segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Finitude

Quando acordo de madrugada para ir trabalhar e na minha primeira ida ao banheiro defeco apenas sangue, penso na finitude. Lembro dos morros na paisagem e imagino o horizonte de eventos da minha vida estreitando, até o derradeiro colapso. Sinto um grande silêncio, expandindo de dentro para fora daquilo que entendo por minha consciência. Penso nas histórias incompletas e nas ainda por contar. Penso nos intraduzíveis momentos quando dialogo com a lista de músicas, em todas as idéias amigas que passam por mim, a caminho das metrópoles mentais da humanidade, para mais um dia de trabalho. Penso nos amigos verdadeiros, em todos os instantes de cumplicidade como velas iluminando uma grande casa de madeira, prestes a queimar. Lembro da cama desarrumada e vazia no quarto, um lado mais amassado do que o outro. Penso em nas minhas prioridades, no quanto é bom estar sozinho, poder partir sem angustiar uma companheira. leio o que escrevi agora e suspiro a incontinência do melodrama. Pensar em fins atrai o vampiro do drama.

Penso em você. Na distância entre nós, se meu afeto não é somente outro hieróglifo de uma busca na qual escolho perder-me para não ter de olhar para o caminho á frente e o sentido de estar nele. Na última semana meu sentimento por você é mais uma escultura na sala de estar, ao lado de São Francisco de Assis, da estátua marajoara e do negro de madeira. Sem ter contato contigo, fui colocando tantas camadas de verniz nele, que agora posso olhá-lo como se não fosse meu. Assim fica mais fácil por de lado caso não haja espaço para mim em sua vida. A maturidade por vezes tão maldita cria um lado prático no coração, como um programa de treinamento de um caixa de supermercado. Passar as mercadorias, ver o total, forma de pagamento, empacotar e deixá-las partir. Esperar as próximas da fila. Diante dessa rotina o coração só anseia pelos quinze minutos de pausa na salinha dos funcionários, de onde observa o fluxo dos afetos enquanto fuma um cigarrinho. Hipermercados Samsara. Mas como não há angústia, deve ser o zen do não pertencimento. Não consigo imaginar mais alguém como minha. Só o fato de estar na mesma vida e dividir experiências com você é divino. Mas eu nunca deixei de ser ambicioso.

A passagem do tempo foi criando uma nova orientação sexual, o afeto por espaços antropomórficos vazios. A paixão pelo vácuo deixado onde outrora uma mulher dançava e ria em voz alta. O vazio deixado pela implosão de conceitos como lábios, olhares, pés, mãos. Penso em meu coração como um favo onde a única hierarquia entre as paixões é o nível de realidade delas. Penso em uma amiga especial dormindo sozinha a mais de quinhentos quilômetros de distância. Sabendo assim como eu o quão bom ou ruim é ter uma cama de casal com espaço sobrando. E penso em você. Lembro do quanto a imagem dos seus pés sem meias em uma sandália deixam pegadas em meu peito. Do quanto os instintos de sobrevivência não me deixam examiná-las com cuidado. Pois você vive em um mundo particular. Ao menos da forma como escolhi concebê-la.

Dentro de mim, do centro de uma geleira, preservado, um adolescente de quatorze anos balbucia senil, preso na eterna repetição do mesmo instante. Não é mais uma criança, não posso lhe dar colo. Não é ainda adulto, não posso empregá-lo. Ele espera a alvorada de uma outra vida, após passar pelos bardos e manter a consciência, de uma existência á outra, ver uma nova infância crescer ao seu redor, a chegada de outro adolescer, aprender outra vez a gostar. Aprender de novo a colocar o pé na estrada e seguir tranqüilo. Deixo o sonho já vivido da juventude para trás, não sinto mais o frio de suas paisagens.

Penso em você. No esgar canino de teu sorriso visto de lado, a caveira da finitude, no peso de teu olhar quando nele brilha a noite abissal. Na força da tua presença, na tua consistência. Tento imaginar teu gosto. Lembro do quanto a vida é curta. E se não existe alma, não há um depois e tudo cessa quando finda, porque hesitar? No fim basta lembrar do instante em que provei você. É todo significado que preciso. Inclusive para permanecer um pouco mais. A única prova da existência de Deus que preciso é o teu sabor.

Dê-me um derradeiro beijo e apague a luz.

Um comentário:

Demian disse...

Não serão um princípio de hemorróidas e uma fístula anal meus carrascos, mas o hipocondríaco morre por antecipação várias vezes, freqüentando seus próprios funerais ainda em vida.