Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ela escreve


Ela senta diante da tela, as distrações assombram atrás dos ícones coloridos, informação, deleite estético, ferramentas para ser mais humana do que o dia a dia permite. A firmeza do lápis, suas linhas retas conduzindo a atenção, seus ângulos sextavados atravessando o tato, os dedos colossais de um polvo mental envolvendo a coluna do templo, o olho focado no vértice onde a tinta interior adentra a aridez da folha seca e meticulosamente se deposita em extratos geológicos de grafite. Toda essa dança já passou e a folha coberta de simbologia ritual agora será transcrita para sobreviver embaixo d'água, para habitar o oceano mercurial onde a linguagem humana cria uma nova eternidade, que paradoxalmente lhe parece mais tangível.


Ela olha a mesa, a escrivaninha, o feio móvel para o computador, o quarto converge a sua intenção, se movimenta atrás dela com sua solenidade de concha ancestral de molusco, coberta de cracas, mapa de uma vida. Não há papel algum, apenas a ideia do mesmo contra o fundo do olho a 60 Hertz por segundo, luz da dissecação. Ela olha os nós das mãos, o padrão gráfico que se irradia como ondas pelos finos dedos, as unhas holofotes de celofane vem e vão entre o espírito e a matéria. Ela está lá, e onde ela está? O princípio da relatividade, além de si. Do canto de seu olho, aos poucos vão chegando suas versões, como uma caravana emergindo da bruma, como improvisações da intérprete na garganta recém amaciada pela cachaça, notas ganham corpo.


Subitamente ela tem significado, ela passa a prestar, não prestando. Sua vida boêmia ganha o glamour de navalhas de sangue seco, cada gastrite é apenas um ronco do motor do caráter, os agudos de sua risada transformam os homens tímidos em borboletas de coleção e os ousados em dançantes bonecos de um piche mágico que não enreda. Ela não tem cáries, apenas sussurros nas trevas da promessa do açúcar gentil em mãos de afeto. Seu hálito de cigarro é o verniz raspado de velhas brochuras, a promessa de sabedoria que sobe da poeira de tumbas recém abertas. Seu corpo não envelhece, apenas descobre novos aposentos na mansão, novos bairros se revelam na cidade do mim.


Ela se vê vadia, pintura a óleo gotejante sem tela, respingando cor e malícia. Apenas momento, sem memória ou hesitação. De suas mãos de tinta um copo escorre para cima, tomando forma e uma vez consolidado, borbulha o próprio conteúdo, para brindar ao instante. Ela está livre da vida sem graça dentro daquele corpo roído pelas traças da lembrança, apodrecendo na sarjeta sob luz de poesia viva, decomposto pelos vermes do ideal. Saúde!


Mas eis que da múmia evapora a Rainha do Rádio, em toda sua leveza e compostura. Troca de turnos entre plenitudes, a sensatez de contralto ressalta a ribalta. Tudo é cenário e a putaria vira chanchada, pois tanta concupiscência estava ficando pesada. E ela precisa rir de si mesma, pra não chorar á beira dos próprios limites, abismos em cujo fundo não existem monstros, apenas linhas de ônibus. Ao menos agora a barriga dói da piada, úlceras cicatrizadas em pequeninos muxoxos. A manhã reflete na tela e nos lábios roxos. E ela sacode a idealização de cima do corpo.

E desvanece.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tentáculos


Uma paixão platônica abandona da cidade para nunca mais voltar. O que não foi dito calado está. O espaço organiza o tempo que organiza o coração. E estou novamente naquele quarto vazio, liberto de toda expectativa. Então vejo você. Estou sentado e as pernas não dançam. O quadril é um vaso de onde cresce a árvore negra de copa bulbosa e cinzenta, cujos frutos vítreos enxergam a si mesmos de dentro de seu olhar. Visto você, cerco-me do aroma de seu couro róseo e finalmente estou dentro, lá no fundo da tua capela. Sempre me perguntei como seria nadar em outra carne. O mundo lá fora é uma silhueta atrás de uma pesada cortina. Sinto seu movimento, teu centro de gravidade balançando, os delicados dedos de sua mão estalando. Minhas mãos afastam-se de meu rosto e param quando encaixam no espaço côncavo dos teus seios. Giro os punhos e estico os indicadores, para eriçar seus mamilos por dentro. Os dedos em pontas de luvas mornas sentem a tensão do vestido. Teu olhar desdenha de mim. Longe, atrás do espelho, você agarra no ar um molusco invisível. E a tinta escorre, por tua mão e antebraço escorrem arabescos de ébano, a gramática das profundezas queimando na pele. Fecho os olhos e a vejo enquanto água-viva em uma velha foto sépia. Então saio do poço.


Ao abrir os olhos sou ela tão longe, sorrindo em uma roda boêmia, franjas nos cantos das pálpebras. Ao bater as pestanas sou ela, Kohl carregado no olhar e a boca pequena franzindo e esticando de espanto. Ao abrir os olhos sou ela, braços finos envolvendo segurando firme a cintura do professor, sentindo na palma o suor na fina camisa dele, enquanto giram no salão. Sou seus pés descalços nos paralelepípedos quentes da cidade longínqua, ao voltar para casa. Sinto a bermuda jeans apertada e o peso da porta do banheiro público quando ela passa, um ano atrás. O peso da câmera em suas mãos. A esmagadora densidade de tantos sorrisos.


A filigrana negra em teu braço, o bolor escuro salpicado no pote de manteiga. Vilas oníricas, metrópoles esquecidas. Quando as vejo roçar as unhas pontudas na barba malfeita de tantos, pergunto-me se é isso que procuram. Uma casa vaga na cidade efêmera. Uma árvore sem dono no bosque obscuro.


Sento diante da inimiga invencível. Desfeitas as mentiras, resta afiar o espírito e esperar. O mais gentil e afetuoso aspecto delas virá um dia trazer a derradeira taça. E quando os tentáculos romperem minha casca, serei o fio da obsidiana. Quantos já estarão lá, fincados na carne da realidade? Quantos Merlins aprisionados em cristais adornam a deusa?


Rogo que ela tenha ossos. A epifania de lâmina é encontrar resistência.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Finitude

Quando acordo de madrugada para ir trabalhar e na minha primeira ida ao banheiro defeco apenas sangue, penso na finitude. Lembro dos morros na paisagem e imagino o horizonte de eventos da minha vida estreitando, até o derradeiro colapso. Sinto um grande silêncio, expandindo de dentro para fora daquilo que entendo por minha consciência. Penso nas histórias incompletas e nas ainda por contar. Penso nos intraduzíveis momentos quando dialogo com a lista de músicas, em todas as idéias amigas que passam por mim, a caminho das metrópoles mentais da humanidade, para mais um dia de trabalho. Penso nos amigos verdadeiros, em todos os instantes de cumplicidade como velas iluminando uma grande casa de madeira, prestes a queimar. Lembro da cama desarrumada e vazia no quarto, um lado mais amassado do que o outro. Penso em nas minhas prioridades, no quanto é bom estar sozinho, poder partir sem angustiar uma companheira. leio o que escrevi agora e suspiro a incontinência do melodrama. Pensar em fins atrai o vampiro do drama.

Penso em você. Na distância entre nós, se meu afeto não é somente outro hieróglifo de uma busca na qual escolho perder-me para não ter de olhar para o caminho á frente e o sentido de estar nele. Na última semana meu sentimento por você é mais uma escultura na sala de estar, ao lado de São Francisco de Assis, da estátua marajoara e do negro de madeira. Sem ter contato contigo, fui colocando tantas camadas de verniz nele, que agora posso olhá-lo como se não fosse meu. Assim fica mais fácil por de lado caso não haja espaço para mim em sua vida. A maturidade por vezes tão maldita cria um lado prático no coração, como um programa de treinamento de um caixa de supermercado. Passar as mercadorias, ver o total, forma de pagamento, empacotar e deixá-las partir. Esperar as próximas da fila. Diante dessa rotina o coração só anseia pelos quinze minutos de pausa na salinha dos funcionários, de onde observa o fluxo dos afetos enquanto fuma um cigarrinho. Hipermercados Samsara. Mas como não há angústia, deve ser o zen do não pertencimento. Não consigo imaginar mais alguém como minha. Só o fato de estar na mesma vida e dividir experiências com você é divino. Mas eu nunca deixei de ser ambicioso.

A passagem do tempo foi criando uma nova orientação sexual, o afeto por espaços antropomórficos vazios. A paixão pelo vácuo deixado onde outrora uma mulher dançava e ria em voz alta. O vazio deixado pela implosão de conceitos como lábios, olhares, pés, mãos. Penso em meu coração como um favo onde a única hierarquia entre as paixões é o nível de realidade delas. Penso em uma amiga especial dormindo sozinha a mais de quinhentos quilômetros de distância. Sabendo assim como eu o quão bom ou ruim é ter uma cama de casal com espaço sobrando. E penso em você. Lembro do quanto a imagem dos seus pés sem meias em uma sandália deixam pegadas em meu peito. Do quanto os instintos de sobrevivência não me deixam examiná-las com cuidado. Pois você vive em um mundo particular. Ao menos da forma como escolhi concebê-la.

Dentro de mim, do centro de uma geleira, preservado, um adolescente de quatorze anos balbucia senil, preso na eterna repetição do mesmo instante. Não é mais uma criança, não posso lhe dar colo. Não é ainda adulto, não posso empregá-lo. Ele espera a alvorada de uma outra vida, após passar pelos bardos e manter a consciência, de uma existência á outra, ver uma nova infância crescer ao seu redor, a chegada de outro adolescer, aprender outra vez a gostar. Aprender de novo a colocar o pé na estrada e seguir tranqüilo. Deixo o sonho já vivido da juventude para trás, não sinto mais o frio de suas paisagens.

Penso em você. No esgar canino de teu sorriso visto de lado, a caveira da finitude, no peso de teu olhar quando nele brilha a noite abissal. Na força da tua presença, na tua consistência. Tento imaginar teu gosto. Lembro do quanto a vida é curta. E se não existe alma, não há um depois e tudo cessa quando finda, porque hesitar? No fim basta lembrar do instante em que provei você. É todo significado que preciso. Inclusive para permanecer um pouco mais. A única prova da existência de Deus que preciso é o teu sabor.

Dê-me um derradeiro beijo e apague a luz.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Livro Afinal

Achei seu livro. Caído no vão de uma escada de uma casa condenada, recusado pelo mofo e pelas traças. Achei seu livro. No bolso de um casaco na seção de achados e perdido do metrô, com ingressos usados do último filme assistido. Achei seu livro. Em uma caixa de papelão por um real, em um sebo ambulante. Em um bote no fundo de uma cisterna, dentro de um embrulho impermeável. Na gaveta de uma mesa esquecida pelo antigo morador. Achei seu livro. E lá dentro, cuidadosamente desdobrada e plana a embalagem de um incenso estava de marcador. Bem no começo. Achei seu livro e ele não era seu, era da autora. Isto é óbvio. Mas ele já era seu estava impregnado em você como um novo aroma e era visível no seu olhar, na sua face. Você sinestesia da sinestesia anterior. Achei o livro, mas o sonho era tarde. Você acordou cedo, entrou em outra realidade. Uma vida febril e muito nova, não cabe nas frases, nem será eterna, porque isso não tem graça. Penso em porque gostamos de cidades invisíveis, de viver nelas e sonhar com planícies ancestrais. Penso que cheguei tarde demais. Mas se pensar assim fica a autora, em outro paralelo aonde nunca alcancei. Meu par perfeito ali no lado de fora. Mas só agora. Encontrada antes não serviria. Mas ficamos bem, os três, cada um na sua realidade.


E o livro é bom, muito bom na verdade.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Cinema Rodízio

Ele acordou antes dos outros. Eram quatro e quarenta e nove da manhã e os onze minutos restantes apagaram a lembrança dos sonhos. Levantou-se e a madrugada de Porto Alegre ainda de pé sussurrava atrás do vidro do sexto andar. Foi tomar um banho frio. Após, nu e seco, sentou-se em lótus respirou fundo e tentou alcançar os outros. Todos dormiam e seus sonhos eram como cenas chuviscadas dentro de bolas de gude. Visualizou sua mão se erguendo e abriu os dedos imaginados. As esferas se aproximaram e ele foi puxado para entre elas, como se houvesse uma súbita gravidade. O truque exclusivo começou a funcionar e ele viu o futuro próximo.

São Paulo estava de pé lendo as notícias, Rio ainda nadava nos sonhos confusos da embriaguez no meio da semana, Brasília já seguia no trânsito rumo ao emprego ganho em concurso, Curitiba estava se despedindo da esposa. Natal estava no ônibus indo pra escola. E ele conversava com a colega do jornal no horário do almoço, e só ela existia naquele momento. Tentou adiantar mais as cenas. Uma mulher no apartamento em frente subia numa cadeira para arrumar uma lâmpada e em uma grande praça, o Rio conversava com alguém, mas essa pessoa era apenas um borrão escuro. Porto Alegre caiu subitamente em si mesmo, era manhã recém chegada e já estava vendo tudo de fora. São Paulo o observava da mesa do café, o ar levemente contrariado que Porto tinha na cara, sempre que algum de seus interesses era frustrado. Desde menino a mesma cara birrenta.

São Paulo olhava seus outros eus com mais distanciamento, como se todos fossem pueris. Ás vezes ele, e conseqüentemente os outros, pensava se seria por ser mais velho. Curitiba tinha um ano a menos e era o único casado, mas a estabilidade amorosa e um filho de quatro anos não o tornou menos despreocupado com a vida, talvez tudo lhe parecesse muito fácil, e aos trinta e sete tinha chegado ao apogeu. As impressões de cada um a respeito de si mesmo nunca eram claras aos outros. Era evidente, porém a facilidade de se existir ao mesmo tempo em tantas cidades, e conseguir segurar a barra dos seus outros eus, garantindo um emprego na empresa de um conhecido de outro estado, ou através de um empréstimo se fosse o caso. Mas a parte financeira da vida em comum estava resolvida, até havia um estágio esperando Natal, quando ele quisesse. Agora valia mais curtir a vida multifacetada, usando a metáfora do Rio de Janeiro, um constante entrar e sair de salas de cinema, que assistiam a si mesmas. Um impulso, um devaneio e se estava no outro. Uma dúvida em Brasília, e Curitiba dava a dica. Porto Alegre lia um livro, Natal já não tinha mais dúvidas na escola. São Paulo assistia ao filme, Rio de Janeiro fazia a resenha sentado no bar, e já recomendava pros amigos.

Ao mesmo tempo podiam permanecer horas sozinhas consigo, embora depois de algum tempo esses momentos se integrassem à memória daquele coletivo de um homem só. Quando pensavam nessa definição visualizavam um ônibus praticamente vazio, onde todos eram os únicos passageiros. Estranhamente nunca conseguiam ver o motorista...

O Rio de Janeiro teve de subir a serra certa vez. Foi um mês depois da madrugada mal dormida de Porto Alegre. Era um encontro de estudantes em Juiz de Fora. Brasília Aproveitava as horas ociosas do trabalho para secar as jovens universitárias, São Paulo prestava atenção nas conversas em busca de uma nova pauta, Natal olhava também as moças, Curitiba prestava atenção na arquitetura da federal. Então na tarde do segundo dia quando Rio de Janeiro caminhava no campus, naquele momento que ser permitia ficar sozinho, depois de curada a ressaca, quando afastava ou outros e admirava a paisagem introspectivo, sentiu mais um. De tão surpreso nem conseguiu avisar os outros, quando tentou percebeu que não adiantava. Seu até então desconhecido novo eu parecia bloquear as outras cidades. E ele sempre achou que Juiz de Fora não teria tanta influência.

Ele se aproximou sem pressa, deixando suas memórias fluírem para o Rio de Janeiro. Eram lembranças sem um denominador comum, lacunas familiares numa vida compartilhada, decoração ambiente despercebida ao longo dos anos. O professor universitário era o mais velho, mas como todos eles, aparentava menos. Sessenta e quatro anos... Para o Rio de Janeiro parecia uma realidade distante.

O professor sentou-se ao lado dele, saudando sem um aperto de mãos. Tal gesto forçaria um retorno à coletividade:

- Você pode não viver tanto quanto eu, sabia? Nenhum de vocês, nós, podemos.

- É, hã, porque nós, eu, puxa...

- confunde esse novo tipo de separação de agora né? Parece que não vai ter volta.

- Nem fale nisso! É muito esquisito.

- Mas vocês já sabiam no fundo que faltava algo. Já partilhei vários sonhos com vocês.

- É verdade, tô lembrando de relances... Mas porque você não está conosco, quer dizer...

- Deve ser o tumor. Diagnóstico de câncer cerebral. Começou quando Natal fez um ano. Você tinha Dez. Mas eu prefiro achar que é uma questão de sentimento, sabe? Sou mais emotivo que os outros, eles foram ficando muito frios com a idade. Você tá seguindo nesse rumo.

- Não, sou assim...

- Eu sei, de vez em quando não é mesmo. Você ainda idealiza a alma gêmea. É romântico como eu. Já achou ela?

- Ah não sei, tem uma amiga minha, mas não tenho certeza.

- Procure ter.

- Tá, só um minuto. A gente vai morrer por conta do seu câncer? Como você ficou vivo todo esse tempo?

- Vai saber? Não me preocupo com isso, depois de ter sido desenganado já vivi muito. Só sei que o tumor está lá por conta da cegueira de vocês. Estou em todos, mas sou só um ruído de fundo. É interessante, ter a ilusão de que sou autônomo. Eu gosto da sua metáfora, me sinto o lanterninha, ou o projetista.

- quando foi a última vez que nos reunimos todos?

- Olha, foi naquela festa em Belo Horizonte, três anos atrás, mas vocês não me notaram. Estavam na mesma sintonia.

- Mas teve um antes disso, posso sentir.

- Sim, mas você tinha só doze anos, ainda não tinha acordado para nós.

- E como foi esse encontro?

- Puro Onanismo.

- Hã?

- Nem queira saber. Você teve pesadelos não se lembra?

- É eu sei. Só não consigo definir a sensação. Mas deixe. Porque tenho de ter certeza sobre ela?

- Você precisa achar sua Rita de Cássia.

- Então ela não é lenda. Nosso reflexo, aquela que também é múltipla. Mas por que eu preciso?

- Pra aproveitar enquanto é tempo, curtir essa felicidade. Mas principalmente, porque em uma existência como a nossa quem morre primeiro leva todos. Vale pra elas também. Cada um de nós tem se encaminhado para sua contraparte, menos Porto Alegre, o mais egoísta. Ele tem ignorado a professora de piano, apesar de ela morar no apartamento em frente do outro lado da avenida. Ela está muito depressiva, viver com quatro felinos não é suficiente, o voyeurismo não basta, ela está muito só.

- Porque você não escreve pra Porto, assim como faz com ela?

- Já fiz isso. Ele não dá importância. Acho que ele quer ter vida própria.

- Você não pode ocupar o lugar dele?

- Não é assim simples, não se pode substituir uma peça do quebra-cabeça. Já tenho alguém aqui. Você deve estar vendo ela agora.

- Sim, a imagem está vindo... Hum, aluna sua hein?

- Do mestrado. Bom, o que importa é o seguinte, se a Rita de Porto morrer, ela leva a de Juiz de fora com ela, assim como quem quer que seja aquela que seria ideal pra você. Se eu ficar sozinho a essa altura da vida, não terei mais motivo pra viver. Desânimo acaba com a imunidade...

- Entendi. Mas sabe, você é muito determinista. Apesar de todo esse tempo de vida não temos certeza de nada, eu encontrar você é uma prova disso. Acho que você tem medo, isso é normal. Mas não esperávamos que Natal entrasse no jogo. Quem sabe se ele não veio pra te substituir? Afinal o mais isolado de nós é você... Desculpe o mau jeito, mas é a verdade.

- Tudo bem. Não tenho tido muitas expectativas quanto a nós ultimamente. Você pode estar certo. De qualquer forma, fique atento, quando você encontrar quem lhe corresponde, haverá uma pista. Um perfume, um tremor. Aguarde.

- OK, pode deixar. Foi um prazer conhecê-lo. Podíamos nos encontrar mais vezes.

- É, quem sabe no futuro.

Juiz de fora foi se afastando. Ainda ia demorar um tempo até aquele episódio pertencer a todas as cidades que somos nós. Mas um efeito colateral interessante daquela aura de individualidade de Juiz de Fora foi que o Rio de Janeiro se viu no lugar de Porto Alegre e percebeu neste uma revolta fria contra tudo aquilo que lhe era imposto previamente, como as leis da natureza ou o simples fato de estar vivo daquele jeito compartilhado. Um sentimento adolescente que tinha sobrevivido até os trinta e três anos de seu eu gaúcho. Como se houvesse um mundo a subjugar aos pés. O Rio de Janeiro soltou um longo suspiro, decepcionado.

Nunca tinha se sentido tão imaturo.



Demian Machado