segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Domingo quase no fim

Hoje saí pra beber umas com uma colega de faculdade e companheira de décadas, visto que temos praticamente a mesma idade. Botamos o papo em dia enquanto ela esperava pra buscar o namorado na rodoviária. Um bom momento em que a plaquinha do msn dá lugar a pessoas com substância. Recordamos entre tantas coisas os estereótipos da vida social universitária. Ela tinha fama de "pistoleira". Não merecida, a bem da verdade. Ela até gostaria de ter se esbaldado de afeto e sexualidade na proporção que lhe atribuíam, mas sua vida sentimental seguira um rumo mais tranqüilo.

Porque suas colegas de curso lhe impuseram  á boca pequena tal desdém moral?

Vejamos, moça bonita, de bem com a vida, feliz, na dela, independente. Alheia á jogo psicológico, ao teatro de sombras moral através onde um pequeno grupo negociava seus afetos.

Para ser diferente, basta ser você mesmo.

Machismo fundamentalista na boca de mulher é triste.

Eu também gostaria de ter sido tão promíscuo como chegaram a pensar anos atrás, existir no presente como um herbário de hepatites, e a cada falência renal recordar  o semblante de uma beldade envolto na nuvem sinestésica de seus aromas e vocalizações, enquanto conjeturava se a enfermeira teria me dado bola nos tempos em que meu sorriso não estava mascarado pela herpes.

Quer dizer, se eu tivesse a imunidade dramática de um personagem de ficção.

É bom viver com o que se tem.

Você vive e os personagens vão ficando pra trás.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Maior do que cabe no peito



No início era uma sala imponente na amplidão de seu pé direito, vazia e solene como uma igreja. Então surgiu um ponto na parede e terminou a sentença. Enquanto a sala refletia sobre o provérbio do ângulo e do volume, o ponto ficou quieto, invisível. E quieto sentia. E sensível pensava, buscando a luz, pois o reflexo ilude a solidão. O ponto cresceu, inchou espelhando-se selene na sala, deitando sobre todos sua órbita cinéria, cuja cegueira ciclópica refulgia em fases as marés ocultas.

Olhava para aquele guarda, um sorriso lunático talvez oculto atrás dos bigodes e pensava no inverno de sua metáfora, vigiando a inconstância infiltrada na casa da razão. O modelo minucioso do único esporo do ignoto fungo argênteo sobre nossas cabeças. A derradeira abstração antes do caos.



E quando seu turno acabava e ele ia pra casa, em um suspiro ele escutava as marés no peito e lembrava da certeza de que bastava um dia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Arquitetura do Assombro

Um grande saguão de hotel, colunas romanas, alto como um templo, um culto ao conforto em mármore branco e amarelo, losangos esquecidos no limite obscurecido dos aposentos cujos volumes desaparecem na distância. Uma grande piscina quadrada, cheia de pessoas como um balneário artificial. E lá no alto, filtrando a luz, outra piscina com um fundo de grandes quadrados de vidro, através dos quais vejo as pessoas nadarem escuras, debaixo de um sol branco. Há uma rachadura no fundo, a água cai em uma cascata imprecisa, os golfos pulsam no ritmo da diversão e nada desaba. Vejo uma grande escadaria emoldurada de escuro onde no alto a luz branca destaca uma porta e subo. Lá em cima existe uma vastidão de corredores escadas e aposentos diversos. Arrumados, limpos e belos. Vazios. Veias mansões e nervos castelos, o pulmão de cantaria onde mora a cantora morta.

E eu vou de sala em sala, subo e desço escadas abro portas e janelas e entro os mais escuros aposentos em busca de seu fantasma e a encontro Ela surge no ar vindo ao meu encontro, surge do contraste das sombras escuras com os móveis claros, se desprende do luar onipresente em cada quarto,como uma folha de gelatina de prata ondulante, vem para mim como um alvo de cartão em um estande de tiro, e desaparece quando seu rosto encontra o meu. E abro a pequena porta embaixo da escada, e chamo por seu nome e entro no mais escuro cubículo e clamo repetidamente até ela saltar na minha direção e desaparecer, muda. Do velho negativo apenas sobe um zumbido quando ela abre a boca. A cantora muda, despida de toda carne, amortalhada no luar aprisionado no interior da casa, é agora somente um nome próprio. E minha ânsia cessa. Não a procuro mais e de algum lugar qualquer no meio do labirinto vou descendo a grande escadaria novamente. Vou rumo a outra história na vastidão do grande hotel, feita de movimento e o brilho de lagos de fogo cuja semântica particular desaparece no encontro das pálpebras. E cá estou.

Penso no que estou esquecendo. Memórias terão validade? A mente cessou de alimentar as nostalgias? o poliedro surreal é pesado e recorda: tudo o que abandonas fica vazio.


Mas só preciso limpar a casa, para receber novas visitas.