gerou uma campanha no Facebook, convidando os usuários a trocar a foto do perfil por uma imagem de um desenho animado da infância, para gerar consciência a respeito da violência infantil. Em 24 horas, 100.000 usuários do Facebook mudara sua foto do perfil como proposto. Na sequência da campanha bem sucedida, iniciativa do blog Insoonia, começaram a aparecer diversas críticas: modinha, farsa, hipocrisia, ingenuidade, vergonha, hipocrisia entre outros adjetivos usados e foi enfatizado pelos críticos a inutilidade da campanha, a decepção com as manifestações online da geração atual geração e como um protesto de verdade deve ser feito nas ruas para alcançar resultados efetivos.

Fico admirado como algumas pessoas levam tudo ás últimas consequências nas redes sociais. Imagino que para elas a convivência social online seja em muitos momentos um insuportável pesadelo, e me intriga saber porque elas se sujeitam a um ambiente que lhes causa tanto desgosto por fazer parte da humanidade. Um simples protesto simbólico vira uma afronta, a visão de vários usuários mudando para desenhos animados causa náuseas e a pessoa se sente no dever de alertar a todos que aquele não é o caminho, que há coisas melhores a se fazer, como se testemunhasse todos os amigos e vizinhos se convertendo a um sombrio culto de fanáticos, ou quem sabe, presenciando impotente à Invasão dos Ladrões de Corpos, versão online.

Ocorre nessas críticas um grave nivelamento por baixo do senso crítico dos usuários de redes sociais. Como se todos que participam da brincadeira não soubessem  que ela ocorre exclusivamente online, restrita ainda ao Facebook e ao Twitter, principalmente. Pior, pressupõem que as pessoas não sabem a diferença entre o online e o offline, ou seja entre o que existe somente na tela do computador e o mundo real fora dela. Como se as redes sociais fossem um oceano de gente fútil e superficial onde raras pessoas profundas, inteligentes e sérias existissem. Claro que essas pessoas profundas e conscientes são os críticos da "modinha" dos desenhos animados. Agora quem será que não está entendendo o significado do conceito de simbólico?

Parece que os indignados críticos não conseguiram entrar no espírito da brincadeira. A campanha aparentemente não conseguiu chamar a atenção das crianças que eles já foram, mas sim dos adultos sérios e responsáveis que eles são. Fico imaginando se eles fossem convidados a brincar de roda em uma praça pública, para chamar a atenção contra a violência  infantil, demonstrariam o mesmo desdém ou ficariam discutindo com os participantes sobre como aquele ato é inútil e ridículo e não muda nada a cruel realidade da violência infantil.

As pessoas porém sabem que uma campanha não muda a realidade da noite pro dia. Ninguém promove uma campanha ou protesto acreditando que dele virá a solução definitiva dos problemas abordados. Iniciativas como são tentativas de conscientização. Se algumas pessoas pararem para refletir, já terá sido melhor do que nada fazer. Será isso idealismo demais? Sei que o ato de parar pra fazer algo simples, mas não habitual, como trocar a foto do perfil, me fez procurar na lembrança qual era um dos desenhos mais antigos que eu gostava de assistir quando criança. Descobri mais sobre o título do qual só me lembrava o nome e comparei isso com as impressões que o desenho me causava.

Mas o mais importante é que fazendo isso me lembrei do fora ser criança. Me senti novamente na infância. Será que conseguir se colocar no lugar de uma criança, mesmo esta sendo aquela que você já foi um dia, não tem nenhum efeito na conscientização contra a violência infantil? E um efeito mesmo que pequeno deve ser desprezado? Mas mais importante, você ainda consegue brincar um pouco, sem compromisso e entregue á brincadeira como quando você era criança?

As fotos trocadas de perfil são uma brincadeira e se você não quer participar, tudo bem, não precisa se sentir pressionado pela massa ignara. Fazer algo obrigado é justamente contra o espírito da coisa. Não leve a coisa tão á ferro e fogo.

Let's put a smile on that face!


segunda-feira, 14 de março de 2011

Guia para o futuro Professor do Projeto Ribeirinho





Para poupar tempo aos novos professores que estão entrando no projeto e dar uma ideia do que fará parte de seu novo cotidiano. E em honra ás listas e todas as histórias que podem ser contadas pelo que consta nelas.

Lista de material básico (fora a cesta básica):
    • Rede
    • Pasta de dentes
    • Escova de dentes
    • Fio dental
    • Sabonete
    • Shampoo ( recomenda-se shampoo-condicionador )
    • Desodorante
    • Perfume
    • Bloqueador Solar
    • Repelente
    • Produto para descontaminar a água ( na falta ferver )
    • Comprimidos anti- térmicos
    • Comprimidos para dor de cabeça
    • Pomada para micoses
    • Óleo de Andiroba (para feridas, e pruridos)
    • Soro fisiológico
    • Remédio para a flora intestinal ( em caso de diarreia )
    • Remédio para diminuir diarreias ( em caso de diarreias )
    • Anti-alérgico ( para pessoas alérgicas )
    • Anti-depressivo
    • Anti-convulsionante
    • Gel para contusões
    • Pomada para picadas de insetos
    • Papel higiênico
    • Tesoura
    • Cortador de unhas
    • Pinça
    • Agulha e linha
    • Gaze e esparadrapos
    • Band-aid
    • Camisas sem manga
    • Bermudas de tecido leve
    • Panelas ( quantas forem necessárias para preparar uma refeição básica )
    • Chaleira
    • Leiteira
    • Copos e canecas em quantidade suficiente
    • Talheres
    • Talheres para preparar a comida
    • Pratos
    • Garrafa térmica para o café
    • Garrafa térmica para a água
    • Jarra para fazer suco
    • Panos de prato
    • Esponja
    • Detergente ou sabão em barra
    • Palha de aço
    • Potes plásticos para guardar bolachas ou outros materiais perecíveis ( recomenda-se no mínimo quatro, de tamanhos diferentes )
    • Fósforos
    • Ventilador
    • Lanterna
    • Pilhas ( recarregáveis de preferência )
    • Isqueiro
    • Álcool 90
    • Gasolina ( sessenta Litros )
    • 1 litro de óleo para motores de Dois Tempos

Kit reparos:

    • Chave de fenda
    • Chave de Boca
    • Chaves Allen
    • Chave teste
    • Torquesa
    • Martelo
    • Pregos, porcas, parafusos e buchas
    • Furadeira
    • Canivete
    • Serra de arco
    • Serras sobressalentes
    • Bisnaga de cola para cano
    • Joelhos, juntas, encaixes variados ( no mínimo três de cada )
    • Canos de diferentes espessuras ( no mínimo dois metros de cada )
    • Torneiras, registros e válvulas sobressalentes ( no mínimo três de cada )
    • Fita veda Rosca ( dois rolos no mínimo )
    • Tomadas e espelhos de tomada de tipos variados ( no mínimo quatro de cada )
    • Plugues de tomada de tipos variados ( no mínimo quatro de cada )
    • Fio elétrico de três espessuras diferentes ( mínimo de quatro metros de cada )
    • Fita isolante preta ( mínimo de dois rolos )
    • Alicate
    • Dimmers sobressalentes ( mínimo quatro )
    • Durepox
    • Fonte de computador sobressalente ( mínimo duas, uma ATX e outra a compatível com modelos AT )
    • Lâmpadas ( mínimo cinco )




Kit telefonia ( Caso você queira telefonar ):

    • Terminal de telefone com jacarés ( próprio para conexão mais rápida)
    • Conjunto chaves mestras para abrir equipamentos de telefonia
    • Clippers e peças sobressalentes diversas ( próprias para rádios da operadora Oi )
    • Fio telefônico (dois metros no mínimo )
    • Placa padrão de orelhão da Oi-Brasil Telecom sobressalente
    • Manual para reprogramação de placa de orelhão
    • Manual de configuração de rádio da Operadora Oi Brasil Telecom
    • Manual de eletrônica básica


Habilidades e cursos requeridos de um futuro professor do Projeto Ribeirinho
( Além da respectiva formação acadêmica na respectiva área de ensino ):


    • Noções de primeiros socorros
    • Psicologia comportamental
    • Levantamento de peso
    • Massagem lombar terapêutica
    • Natação
    • Eletricista
    • Encanador
    • Contabilidade
    • Pilotagem de barcos ( emergências acontecem. )
    • Negociação
    • Ouvidos Moucos para fofoca. ( Não ensinada na academia. )


domingo, 13 de março de 2011

Botequim de Barnabás.: Meu Ano Novo

Botequim de Barnabás.: Meu Ano Novo

Meu Ano Novo



Tentei mas não fiz uma retrospectiva de 2010. Era o último dia do ano. 2011 já passa do carnaval. Então recordo: o que foi 2010 para mim?
Virei o ano um tanto amargo. Expectativas frustradas, desencontros, ilusões. Roteiros batidos tantas vezes executados ao longo da vida. Me deixei levar pela indolência dos desterrados, pelo cotidiano transcorrendo entre o meditativo e o melancólico. Mas não por muito tempo.
Conhecia uma moça a tempo,da rede de computadores. Ela veio me encontrar pessoalmente em finais de Janeiro. E minha vida mudou graças a esse encontro. Conversamos muito mais nos meses seguintes e comprei uma passagem em suaves prestações. Após quase 12 anos no Desterro, mais conhecida na mídia como Floripa, mudei de capital. Fui para Porto Velho, Rondônia.
Partida de Curitiba, escala em Cuiabá. Em poucas horas, lá estava eu. Hotel barato, quarto quente com um ventilador velho e sujo. Depois conheci Candeias do Jamari e um surreal hotel de beira de estrada.
Passei frio em PVH na primeira semana na casa da futura noiva, dormindo na rede na área de serviço. E foram as mais baixas temperaturas desde então. Morei em uma quitinete térrea, com exterior de cadeia e banhada pela poeira vermelha da esquina movimentada. Do sul ao norte do país, morando em uma rua de areia ou terra.
Fiz concursos para professor. Não passei em um, tive mais sorte no da prefeitura de PVH. Virei professor do ensino fundamental II, na zona rural, especificamente do Projeto Ribeirinho. No Projeto os professores descem o Rio Madeira e passam quinze dias nas comunidades ribeirinhas dando aula e depois retornam para Porto Velho e passam mais quatorze dias na capital, pois um é para a reunião de pessoal. Entrei nessa rotina em Julho.
Passei os meses seguintes conhecendo uma comunidade do baixo Madeira, a cultura ribeirinha, a simpatia dos ribeirinhos, as belezas da natureza local e os horrores da realidade educacional do município. Meu quarto-sala alagou pelo ralo do banheiro, fui embora. Ensaiei alunas para apresentações de dança, observei de perto os grandes jacarés do Lago Cuniã, acompanhei o campeonato local de futebol e presidi a mesa. Testemunhei o período eleitoral e vi o fundamentalismo cristão mostrar a face rançosa.
Pedi em noivado a moça que me trouxe pra Rondônia. Levei ela para conhecer a comunidade em que trabalhei. Distendi a coluna de tanto carregar bagagem pras localidades. Terminei o ano letivo indo fechar matérias de 2009 na comunidade de Demarcação, sem telefone nem internet, mas com tevê Globo. Tomei muito banho de cuia. Terminei o ano quase saindo do Projeto, mas permaneci. Passei o ano novo com a família e apresentei a noiva. Mostrei a ela a lendária capital do país e artefatos diversos do meu passado. Brindamos ao futuro. Voltamos a Rondônia, marcamos o casamento, o cartório quase atrasa nosso processo, os preparativos se atropelam mas afinal, casamos em pleno carnaval, com direito a samba de bloco pra saudar a entrada da noiva. Meu 2010 se encerra agora e 2011 começa oficialmente após o carnaval, como é tradição da pátria. Mudei. Girei cento e oitenta graus e sacudi a falta de perspectivas. Já era hora.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Museu Vivo na minha Memória Candanga

Lendo sobre uma apresentação do Esquadrão da Vida  no Museu Vivo da Memória Candanga recordei do tempo em que participai do Grupo de teatro e das muitas tardes que passei por lá. Era longe de casa. Morando em um extremo de Brasília, precisava pegar um ônibus até a Rodoviária e de lá, outro para o Núcleo Bandeirante ou Candangolândia, para chegar. Era eu e o Aluísio indo de lotação na maioria das vezes, nos dois percursos, porque era mais rápido que ônibus com regularidade entre trinta a quarenta minutos. E até hoje desconfio que continue sendo. Quando era possível, pegávamos carona.

As lembranças desse período intensamente teatral entre meus dezenove para vinte anos são um mapa. A parada de ônibus lotada na chegada e na saída. A concessionária de automóveis brilhante contrastando com a entrada humilde do Museu. A guarita e suas solicitações. Uma estrada asfaltada a pé. Casas coloridas em uma rua como um parque temático vazio. Oficinas distantes umas das outras onde equipamentos funcionavam em horários  diferentes do nosso e trabalhadores invisíveis deixavam sobras de material como  único indício de sua existência. O prédio onde ensaiávamos, com platéia e palco. A área externa entre um prédio e outro onde treinamos acrobacias. Lá após muito custo dei minha primeiro e única virada completa, quase bem sucedida não fosse minha testa. Apesar de ter sido só um acidente cênico do meu ponto de vista, pois não me machuquei de verdade, fui colocado em repouso, mas tinha certeza que podia tentar de novo. Um padrão no piso da área copiado na contra capa do caderno, a planta de um cenário esperando uso. Um ensaio do lado de fora, embaixo das árvores, onde Ary tocava uma música de andamento complicado e explicava  o porquê disso. O escritório administrativo no meio das casas coloridas, na rua de quase de brinquedo, onde de vez em quando íamos solicitar alguma coisa. As mangueiras carregadas, forravam o chão debaixo delas. Onde em um momento de folga sentar para chupar mangas com uma colega e um funcionário do Museu, encontrando na distração alheia um erotismo ancestral e pueril.

Tudo no Museu era transitório mas permanente. Um lugar fora do tempo, difícil de alcançar e cansativo para sair. Uma cidade interiorana para habitar, uma ilha de quietude cercada de trânsito. Na volta íamos retornando ao ritmo frenético da cidade e na rodoviária de Brasília eu e Aluísio tínhamos nossa pausa para o lanche. Comíamos na clássica pastelaria Viçosa. Semana após semana. Numa delas a fritura e o caldo de cana cobraram seu preço em abundante desinteria, mas após uma pausa na dieta voltamos com um ritmo mais comedido. Quando chegávamos em casa após o segundo ônibus, o ensaio acrobático virava prática. Eu não tinha chave de casa e por algum motivo estranho nem uma cópia. Chegávamos muito antes dos meus pais voltarem do trabalho. Nosso primeiro desafio era a cerca de ferro e seus espigões metálicos. Fácil graças ao muro do vizinho. Depois entrar na casa. Espetos de churrasco viravam gazuas, pinças desajeitadas para chaves distantes acaso esquecidas. Ou fazer Aluísio passar pela pequena janela redonda da sala, ir segurando seus pés enquanto ele deslizava pela parede interna para uma perfeita cambalhota em um espaço exíguo, já avisado para não acertar a mesa com tampos de vidro. O Museu era pura aventura. Temperado com uma missão secreta e sorrateira entre labirintos da papelada, pois o espetáculo não parava.

Parou um um dia para eu descer do barco. Já passava de um ano com o grupo, tempo que estipulei pra mim antes de embarcar, como o daquela jornada. O anúncio da partida quase não saiu da minha boca, instantes antes de falar o tempo congelara. Foi triste o ensaio interrompido. Não parti de vez mas ali no Museu disse adeus. Fui embora do Esquadrão e o Museu ali ficou, vivo na minha lembrança.

E até hoje está comigo. O lugar e tudo que deu significado a ele me acompanha por onde vou. Um museu onde a história é imaterial mas concreta porque estive lá, percorri seus caminhos e provei o eterno criado nas ruas e calçadas. Onde mitos nascem entre poeira, pés e canção.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010