segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Feliz Natal Guff !!




Dia 21 de dezembro de 2008, pela manhã, Guff, um pequenino Yorkshire partiu deste mundo. Foi encontrado na calçada externa da casa e enterrado pelo meu pai. Foram quatorze anos de vida. Um membro da família.



Eu tinha dezenove anos quando ele chegou em casa, agora tenho trinta e três. Foi comprado para minha irmã, a segunda tentativa dela ter um cachorro de uma espécie pequena, após uma poodle toy preta, morrer em decorrência de cinomose. Guff foi o primeiro filho dela, antes deste realmente vir ao mundo. No começo ele tinha seu cantinho, uma casinha dobrável de espuma, onde aprendeu a dormir. Tomou o quarto da minha irmã como território e o defendia ferozmente, assim como á ela. Se ela estava com ele no colo, chegar perto era arriscar doloridas mordidas do seus pequenos caninos, que machucavam muito, contrariando a aparência inofensiva.



Gostava de explorar os espaços da casa e fugir para a rua. Conviveu com três cachorros de grande porte, Dogues alemães e uma mistura de Fila com Dogue. Dessa convivência adquiriu uma exacerbada auto-estima. Era necessário, afinal as mulheres que ele almejava eram descomunais. Essa auto-estima, somada a sua valentia, lhe deu a confiança de viver entre gigantes e talvez por isso ele resolveu dar um olá na casa do vizinho da frente, onde um enorme Fila e mais outros cachorros grandes moravam. Esse Fila o mascou, e satisfeito o jogou para os colegas, que só não o trucidaram porque o dono chegou a tempo. Minha mãe e irmã o levaram chorando para o veterinário, sem esperanças. Ele foi todo costurado de volta e sobreviveu. Passou a semana de sua recuperação tendo pequenos ataques epiléticos, ou surtos semelhantes em aparência. Seu sistema nervoso abalado. Quando voltava ao normal resolveram dedetizar a casa contra ratos e ele ficou mal, quase morrendo novamente.



Por essas e outras ficou provado que a ele não servia o estereótipo de cachorro de madame. Quando foi comprado havia recomendações de que ele não podia ficar exposto a ventos fortes ou mudanças bruscas de temperatura e que uma queda de um metro seria fatal. Ele sobreviveu a muito mais. Passou por outras dedetizações, criou tártaro que o envenenou, poucos anos atrás, sobreviveu a uma transfusão de sangue. Uma vez eu arrumava a mala ás pressas para viajar e sentei na cama para amarrar os sapatos e o estrado caiu em cima dele, quase o esmaguei. Guff não era frágil como parecia. Tenho a impressão que muitas vezes, sutil e discretamente ele segurou a barra da família, como todo cão faz desde os tempos imemoriais do contrato entre espécies, atuando na diáfana fronteira do desconhecido. Na última ocasião em que, segundo minha mãe era para ele ter morrido, uma ano ou seis meses atrás, acendi uma vela por sua recuperação. Era um período de muito stress, tanto para mim como para minha família e tive a impressão que ele estava sendo exigido muito além de suas capacidades. Com a queima daquela vela antigos elos da adolescência também foram embora. Por uma boa causa. Era o mínimo que eu podia fazer por um amigo.



Penso em tudo que vivemos juntos. Em seu companheirismo, várias vezes ficava no meu colo enquanto em madrugava em frente ao computador. Sempre raspava a porta do quarto pra dormir perto da gente, como havia acostumado com minha irmã. Fico pensando nesse período que ele participou da minha vida e da minha família. Fico triste por não ter estado lá com ele nesse momento derradeiro, mas morrer insiste em ser uma experiência solitária. Lembro que cogitei trazê-lo para morar aqui, mas seria cruel retirá-lo do seu lar de tantos anos. Além do mais ali ele está bem acompanhado. Muitos ossos caninos repousam no jardim. Imagino que sinalizem um caminho tranquilo para o acordar.


Meu presente de Natal para você Guff são votos de uma boa viagem e uma boa estada em seu novo lar. Tenha uma boa passagem e mais que um Ano Novo, uma nova existência. Muito obrigado por ter compartilhado a sua conosco.



Acorde, o Natal chegou.

Feliz Natal!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Abajo la Calle




A orquestra vira a esquina comigo, a cidade é um cinza de azuis violáceos refletidos no calçamento e o cais do porto ao final da rua ofega, entre uma baforada e outra. Cada círculo de fumaça é mais um partindo, embora o corpo fique para trás, olhando fixo o copo vazio, sonhando aguardente e calor barato em seda velha. Emborcando o chilreio de saltos e o suave estalo só deixado por lábios carregado de batom. A saca de estopa vai aos ombros, arranhões preliminares da amante, seu peso firma os pés e cada passo é um ensaio de dança, seu volume testado pelos dedos é a resistência da parceira e as pedras no piso são as linhas da pele de seus ombros. O calor do meio dia é o do corpo dela e o vapor subindo das pedras é seu perfume barato. E ele segue ao armazém com quem sobrevoa savanas desconhecidas em um balão. Os grãos o odor de um incêndio distante, irritam os olhos com a bruma de um ocaso, no horizonte um sol castanho emoldurado pela pausa quando o solo erodido freme, á espera do próximo movimento. Cílios da noite chegando estrelada no suor da fronte, gotas no dia a pino gemem evaporando nas pedras. E a noite se instala em volta das luzes amareladas, ao redor das ruas emaranhadas, na superfície dos sapatos de couro e de verniz, por fora dos ternos de feltro e dentro das rendas francesas, contorna os maços de cigarro, enrosca os de dinheiro, sopra através dos violões e sonha preguiçosa dentro dos acordeões. E em suas mesas, no salão, ao bilhar, no balcão, á beira da porta, nas calçadas entre corredores e becos, nos quartos abafados, estão eles, tantos olhos de um deus morto, roubados só para te conquistar.



Suas órbitas vazias ainda estarão lá, quando olhares o cais do longe do último barco, como uma brasa apagando o horizonte. Órbitas vazias, pés descalços, piso frio, a aurora entrará lenta entre olhos cegos e só assim finalmente poderei lhe ouvir. E só no vazio serás melodia...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Fantasma além

É noite, as caixas de som zunem, o computador sussurra, a geladeira estremece. Ouço a noite, seus insetos, o som da luz nos postes, o mar ao longe, alguns carros na estrada. Preparo aula, estudo, escrevo. Imagino você chegando, geist über weltgeist.

Sua risada, seus gestos, seu cigarro e uísque, sua pomba-gira auto-imune, Maria Padilha niilista. Sinto você atrás de mim, observando minhas atividades. E você põe a mão no meu ombro, essa mão fantasmal que já esteve tão perto, os dedos, o contraste entre palma e costas, as linhas, o relevo, o tempo de uma dimensão paralela. A áspera maciez de um país imaginário, o frio de seus regatos, o calor de suas fogueiras, a cantiga do vento desbastando as montanhas quando sua mão desliza contra minha pele, seus dedos escavando novos vales envolvem meu pescoço com a lentidão das geleiras. As estações passam enquanto sinto você inclinar-se sobre mim, seu cabelo como uma nebulosa atravessando o sistema solar, seu aroma um vapor de terra, seu calor o sol idealista de uma primavera.

E você me abraça. E demora comigo em silêncio, esquecendo o tempo, finalmente sem pressa. Universos se interceptam e você colapsa um beijo em minha bochecha. Deixo as ondas de choque se dissiparem pelo cosmo do meu crânio e você vai. Vejo-te partir, no rumo de teus sonhos, como a bruma de uma manhã na serra do mar, revigorada e cheia de esperança.

Dança no sol minha melhor vampira...

No ar dançam cinzas, e fico a pensar se todo coração é um origami.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Finitude

Quando acordo de madrugada para ir trabalhar e na minha primeira ida ao banheiro defeco apenas sangue, penso na finitude. Lembro dos morros na paisagem e imagino o horizonte de eventos da minha vida estreitando, até o derradeiro colapso. Sinto um grande silêncio, expandindo de dentro para fora daquilo que entendo por minha consciência. Penso nas histórias incompletas e nas ainda por contar. Penso nos intraduzíveis momentos quando dialogo com a lista de músicas, em todas as idéias amigas que passam por mim, a caminho das metrópoles mentais da humanidade, para mais um dia de trabalho. Penso nos amigos verdadeiros, em todos os instantes de cumplicidade como velas iluminando uma grande casa de madeira, prestes a queimar. Lembro da cama desarrumada e vazia no quarto, um lado mais amassado do que o outro. Penso em nas minhas prioridades, no quanto é bom estar sozinho, poder partir sem angustiar uma companheira. leio o que escrevi agora e suspiro a incontinência do melodrama. Pensar em fins atrai o vampiro do drama.

Penso em você. Na distância entre nós, se meu afeto não é somente outro hieróglifo de uma busca na qual escolho perder-me para não ter de olhar para o caminho á frente e o sentido de estar nele. Na última semana meu sentimento por você é mais uma escultura na sala de estar, ao lado de São Francisco de Assis, da estátua marajoara e do negro de madeira. Sem ter contato contigo, fui colocando tantas camadas de verniz nele, que agora posso olhá-lo como se não fosse meu. Assim fica mais fácil por de lado caso não haja espaço para mim em sua vida. A maturidade por vezes tão maldita cria um lado prático no coração, como um programa de treinamento de um caixa de supermercado. Passar as mercadorias, ver o total, forma de pagamento, empacotar e deixá-las partir. Esperar as próximas da fila. Diante dessa rotina o coração só anseia pelos quinze minutos de pausa na salinha dos funcionários, de onde observa o fluxo dos afetos enquanto fuma um cigarrinho. Hipermercados Samsara. Mas como não há angústia, deve ser o zen do não pertencimento. Não consigo imaginar mais alguém como minha. Só o fato de estar na mesma vida e dividir experiências com você é divino. Mas eu nunca deixei de ser ambicioso.

A passagem do tempo foi criando uma nova orientação sexual, o afeto por espaços antropomórficos vazios. A paixão pelo vácuo deixado onde outrora uma mulher dançava e ria em voz alta. O vazio deixado pela implosão de conceitos como lábios, olhares, pés, mãos. Penso em meu coração como um favo onde a única hierarquia entre as paixões é o nível de realidade delas. Penso em uma amiga especial dormindo sozinha a mais de quinhentos quilômetros de distância. Sabendo assim como eu o quão bom ou ruim é ter uma cama de casal com espaço sobrando. E penso em você. Lembro do quanto a imagem dos seus pés sem meias em uma sandália deixam pegadas em meu peito. Do quanto os instintos de sobrevivência não me deixam examiná-las com cuidado. Pois você vive em um mundo particular. Ao menos da forma como escolhi concebê-la.

Dentro de mim, do centro de uma geleira, preservado, um adolescente de quatorze anos balbucia senil, preso na eterna repetição do mesmo instante. Não é mais uma criança, não posso lhe dar colo. Não é ainda adulto, não posso empregá-lo. Ele espera a alvorada de uma outra vida, após passar pelos bardos e manter a consciência, de uma existência á outra, ver uma nova infância crescer ao seu redor, a chegada de outro adolescer, aprender outra vez a gostar. Aprender de novo a colocar o pé na estrada e seguir tranqüilo. Deixo o sonho já vivido da juventude para trás, não sinto mais o frio de suas paisagens.

Penso em você. No esgar canino de teu sorriso visto de lado, a caveira da finitude, no peso de teu olhar quando nele brilha a noite abissal. Na força da tua presença, na tua consistência. Tento imaginar teu gosto. Lembro do quanto a vida é curta. E se não existe alma, não há um depois e tudo cessa quando finda, porque hesitar? No fim basta lembrar do instante em que provei você. É todo significado que preciso. Inclusive para permanecer um pouco mais. A única prova da existência de Deus que preciso é o teu sabor.

Dê-me um derradeiro beijo e apague a luz.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Desertos de mim mesmo

A caminhada não cessa. Vou no rumo de desertos ignotos. Cruzo áridas planícies onde cacos de cerâmica indecisos ora massageiam ora cortam meus pés. Grandes formações de rochas esmaltadas enfeitam o deserto. Admiro as nuances na paleta de cores em cada estátua ancestral, os obeliscos esculpidos pelo vento, a água empoçada nas panelas ao chão. Em todo lugar miragens sorriem dançam ao flamenco que levanta seus véus. O deserto sorri, deixa-se admirar, mas não deita comigo quando anoitece. Recolho meu corpo sob o aroma de suas axilas suaves, sonho nele e ele sonha nações distantes. Sou apenas uma brisa vaga embalando seu sono.

Ao longe maciços avermelhados anunciam outro deserto. Brilham na luz dos trovões de chuva ácida. Paredões de carros compactados comidos pela ferrugem, gigantescos corais de metal. A campina de ferro velho, riachos de óleo, grotões de graxa, onde a vegetação rasteira de placas de circuito integrado bruxuleia.

A noite durmo embalado pelo zunido das máquinas defeituosas. A aurora traz o aroma das selvas de jeans. Acordo ao som das calças esvoaçando, presas entre fios de aço nas copas de espuma e molas dos bancos rotos. O bosque de jeans puído fala comigo a linguagem inefável do silêncio, a pressão das altitudes no fundo do ouvido, quando caio por um segundo.

Começam a nevar manuscritos, as placas queimam, perdem a taxonomia. Tomos gotejam, o chão fica coberto de gramática. Em um súbito sol de voz vejo subir o vapor de conceitos, eles preenchem o ar com seus poliedros. O deserto fala comigo. Seus sólidos me criticam como outrora, mas exibem lacunas. O deserto revela as fragilidades de sua ecologia enquanto boemia.

O deserto não sabe de mim, escaravelho.

Desconhece que em seu pó me espelho.

Não sei onde ele sonha, onde se trata.

Apenas tento ser o silvo em sua prata.

Ali onde um suado trapo de jeans farfalha.

Quero ser daquela navalha.

( )...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sexta Feira Fria

Mais um fim de semana. Desta vez, o ônibus adia por uns quarenta minutos minha saída para a balada. Apesar da via expressa sul, ficamos parados uma meia hora por conta do Jogo do Avaí, um lembrança dos velhos tempos sem aterro, com a Costeira trancada por mais de uma hora. Sigo para uma tradicional área na vida noturna da ilha, para um dos mais típicos bares dançantes do lugar. Local a muito caracterizado como ponto de azaração, onde transcorrem as dinâmicas da vida de solteiro de tantos moradores de Florianópolis. Destaco: moradores, afinal ainda é inverno e há poucos turistas. Contrariando minha expectativa a entrada é barata, primeiro sinal do quanto eu mistificava o local. Não está muito cheio, ótimo pra dançar com desenvoltura e observar os freqüentadores. Logo á porta, um velho conhecido me pede cinco pilas pra completar uma cerveja (600ml= R$ 6,00. Não é a toa que não bebi nada a não ser uns goles oferecidos). No ambiente fechado eu poderia estar em qualquer lugar, mas dada a situação e os velhos relacionamentos sempre reaparecendo diante de você, á física da ervilha de Floripa manifesta-se. No canto do palco minha amigas, uma delas trouxe a colega de trabalho. Em uma dessas inesperadas ironias, o rosto dela e o biotipo me lembram uma antiga paquera Paulista. Acho encantador a timidez, o biquinho enquanto dança, a preocupação com o leve excesso de peso e o senso gregário, aquele impulso de estar sempre em grupo. Estou enferrujado, mas as inusitadas coreografias da amiga que me recorda Carol Dunlop, despreocupadamente desarticuladas vão aos poucos, por imitação,desatando meus nós.

Como é agradável poder dançar despreocupado em uma sexta despretensiosa, botar em dia os ossos e ver-se ainda capaz de seguir um ritmo. O som poderia ser melhor, menos alto, menos gritado, mas a percussão salva a noite. Mas o som é só cenário, o conteúdo humano é o que interessa. Por mais tranqüilo que esteja não deixo de reparar nas pessoas. A simpática moça da portaria, as duas meninas ao lado do nosso grupo, um trio de duas mulheres de preto e um homem de camisa branca. Uma delas de cabelos castanhos mais claros é a namorada dele. A outra é uma linda morena, uma saia blusa e meias pretas. A blusa é cavada atrás e deixa á vista o belo contraste das alças pretas da lingerie com as costas. Na penumbra demoro a notar nela a presença de uma charmosa barriguinha. Cabelo preto liso, franja reta, perfil levemente aquilino, a ossatura nasal destaca-se á distância como um ornamento de cobre velho. Penso por um momento no fato dela estar sobrando, por acompanhar um casal, mas há um silencioso incômodo em sua figura, um sutil hieróglifo moreno dizendo: hoje não.

Mas um rapaz, entre uns vinte oito trinta anos, cabelos pretos curtos e enrolados, óculos redondo, discretas entradas, chega junto dela e a tira pra dançar. Vejo á distância, por cima de ombros, como a interação começa sem jeito, a partir do zero, com dois completos desconhecidos. Ele infelizmente pega uma música para dançar á dois curta, seguida por outra mais rápida, mas segue colado á ela mesmo fora de ocasião. Já fui protagonista de cenas semelhantes em outros momentos. Conversas, mais uma ou outra dança ali e uma tentativa de beijo precipitada. Apesar disso, ambos ficam junto por mais um tempo, até que ele parte pra outra. Após mais ou menos uma hora e vinte minutos desde que reparei nela, a bela morena e o casal de amigos vai embora. Ela percebe que nada mais de interessante vai acontecer por ali, bota um grande casaco cinza, que deixa só as botas de fora e parte com o casal de amigos.

O rapaz de óculos acabaria por ficar gravado na minha lembrança, pois naquela noite ele deu em cima exatamente das mulheres nas quais eu reparei. Eu olhava uma moça e ao olhar de novo lá estava ele. Foi inevitável contar pelo menos umas três tentativas da parte dele. Todas frustradas. Quando o bar esvaziava ao final do show, ele ainda tentou uma aproximação com uma moça de calça jeans e cinto vermelho de crochê, cujos quadris pediam adornos brilhantes e convidavam á noites árabes. Ela também não foi convencida, naquela noite a lábia do rapaz não foi suficiente. O DJ selecionou uma última música, dizendo que para quem não tinha ainda beijado na boca chegara a última chance. Mas o salão já estava praticamente vazio, era fim de noite. Despedi-me das amigas, elas possivelmente engatilhavam alguma coisa ou ao menos uma carona com dois caras e segui para casa a pé.

Ao virar na rua onde tradicionalmente fica quem pede carona pro sul da ilha, eis que reconheço o rapaz de óculos, polegar ao largo. Ele articula aquele monossilábico e formal cumprimento entre dois desconhecidos, cujo única experiência em comum é ter estado no mesmo lugar, quando passo. Sinto vontade de cumprimentá-lo, elogiar o seu bom gosto para mulheres, mas sei o quanto seria impróprio. Ele não precisa de um cínico presunçoso em seu fim de noite. Ele também não está com uma cara muito bem humorada, como seria de esperar. Mas não deveria, pois ao menos ele tentou.

Eis a Fé. Como poderá o peregrino saciar sua sede em um mundo de igrejas vazias?

Sigo em paz para casa e durmo o que me resta da noite com gosto. No dia seguinte penso em como é bom estar livre da ansiedade da busca desesperada por um par. Guardada a advertência de Baden Powell, resta a estrada. E o mundo onde as catedrais acordam de vitrais baços, naves sem fiéis, altar sem velas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Novo Vizinho

Olá Gente( olá?)

Bom quem vem aqui deve ter notado o link ali ao lado.
É um novo blog, só para minhas histórias de ficção e ficção científica.
É um antigo projeto, de concentrar em um só lugar textos variados de ficção, desde contos, aventuras de RPG ou idéias de roteiros de histórias em quadrinhos.

Escolhi o wordpress, talvez seduzido pelo glamour de ser um serviço onde algus escritores interessantes usam como a Cristina ou o aqui desconhecido Cory Doctorow. Ou simplesmente por conta de maiores opções de personalização.
Porém o wordpress não é amigavel para quem publica a base do recorta e cola como eu, do word para a caixa de texto do blog, o que chegou a ser irritante no começo, mas tornou-se uma desculpa para aprender tardiamente CSS.

Mas eles deveriam ter uma simples caixa para edição de fontes...

Bom, o bezoar ainda está por desenvolver, mas está aí. Aproveitem.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Samba do Mês

Quando você acha que tá tudo ruim e não pode piorar, um amigo espírito de porco se inspira na sua vida pra fazer samba:



O seu dedo, você quase decepou.

O cabo do acelerador se soltou.

Sua internet se apagou.

Seu coração, uou, uou.



E Agosto só começou. (breque)



Mas não perca a esperança,

Existir é uma dança,

Chegou à hora de bailar.



Não faça essa carranca,

Se a vida não arranca,

É a hora de trocar.



Troque o câmbio da sua conjuntura,

A caixa de marchas não atura,

As ladeiras do Não Há.



Mude o cabo limpe o freio,

Tem um caminho do meio,

Onde quer que você vá.



Deixe entrar a alegria,

Nem que seja a fantasia,

De o sambista esganar.



Diminua a filosofia,

Pois senão a bateria,

Certamente vai vazar.



Nossa carga já é demais,

Estamos sempre aquém.

No mandando postais,

De um mundo sempre além.



Se a conexão acabou,

O fabricante se mandou,

O investimento não se pagou,

E outro mês nem começou.



Dê-me um abraço casto,

Contemplemos o abismo, pois ele é tão vasto...




Lálalalá lairáralalalairá!

Lálalalá lairáralalalairá!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Lei Seca e transporte coletivo

Na última sexta-feira sai para a noitada de ônibus. O bar de samba, última moda na noite de Florianópolis, já que o forró perdeu o pódio faz tempo, é longe de onde moro, mais de trinta quilômetros. Enquanto duas amigas esperavam no terminal do Rio Tavares, eu ficava em casa procrastinando a possível saída. Por fim me decidi e peguei o ônibus que saía do centro ás 23h05min, chegando ao meu bairro ás 23h33minmin. Procurei não pensar, como tantas vezes outrora, nos hipotéticos obstáculos que poderiam aparecer, frustrando a jornada. Cheguei ao centro ás dez para meia-noite, peguei um Agronômica, fui ao terminal da Trindade, chegando ás 00h17min e lá por fim, peguei o último ônibus para o bairro visado, ás 00h:25min. Tudo correu tão bem, dando a impressão de que o sistema de transporte coletivo estendia sucessivamente tapetes de boas vindas, a cada conexão que eu pegava.

Ao final da noite, apesar das tentativas de pegar carona, o ônibus novamente, no caso a linha Madrugadão Norte da Ilha, nos levou de volta para o terminal do centro da cidade, onde tomamos o Rio Tavares Paradoura e depois, no meu caso, Lagoa Rio Tavares ás 05h50 da manhã (chegou um minuto atrasado no Terminal Rio Tavares, nada demais).

Durante á noite, o assunto Lei Seca surgiu aqui e ali, em um comentário, em uma observação, abordado direta ou indiretamente. As meninas comentaram, influenciadas provavelmente pelo frio de nove graus Celsius, que a arquitetura dos terminais de ônibus de Florianópolis intensifica, no quanto seria bom ter um amigo com carro para poder voltar para casa tranquilamente. Eu concordei com elas em silêncio, achando graça de imaginar a possibilidade de uma indireta. Mesmo que fosse, pouco importava, pois éramos companheiros na mesma barca. Porém fiquei pensando nas grandes estruturas subjetivas da sociedade, abalroadas inadvertidamente pela Lei Seca, como o machismo ou o status social.

Chegar de carro na balada ainda causa, mas voltar nele não mais. Do homem de classe média é retirado seu veículo, símbolo por excelência de seu sucesso financeiro, social e por conseqüência galardão de sua masculinidade, e ele é obrigado a depender da perícia alheia ao volante. Ó revolta! Se ao menos ele possuísse dinheiro para um chofer ou para o táxi estaria tudo resolvido e a crista ainda levantada. Mas não. Até nisso a lei é cruel: relembra ao homem da existência de seus patrões. Daqueles que bebem de rios de dinheiro, inclusive daquele advindo dos impostos que ele paga. Pior, ao ver de súbito a blitz, o homem de classe média flagra em si um medo da polícia semelhante ao de um ladrão, lhe sobe á garganta a náusea de ser nivelado á periferia, local de onde, no seu imaginário, vêem os bandidos. E logo está ele ao bafômetro, os números sobem e ele em instantes de pesadelo vê-se igualado á grotesca figura do malfeitor, antecipa entre lágrimas o abraço acre e emocionado dos colegas de cela, percebe o quão curta é a distância entre o cidadão de bem e o fora da lei. O quanto esse tempo todo ele esteve próximo á sanção do braço forte do estado, enquanto uns poucos, por ele eleitos flutuam imunes ao suor do ganha-pão cotidiano e á miséria. Eis o feio da nova lei: ela iguala. E ninguém quer ser igual. Na prática, apesar da carta de direitos humanos, não existe o meu semelhante, existem os outros, que erram, cometem os crimes e não prosperam. Eu nunca serei um deles e qualquer lei que mesmo na contravenção transforme o outro em meu semelhante é uma aberração.


Não vou aqui questionar a rigidez dos limites de álcool no sangue previstos pela nova lei, álcool e direção não combinam, e pronto. A lei parte de um princípio lógico e razoável. Para algumas pessoas é possível beber dois chopes ou mais e continuar plenamente capaz de dirigir, mas e daí? Na mesma faixa onde transitam com segurança os acostumados a beber e dirigir há lugar para os imprudentes. Vale o risco? No meu entender a solução é simples e cristalina: deixe o carro em casa e vá de ônibus para a balada. Para essa idéia ser viável, mais linhas de transporte coletivo devem ser providenciadas, nos horários da madrugada e principalmente nos fins de semana, como já ocorreu em São Paulo. Tal iniciativa deveria vira um padrão nas outras cidades brasileiras, quebrando a lógica da necessidade de ter carro para sair á noite. Permitindo a livre circulação do lazer.

Por livre circulação do lazer entendo a liberdade do cidadão de ir e vir durante seu período de recreação e entretenimento. Para quem depende exclusivamente de transporte coletivo, tal falta de mobilidade é contornada com um programa que elege um só local para a balada e não está aberta a deslocamento durante a madrugada, devido á falta de meios de locomoção, como o episódio vivido por mim no último fim de semana. Naquela noite eu estive satisfeito com o sistema de transporte público, mas somente porque soube criar uma estratégia de sobrevivência ás condições que este me impõe. É só observar a tabela de horários do fim de semana para ver que o sistema de transporte público trabalha contra você. O número de horários diminui, o desconto do passe estudantil deixa de valer e a noite os coletivos viram uma rara visão. Tanto que ao contar para amigos que consegui curtir a sexta de ônibus recebi olhares admirados. Florianópolis pareceu lhes pareceu, por um momento, funcionar como uma metrópole cosmopolita, a utopia do cidadão urbano devidamente respeitado pela cidade onde mora tornada realidade. Ou simplesmente a súbita iluminação de constatar a existência de uma brecha para a vida boêmia nos horários de ônibus, até então ignorada.

Aqui em Florianópolis os contratos das empresas de ônibus venceram e as eleições se aproximam. Em frente ao terminal do centro, um movimento tenta conseguir assinaturas do povo para pedir uma nova licitação dos transportes. Motivos não faltam e a hora é propícia. Fico pensando como seria bom que as companhias de ônibus urbanos fossem como os candidatos, tivessem de convencer a população do bom serviço vão fazer se contratadas, ou que fazem e vão continuar fazendo se reeleitas. Melhor seria poder identificar os candidatos que possuem companhias de ônibus. Lançar luz no limbo onde habitam políticos e empresas de transporte coletivo. Aquele evento tão deixado ao deus dará pelo poder público, ás obscuras licitações. Porque não inovar e expandir os critérios de licitação? Em um daqueles momentos seja você mesmo o empreendedor, acaso tivesse capital, eu ficaria contente de explorar apenas as madrugadas e fins de semanas, justamente nos horários onde os ônibus tradicionalmente minguam. Com a lei de tolerância zero tenho certeza de que clientes não iriam faltar.

Quer dizer, com a lei e com muito mais fiscalização. Ao sairmos do bar no fim de semana, eu e minhas amigas pudemos constatar vários motoristas embriagados, inclusive aqueles a quem elas pediram carona. Uma delas observou que deviam existir blitze permanentes. Ela está certa, mesmo que na prática falar de fiscalização ás quatro da manhã cause risadas ou o movimento repetitivo de ombros. São necessários mais policiais? Novos empregos no horizonte então. Precisamos de mais fiscais para fazer valer também a legislação ambiental, contratar nunca foi tão necessário.

Estamos em Agosto. O STF julgará a constitucionalidade da lei. Espero que a lei sobreviva a este mês e fique como está, rígida. Não que eu seja simpático ao despotismo brando ou a um estado policial, mas quero ver o quanto a sociedade vai mudar ou permanecer igual com ela em vigor. Agora com licença que vou fazer os cálculos de quanto eu preciso ganhar pra poder usufruir uma corrida de táxi mais de duas vezes por mês. Até a próxima e uma feliz Tolerância Zero para vocês!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Detalhes de morar sozinho

Pensando nas coisas boas de morar sozinho, uma dessas súbitas revelações surgiu dentre detalhes geralmente ignorados dada sua escatológica intimidade:

A súbita economia de papel higiênico.

Como nunca coloquei nessas páginas detalhes da minha vida pregressa um esclarecimento: De 98 até 2006, seja casado, seja em república de estudantes, dividi a casa e suas despesas e alegrias com amigos. Nos últimos anos de moradia coletiva, em uma configuração particularmente agradável, de apenas três pessoas, ainda me admirava a velocidade vertiginosa que o papel higiênico acabava. As visitas claro contribuíam, principalmente nos fins de semana. Sutilmente fui percebendo que as visitas femininas eram as responsáveis pela devastação da mata nativa e sua conseqüente substituição pela monocultura do eucalipto. Após tantos anos para evoluir da incompetência abissal, rumo á excelência em limpeza de banheiros, senti-me como um Sísifo preso dentro de um livro de etiqueta. Onde por mais inútil que pareça a tarefa, não se deve comentar, pois o mínimo é apenas seguir fazendo. Recentemente uma amiga contribuiu inconscientemente para minhas reflexões, ao esquecer no vaso uma pequena tira de papel, indício suficiente para ativar minhas habilidades detetivescas e deduzir que todo o assento havia sido forrado de papel higiênico. Subitamente vi minha singela casinha se tornar um posto de gasolina arruinado na beira de uma estrada secundária no interior, envolto na névoa de poeira deixada pelos constantes caminhões. Um restaurante servindo pratos á base de óleo, cujos freqüentadores não ligam se é de motor ou de cozinha. E em um canto externo, respirando pesadamente como uma besta ancestral com o hálito milenar de heróis e mendigos devorados, pulsando qual um fungo das trevas, um daqueles banheiros que assombravam minha mãe e irmã nos velhos tempos de viagens com a família. Quando você crê ter alcançou um padrão normal de higiene, a vida rapidamente lhe prova o quanto você estava sendo pretensioso, e aquele assento aparentemente tão limpo era na verdade um criatório de micoses ignorado em sua residência, onde uma orquestra fúngica preparava a próxima melodia de sucesso para o verão, aquela que gruda e não sai mais da cabeça.

Mas a vida de quem trabalha com limpeza não é feita de exagerados melodramas. É uma estrada zen de disciplina, repetição e imperturbável avanço. Não questionar, apenas limpar. Tai Chi da praticidade, uma dança objetiva com o caos, desprovida de rancor, focada e justa. Como Krishna matador de demônios. Desse ponto de vista posso compreender a prática de forrar os assentos como uma espécie de sentido transcendental adquirido com o treino, onde um simples assento de vaso (salvo exceção do da própria casa) é visto como um espaço adimensional e eterno, existindo na constante espera de ser forrado, independente das ilusórias garantias materiais de asseio.

Enquanto pratico as minimalistas técnicas marciais do consagrado mestre Miyagi, no banheiro de casa, imagino um dia em que dentre tantos acessórios desnecessários postos pelo consumismo exacerbado dentro do lar, em uma casa inteligente, um assento de vaso interativo detecte o contato de papel higiênico com sua superfície e avise:

Olá! São 16h50min do dia 25/04/2024. Este assento foi limpo pela última vez ás 09h26min do dia 23/04/2024 e até o presente momento encontra-se livre de vida microbiana. Não são necessárias adicionais precauções higiênicas. Tenha uma boa tarde!

Ah, o súbito conforto da oportuna voz da ecologia!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Você se Pintou

Quando vi você a primeira vez, reparei no contraste entre sua beleza e a maquiagem. Naquele dia estava cansado e dormi no samba, um disparate. Depois soube seu nome e lembrei a música do Caymmi. ...”Você já é bonita com o que Deus lhe deu...” Não tenho como me zangar com você nem ficar de mal, e pelo tempo que não lhe vejo, sequer pensar que teu rosto é só meu, mas permanece o encanto daquele olhar com uma certa melancolia boêmia, apesar da água mineral.

Suas sombras debaixo dos cílios brilhavam na luz negra e me remetiam a pintura protetora de alpinistas, um quê de boxeador ou talvez uma pintura de guerra de soldados camuflados. Nada disso escondia as belas olheiras notívagas, um olhar temperado de lúgubre, com um sorriso encantador. Sombras de suas batalhas pessoais, para mim desconhecidas.

Imagino seu horror ao ler tais comparações.

Lembro de uma amiga que recebeu uma esdrúxula cantada na universidade, o cara elogiou as lindas olheiras que ela tinha. Rimos da ambigüidade e veja você, agora elogio olheiras como quem admira uma musa gótica encontrada em uma casa de samba. Paradoxos... Aparentes. Diria-lhe hoje: menos maquiagem (sim, eu vi que você quase não usa). Seu semblante é algo tão doce que não precisa de açúcar, deve ser bebido puro.

Para além dos devaneios, o importante mesmo foi dançar com você e, apesar da minha falta de prática, sentir a maravilhosa tensão de pantera debaixo daquele vestido fino, praticamente inexistente ao tato. A embriaguez poética da única e sutil peça de roupa de baixo. Quando penso na meditação de se ater ao instante e torná-lo eterno, o momento que senti o início da curva de seu quadril e lhe guiei os passos torna-se transcendente.


Grato pela dança.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Também em Fotolog

Ah sim, antes que eu me esqueça, botei em prática uma velha idéia. Confiram:

Invernos Em Floripa

http://www.fotolog.com/bufodiarlechino

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Amor sem tostão

Quero um amor sem tostão,
Um amor sem conquista.
Amor só de coração
E que ela seja paulista.

Dizes que penso de inverso,
Falo o absurdo incrível.
Mas me diz o universo
Com certeza é possível.

Amor sem carro, sem dinheiro,
Sem promessas de pensão.
Amor sem apoio financeiro
E que nunca abra a mão.

Um amor sem cartão
Crédito ou avalista.
Sem compensação
E no Serasa não exista.

Não lhe darei dinheiro,
Transporte ou abrigo.
Mas serei teu por inteiro
E te quero sempre comigo

Não terei dívidas, ativos,
Papéis em ascensão.
Só sentimentos cativos
Do teu coração.

Faltei aula de economia
E de estatística.
Investi na que sorria,
Desprezei a logística

Um amor sem tostão
E que ela seja paulista.
Apenas puro coração
Em plena Paulista.

Vadiar na avenida
Pedir por caridade.
Fundos para a vida
De um casal da cidade.


Esmolar nosso dinheiro
Em frente á FIESP.
Ali nosso afeto inteiro
Aos investidores se despe.

O mundo pode até rir
Da nossa falta de capital.
O teu peito partir,
Mas sigas sentimental.

Sentar no meio fio,
Secar-lhe o rosto
Com a toalha suada.
Choras um rio,
Choras com gosto,
Pois sabes que és amada.

Posso lhe dar amor
Carinho atenção,
Até um filho lhe dar.
Diante do teu estupor
Fazer uma canção,
O impossível provar.

Mas não posso, não quero,
Ter que por esse amor trabalhar.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Segue o ritmo

Fora tentativas de musicar pra ser feliz, as quais levantam as sobrancelhas de meus amigos músicos ao mesmo tempo em que lhes entorta metade da cara, vamos insistindo. O tempo segue frio, os prazos vão chegando ao fim, a comida sobe de preço, tomar cerveja gelada em bar aberto se torna surreal. Velhos inimigos se reúnem em volta dos mesmos rancores no inverno e as novas e inconstantes pessoas em minha vida continuam surgindo e sumindo, na mais tranqüila rotina fantasmal. Assentamento de tijolos, jejuns periódicos, tapetes velhos e a longevidade dos botijões de gás vêm á baila no papo pós-almoço, emoldurando o feijão, arroz com couve e macarrão com abóbora, batata e carne moída. O vizinho tira a sesta e acorda com jazz, enquanto o sol vai oblíquo no meio da tarde. Uma metrópole dos anos trinta desliza devagar do outro lado da rua, subindo o rio num barco a vapor. Ruas surgem entre fachadas e fundos, insinuando o trânsito interior, enquanto os olhos tentam seguir um trabalhador subindo a ladeira. Quem me vê, cumprimenta e segue a rotina. A lama da rua não secou e sua frieza opaca e poças claras me remetem à argila e fornos.

Não seriam todas as ceramistas complexas dobraduras vivas de origami, através do barro dialogando com a própria fragilidade? O papel deve admirar aquilo que pode atravessar o fogo e nascer de novo, novamente em belo e útil branco.

Esfriam as sombras de Junho e a dama de terracota admira o fogo, cercada de azul chumbo, sorrindo danças mais leves, despreocupada como uma bandeirola de festa. Um segundo andar desabrocha como uma oração de alvenaria no fim de tarde, levando consigo o hálito de promessas sonolentas. Só o cálcio sobreviverá.

Faltou á aula

Nunca vi, moça tão prática.
Quando o assunto é amor.
Criou até, nova gramática,
De uma língua sem dor.

Pouco vocabulário
Para falar, de emoção.
Sim, pois é precário,
Neste mundo, ter coração.

Nananina nã, na ni na ni não,
Não gostei de te ver aqui.
Sua visita, é uma opressão
Ao meu senso de piri pi qui.

Tipô puxa, afe, le chatô.
Eu falei, quero só curtir.
Se estive lá, quando lá não tô,
Era só pra não precisar mentir.

Nananina nã, na ni na ni não,
Já te disse não venha aqui.
Sua visita é uma opressão.
Ao meu senso de piri pi qui.

Tadadijadeu, podeirsevá,
Eu já provei, então já passou.
O consumido, usado está.
Não importa se o amor sobrou.


Apesar disso a sua voz,
Qual sólida luz.
Dissipa a ilusão atroz,
Quando a nota conduz.

Quisera eu só amar
Mãe, pai, irmão, irmã.
Tive logo que gostar
De uma filha de Iansã...

quinta-feira, 20 de março de 2008

Livro Afinal

Achei seu livro. Caído no vão de uma escada de uma casa condenada, recusado pelo mofo e pelas traças. Achei seu livro. No bolso de um casaco na seção de achados e perdido do metrô, com ingressos usados do último filme assistido. Achei seu livro. Em uma caixa de papelão por um real, em um sebo ambulante. Em um bote no fundo de uma cisterna, dentro de um embrulho impermeável. Na gaveta de uma mesa esquecida pelo antigo morador. Achei seu livro. E lá dentro, cuidadosamente desdobrada e plana a embalagem de um incenso estava de marcador. Bem no começo. Achei seu livro e ele não era seu, era da autora. Isto é óbvio. Mas ele já era seu estava impregnado em você como um novo aroma e era visível no seu olhar, na sua face. Você sinestesia da sinestesia anterior. Achei o livro, mas o sonho era tarde. Você acordou cedo, entrou em outra realidade. Uma vida febril e muito nova, não cabe nas frases, nem será eterna, porque isso não tem graça. Penso em porque gostamos de cidades invisíveis, de viver nelas e sonhar com planícies ancestrais. Penso que cheguei tarde demais. Mas se pensar assim fica a autora, em outro paralelo aonde nunca alcancei. Meu par perfeito ali no lado de fora. Mas só agora. Encontrada antes não serviria. Mas ficamos bem, os três, cada um na sua realidade.


E o livro é bom, muito bom na verdade.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Clipe

Você olha pela janela. A cidade começa a se adensar. O cheiro agradável do carro começa a feder trazendo memórias demais. Tira os pés do vidro e se ajeita como quem está indo para o trabalho. O mundo acelera em câmera lenta ao seu redor. Você toca a porta e ela abre, o carro parou sem se fazer notar. Sem despedidas, parece um táxi e não risadas, carinho e cumplicidade. Só uma estátua na penumbra ao volante. Sem olhar para trás, seu rosto em primeiro plano e um cenário desfocando ao longe atrás.

Você vaga pelas ruas, o cabelo bate no alto dos ombros e te faz lembrar de quando ele era comprido. Tempos de mestrado, poucos e bons amigos, romances platônicos, muitas promessas. Recorda a saída da universidade com seus colegas, sorrisos, olhares tímidos e cada um deles vai se afastando para um carro, um ônibus, um metrô e você fica sozinha, com a cidade passando atrás como em uma esteira de fábrica, mudando a cada rua transversal que você atravessa.

E estás no presente. O rosto melancólico comprime os lábios em um bico e as sobrancelhas pretas definidas erguem um arco “e se”. O vestido preto e azul agora é branco e você mexe na bolsa, acaricia a lebre caramelo lá dentro, tranqüila entre paredes de veludo vermelho e um piso de grama. Pega um estojo largo feito de jeans e quando ergue vê a si mesma esperando o ônibus, calça puída e tênis gastos, jaqueta um tamanho maior, celular na mão, abre, fecha, olha o ônibus e contempla a tela.

Ultrapassa a si mesma e se vê sentada em uma escadaria, amigas em volta, cortando a calça pra fazer o estojo. Você abre e tira dele uma grossa trança dos seus cabelos pretos com fitas vermelhas nas pontas. Você a coloca no pescoço enquanto anda, é uma gargantilha. Amarra as fitas e antes de dar o nó puxa as pequenas cordas que derramam o azeite de oliva que empapa a trança. O azeite escorre pelo seu colo nu e mancha o vestido. Você dá o nó. Seu vestido começa a mudar para verde escuro.

O mundo desacelera ao seu redor quando você solta as mãos e olha fixamente pra frente, o rosto melancólico substituído por uma determinação impassível. O sol aparece ao seu lado e você sorri na direção dele, lábios com um brilho verde refletem insetos voando. Entrega sua bolsa para um louva-deus gigante que lhe faz uma mesura com a cabeça. Olha pra frente de novo e caminha confiante. Começa a chover.

Você fecha os olhos, ergue o rosto, abre os braços e se joga girando em direção a avenida. Você gira sem parar na avenida molhada e os carros começam a derrapar e giram junto contigo, a água sobe entre eles formando lentas colunas ascendentes. Vista de cima, você é um ponto verde entre manchas coloridas escorrendo em linha reta pelo vidro do carro. Os reflexos da estrada brilham lá fora. Você puxa a aba do casaco com frio e se ajeita melhor no banco. Olha para o vidro e devaneia. O cheiro dentro do automóvel te conforta.

Seu rosto vai ficando pequeno enquanto o carro, a estrada e a paisagem se afastam em ritmo constante, até parecerem uma coisa só.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Manteiga Epifania














Quando olhei pela primeira vez esse pote de manteiga fiquei surpreso com o design. Manteiga em espinhas? Homenagem industrial ao úbere primevo? Um estudante de arquitetura com o prazo apertado para entrega de um trabalho teria ocas modulares em sua mesa. Todas as manteigas de pote até esse dia tinham sido iguais. Planas, lisas, ás vezes com um platô ou outro desnível para um lado, mas nunca assim, organizadas. “É da máquina”, me disse um amigo. Realmente, dá pra imaginar uma esteira e a manteiga vindo por tubos até os bicos dosadores, o suave som semelhante a um flato tímido quando o pote é preenchido. Teria eu sido enganado todos esses anos, por comerciantes que desligavam seus freezers durante a noite e assim desfaziam o singelo padrão? Teria a luz elétrica diminuído de preço, permitindo a volta daquela estética, sem ameaçar o lucro dos mercados com geladeiras ligadas? Nada disso, apenas uma mudança no padrão das máquinas dosadoras. Pelo menos para mim, a primeira em dez anos. A manteiga mais barata do mercado agora vinha com uma experiência estética gratuita. Um inesperado estímulo para racionar o produto quando a grana aperta. Agora havia como escapar da depressão ao constatar a geladeira quase vazia. Uma xícara com a última dose de café, o derradeiro pedaço de pão e uma contemplação.


Amanhece á mesa quase nada,

Ouço os sons do dia

Chega a luz da alvorada.

O café ralo,
No bule espera.

O pão dormido,
Acorda a fera,

A manteiga é destampada.

Urra a pança,
Contemplo a textura.
Espeta-me a lança
Com ternura.

Desço entre monastérios
Cúpulas de ouro sob o sol.


Caminho nas sombras de torres amarelas, uma cidade coberta de arabescos cambiantes, envolta na fumaça dourada de chá de manteiga de iaque. Um sensual aroma de úbere e óleo de açafrão envolve e aperta como diáfanas serpentes de vapor. Á sombra dos palacetes monges dourados ecoam o mesmo mantra. Odaliscas se espreguiçam no umbral de cambiantes portais. Seus sorrisos fluem ao contrário, para cima enquanto deslizam ao meu encontro, ventres generosos e curvas brilhantes derretendo ao sol...

Que ilumina já a mesa e amolece o pequeno quilate de Xanadu ali á espera. Começo a desfazê-lo com a faca...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Noite no subsolo

Eu cheguei no bar com o Jota, naquele meu estilo elegante e lugar comum de vestir, com uma camisa gola pólo e uma calça jeans com aparência de nova. Ele estava como eu, mas seu eterno ar de sambista o tornava mais elegante, qualquer roupa caía bem com sua descontração. Naquela noite eu não estava distribuindo sarcasmo como de costume, mas entregue a uma ansiedade fria e previsível, por isso mesmo controlável.

Em uma mesa no largo corredor do subsolo estavam as amigas do meu camarada. Na verdade vizinhas de prédio. Bom, só Sônia era amiga dele mesmo, a outra era amiga desta. Quando nos viram houve aquela pausa de segundos quando somos sondados com equipamentos de inconcebível tecnologia. Depois, os cumprimentos educados. Sônia era uma moça de altura mediana de uns vinte e seis anos, cabelos castanhos sem franja escorridos até o ombro, um lado mais despenteado. Rosto comum, porém belo, com um sorriso levemente triste que fazia toda a diferença. Usava uma mini saia branca justa e um casaco curto também branco e aberto, deixando a mostra uma blusa apertada de um verde escuro cintilante. Um decote generoso, coxas grossas, belas curvas. Para os padrões do meu amigo ela era gordinha, mas em minha opinião ele sonhava acordado com algum país de virgens anoréxicas.

Gisele tinha ascendência oriental e curvas menos exuberantes, mas firmes e delicadas, que fluíam em conjunto sob o pano ao menor movimento. Usava um vestido roxo, estilo entre medieval e moderno, de mangas compridas e ombros levemente bufantes, mostrando uma parte das costas, expondo o pescoço e um par de hipnóticas saboneteiras de pantera. Seu cabelo longo também tinha mechas e reflexos roxos. Seus lábios carnudos ficavam mudando lentamente de formato, quando ela não estava fumando, como um caleidoscópio de brilho fosco. Infelizmente a maior parte das combinações que faziam com os olhos era de desdém.

Logo que nos sentamos ela ironizou com meus cabelos compridos e minha condição de estudante, fez questão de destacar que ela trabalhava, tinha um emprego em um escritório e se preocupava com coisas sérias e adultas. Eu mal tinha aberto a boca. Nem tomado um trago. Vieram as bebidas e ela forçou um interesse perguntando de que cidade eu vinha, filmes preferidos, livros e outros detalhes. Houve alguma conversa amena entre nós quatro, mas logo Sônia e Jota deram prosseguimento a algum assunto pendente entre eles. Continuei falando de mim para Gisele, consegui alguns sorrisos agradáveis, mas a situação no geral era terrível. Ela me olhava como se eu fosse um tedioso exemplar de uma raça de lesmas peludas, mais um medíocre improdutivo onerando a sociedade, com sua existência. Os mínimos movimentos de seu belo corpo agora eram os de um predador, indeciso entre sujar as garras na imundície ou livrar o mundo daquela aberração na sua frente. E ao mesmo tempo aquela calma por entre a fumaça do cigarro, aquela beleza envolvente como o som de um gongo atordoando os sentidos a cada piscadela. Ela era fantástica, mas isso ficava escondido debaixo da própria merda rancorosa com que ela tinha se coberto. Gisele tinha sido cercada no centro da cidade por uma torcida organizada e quebrada até o menor dos ossos, á luz do dia em horário de almoço. A rua ficou assistindo e ninguém fez nada, seguiu sua rotina enquanto ela permanecia no chão coberta de mijo e fezes. E eu era só mais um cara menor do que o sofrimento dela. Um esboço, um contra regra.

Uma hora nosso assunto morreu e ela ficou dando ostensivas olhadas para a amiga, com vontade de ir embora. Eu já havia reparado que Sônia fazia alguma confissão muito íntima para o Jota, tinha até chorado. Mas ele contou uma piadinha infame e conseguiu levá-la para a pista de dança. Era visível que nada ia rolar entre os dois, mas Jota mantinha a esperança. Os olhos de Sônia estavam em outros rapazes. Gisele viu que ia ter de esperar e tentou disfarçar no seu rosto, sem sucesso, aquela frustração de estar condenada a dividir seu tempo comigo. Sua educação fingida ficava cada vez mais insuportável. Perguntou-me sobre meus relacionamentos e após meu resumo soltou um suspiro irônico. Todo o sarcasmo que descarreguei no mundo estava voltando para mim naquela noite, querendo provar que deus existia e era uma mulher bela, amarga e vingativa. Não agüentava mais. Quando ela estava me ignorando ataquei:

- Porque você tem de ser tão insuportável? O que te aconteceu? Sua amiga perdeu um filho, foi traída pelo ex-marido que roubou tudo que ela tinha e ainda passou AIDS pra ela. Mas ela ainda sai pra balada e curte a vida. Ela teria muito mais razão em ser frustrada com o mundo, mas não é. Não é curioso isso?

- Você virou um livro de auto-ajuda garoto? Se quiser aplaudir vai lá. Ela vai gostar.

- Não, assim como eu ela não está aqui pra dar show, vivemos o presente.

- Fale por você. Ela vive de ilusão.

- Você é amarga.

Ela apagou o cigarro e sorriu, jogando os cabelos para o lado, saboneteiras ondulando como veludo. Inclinou-se devagar para meu lado enquanto falava.

- Não. Vou te contar a verdade, já que estamos aqui após todo esse tempo. Eu e ela somos um espelho. Sou a sombra do teu reflexo. Nós somos tudo que restou do teu lado feminino. Esse é presente. Seja bem vindo.

Sônia chegou da pista, pegando a bolsa e acenando pra amiga. Gisele se levantou e vestiu uma jaqueta jeans clara, ocultando toda a beleza de seu vestido. Jota lamentou a partida delas e ensaiou uma longa despedida. Sentado de pernas quebradas olhei para Gisele, engolindo a verdade. Não podia terminar assim.

- Meu lado feminino? Cadê a terceira de vocês?

Sua delicada mão acariciou meu ombro enquanto ela se inclinava para sussurrar no meu ouvido. Suas voz tinha suaves cliques:

- Então espertinho, essa aí é aquela que assombra as tuas punhetas. Tenta ser mais criativo tá bom? Curte a vida. Tchau.

Deu-me um beijo carinhoso e levantou-se. Pegou Sônia pelo braço e acenou pro meu amigo. Jota sorria, satisfeito e radiante. Cerveja na mão passou o copo, enquanto me cutucava com o cotovelo, repetindo e aí, e aí?

Eu estava mudo, havia sido derrotado. Senti o copo na mão, a cerveja gelada descendo, ouvi minha voz, mas dentro de mim já tinha levantado e ido embora. O bar virou um jogo de luzes coloridas dentro de uma esfera de vidro que encolhia, cercada de escuridão. Eu tinha olhado o abismo e ele me olhou de volta. E riu da minha cara.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Ele chega em casa, abre a mochila e tira as compras da feira, o melado, o queijo e se apressa me guardar a manteiga na geladeira, tomando o cuidado de ajeitar o saco plástico para ela ter um formato mais ou menos quadrado quando endurecer.

- Transtorno obsessivo compulsivo dando sinal de vida!

Ignorando a observação, ele fecha a geladeira e vai tirar uma lasca do bolo recém comprado na padaria. Busca uma faca no escorredor e começa a arrumar a louça e as panelas. Tira a frigideira laranja lá do fundo primeiro, seca ela embaixo, onde ainda tem algumas gotinhas. Fica contemplando a frigideira de ferro pesada, a beleza de seu acabamento. Coloca-a no parafuso na parede, acima do fogão, que é seu lugar cativo. Sorri.

- Rindo de bobo né? Gostei de ver, limpando a bundinha, me sinto quase um bebê.

- Eu gosto de cuidar de você.

- É, tô vendo. Mas podia demonstrar mais consideração, fazendo comigo algo menos comum que um macarrão alho e óleo!

- Nossa que isso, tudo que cozinho em você é especial pra mim.

- “Tudo que eu cozinho em você é especial pra mim!” Que meigo! Mas então FAÇA! Usa direito o que é teu! Cadê o camarão que você prometeu?

- Camarão ainda tá caro. E mês passado eu fiz um quilo.

- Que tava quase vencendo! Sorte sua não ter tido uma caganeira!

- Olha quando for hora eu faço algo bem legal em você tá bom?

- Ah sei! Só porque tá na subsistência não quer cozinhar. Se fosse pra impressionar mulher você fazia.

- Calma lá, não é pra qualquer uma.

- Ah tá, não me esqueci. Só se ela der pra você né?

- Com certeza. Melhor elogio ao gourmet é um boquete na sobremesa.

- Escroto!

- Já que nesse local está armazenado meu banco genético de futuros, vou traduzir isso como se fosse um elogio, um novo termo para criativo!

- Você nem sabe fazer piada.

- Mas sei fazer posta de atum ao shoyu com cream cheese.

- Ah tá bom! Repete bastante que você acredita! Cala a boca, nem aprendeu que não se usa garfo comigo! Esse revestimento aqui não é falso que nem sua perícia na cozinha, ele estraga! Tem de saber cuidar!

- Desculpa, me atrapalhei ontem.

- Isso, vai tratando como se fosse a topa-tudo do cabo quebrado, vai. Essa você abusa, joga num canto deixa com óleo, casca queimada e ela ainda agradece a atenção. Não considera. Não é porque faz fritura que é facinha!

- Mas meu deus, é uma questão de praticidade! Uma pras leves outra pras pesadas!

- Isso, trata o afeto com praticidade pra ver o que é bom! Valoriza cara, valoriza!

- Meu amor é prático mas é amor tá? É sincero.

- Tudo bem, tudo bem... Eu sei, vou me contentar. Nativo de Galo é foda mesmo, muito chato.

- E nativas, então, nem se fala.

- Calado. Você nem lembra quando sua mãe me deu pra ti.

- Depois eu ligo e pergunto.

- Nem precisa. Come seu bolo, toma seu chá, vai dormir, faz melhor.

- Se eu soubesse que a astrologia chinesa ia te fazer mal, nunca teria feito aquele frango ao chop suey... Mas tudo bem, até o fim do mês um coq au vin vai consertar tudo isso.

- Ah, não me enoja, pára de ser vulgar!




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Posta de atum ao shoyu.

02 postas de atum cru

250 ml de molho shoyu

Cream cheese

Alcaparras

Faça o atum na frigideira, com shoyu em vez de óleo.

Se quiser, tampe a frigideira para ir mais rápido.

Quando as postas ficarem prontas, cubra cada uma com uma camada de cream cheese.

Salpique alcaparras a gosto por cima.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Chapa-te de abacate

Uma receita interessante passada pelo Carlos, na época que teve de reformar a casa onde morou em troca dos aluguéis atrasados, e cozinhava numa clareira de mato ao lado dela, era um chapate de abacate, quase um bolinho, por conta da grossura. Chapate geralmente é só farinha de trigo ou integral, água e sal, e um fio de óleo se você quiser. Mistura-se tudo até ficar consistente e deixar de grudar na mão. Prepara-se em uma frigideira ou panela baixa, sem óleo.
O abacate já tem óleo até demais, então você só vai precisar de água para dar a consistência da massa, além do sal. Se quiser, pode acrescentar um pouco de suco de limão no abacate antes de misturar com a farinha.

Aí é só servir. Com café ou com suco cai bem.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Reforma

Bem, tava precisando de uma mudança de ares.

Pra começar um sambinha descompromissado.
Nada muito rápido, leia com uma melodia tradicional na cabeça,
entre Martinho da Vila e Paulinho da viola, sem pretensões, sem medos, sem metas.



Indiazinha universitária,
Dançando tão bela
Gingando, sorrindo.
Daquela festa ela
Estava fugindo.

Encontrei-te de novo
Na faculdade
No meio do povo
Falamos até tarde.
Um beijo tão doce,
Dissipando a tristeza.
Caminhamos até sua casa
Sentamos á beira da mesa.

Naquela sala você mudou de idéia.
Disse que era engano,
Seja meu amigo.
Minha beata virou atéia,
Atrás do pano
Sozinha, no sofá dormindo.

Sem malandragem,
Sem afeto.
No seu pé tatuagem,
Deixei em projeto.
Dia seguinte,
Cama arrumada.
Aluno ouvinte,
Tese rejeitada.

O tempo passou,
Eu me formei.
Uma pós calhou
E te encontrei.
Você me cumprimentou,
Eu rejeitei.

Á distância sem jeito
Esboçaste um abraço.
Não, nada feito,
Se já passou, eu passo.

Vejo esfriar
Tua espontaneidade
Podes culpar
Minha personalidade.



Não guardo rancor,
Daquele dia aziago.
Reconheço o valor
De um remédio amargo.

Dia seguinte,
Cama arrumada.
Aluno ouvinte,
Tese rejeitada.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

E você, como reiterado contrário, de pijama e mascando chiclete gasto, assombra minha manhã sendo um par agridoce em um romance improvável. Seu olhar de predador permanece aceso, do alto de seu cansaço de seguidas noites em bancos de ônibus, ou de uma jornada proveitosa pelo inconsciente dos homens. Teimosa, se aproxima da beirada da cama e senta como se estivesse contrariada por fazê-lo, seus lábios sustentam uma eterna promessa de sorriso não concretizada. Nosso diálogo simplesmente está ali, sem começo nem fim, apenas ritmo conduzindo uma lânguida e sinistra capoeira, evocada pelo excesso de branco algodão, lençol e moletom. Em nosso aconchego descubro o fator comum entre tempo, gravidade e uma conversa: o beijo. Dentro daquele sólido sinto seu chiclete sem gosto fazendo malabarismo, tentando passar pra minha boca.
Só quando acordo a lembrança de nunca ter dividido goma com outra boca se instala. Assim como jamais, jamais.

Lá, você retorna á penumbra, descendo devagar em um vasto tacho de óleo fervente. Suas roupas deslizaram para ás sombras, como tiras de serpentes voadoras. O cabelo curto espeta a curva do ombro quando seu rosto olha por cima, desaparecendo em silêncio no sibilo monocórdio do azeite imperturbável. Até restar só a superfície de um sussurro homogêneo, imiscível.



Uma manhã com um suspiro dúbio na mesa do café. Existem ironias e existem paradoxos. Mas melodrama nunca deixa de ser popular na tela da vida interior. Principalmente os bem feitos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Uma análise posterior

Prosa de uma paixão

Uma linha reta cortando o espaço, naufragada de inumeráveis planos e nós agarrados a ela, com infinitas facas, fincadas nos pescoços dos dragões e me beijas, o ar lento eviscera flores selvagens do sorriso cálido, a banhar abismos vários, das faces que visto.


Sinta. Meu vôo é negro sobre os azuis, brilhando nos botões de almas ainda não abertos. Falésias raiadas rasgam-se nos ossos fundos dos gigantescos gestos, semeados na amplidão de flores vastas, dançarinas.


Meu bebê é um coração cálido aninhado no peito, imenso templo de fluido metal róseo, quente se faz vulcânica pena do penacho da ave fogo, a aquecer este ovo negro, por ela posto e nele imersa. O olho púrpuro na treva orgânica das palavras mágicas, do coral atômico de tuas células.


Eu sou longo como o instante da carícia e amplo como olhos que se tocam, nas almas cruas que se beijam, ao cair oceânicas na lágrima de alegria.




Quando releio esse meu delírio platônico, voyeurístico e auto-acariciante de meus dezenove anos de idade penso em metal melódico, emotividade, na poesia de botequim e como tudo isso ainda tem um assustador apelo e público consumidor até hoje. Um título mais apropriado seria Prosa de uma Masturbação, um panfleto adequado a um banheiro onde se realizaria enquanto arte laxativa, trazendo a tona o melhor de nosso mundo interior, o alívio de se desvencilhar daquilo que não mais nos é necessário.

Pais e mães, se seu filho adolescente está ficando muito interiorizado, reflexivo, demasiado devaneante, leve a sério, cuide. Não o deixe emostar demais. Façam uma boa e velha viagem: Colômbia, Namíbia, Coréia do Norte, ou ao menos, uma montanha russa, Simba Safári á pé, rapel em cachoeiras, canoagem, atividades felizes como essas. Isso tem que ser tratado como um canal dentário, meticulosamente.


Faça qualquer coisa, pra não ter de recorrer á quimioterapia quando for tarde demais. A febre do devaneio, quando se instala, demora décadas para ir embora. Acredite será bem melhor para seu filho não acordar de madrugada sonhando namorar alguém que o despreza.