terça-feira, 24 de novembro de 2009
O quarto
Um dia só uma brasa apagada no centro do aposento. O quarto era um ruína, poeira e porcelana enterrada, restos de catapultas, canhões enferrujados. Era 2003 e todos meus amigos estavam mortos. Um jardim começava a brotar de suas carcaças. Flores eclipsaram os fantasmas. Enterrado o cubículo e o passado, restam anagramas. E a popularidade cruel do museu de cera.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Dia de ficar em casa
Murmura caos nas gotas,
Glaciares ósseos contra a carne.
Olhar acre, corpo erodido.
No teu hálito distante.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Tentáculos
Uma paixão platônica abandona da cidade para nunca mais voltar. O que não foi dito calado está. O espaço organiza o tempo que organiza o coração. E estou novamente naquele quarto vazio, liberto de toda expectativa. Então vejo você. Estou sentado e as pernas não dançam. O quadril é um vaso de onde cresce a árvore negra de copa bulbosa e cinzenta, cujos frutos vítreos enxergam a si mesmos de dentro de seu olhar. Visto você, cerco-me do aroma de seu couro róseo e finalmente estou dentro, lá no fundo da tua capela. Sempre me perguntei como seria nadar em outra carne. O mundo lá fora é uma silhueta atrás de uma pesada cortina. Sinto seu movimento, teu centro de gravidade balançando, os delicados dedos de sua mão estalando. Minhas mãos afastam-se de meu rosto e param quando encaixam no espaço côncavo dos teus seios. Giro os punhos e estico os indicadores, para eriçar seus mamilos por dentro. Os dedos em pontas de luvas mornas sentem a tensão do vestido. Teu olhar desdenha de mim. Longe, atrás do espelho, você agarra no ar um molusco invisível. E a tinta escorre, por tua mão e antebraço escorrem arabescos de ébano, a gramática das profundezas queimando na pele. Fecho os olhos e a vejo enquanto água-viva em uma velha foto sépia. Então saio do poço.
Ao abrir os olhos sou ela tão longe, sorrindo em uma roda boêmia, franjas nos cantos das pálpebras. Ao bater as pestanas sou ela, Kohl carregado no olhar e a boca pequena franzindo e esticando de espanto. Ao abrir os olhos sou ela, braços finos envolvendo segurando firme a cintura do professor, sentindo na palma o suor na fina camisa dele, enquanto giram no salão. Sou seus pés descalços nos paralelepípedos quentes da cidade longínqua, ao voltar para casa. Sinto a bermuda jeans apertada e o peso da porta do banheiro público quando ela passa, um ano atrás. O peso da câmera em suas mãos. A esmagadora densidade de tantos sorrisos.
A filigrana negra em teu braço, o bolor escuro salpicado no pote de manteiga. Vilas oníricas, metrópoles esquecidas. Quando as vejo roçar as unhas pontudas na barba malfeita de tantos, pergunto-me se é isso que procuram. Uma casa vaga na cidade efêmera. Uma árvore sem dono no bosque obscuro.
Sento diante da inimiga invencível. Desfeitas as mentiras, resta afiar o espírito e esperar. O mais gentil e afetuoso aspecto delas virá um dia trazer a derradeira taça. E quando os tentáculos romperem minha casca, serei o fio da obsidiana. Quantos já estarão lá, fincados na carne da realidade? Quantos Merlins aprisionados em cristais adornam a deusa?
Rogo que ela tenha ossos. A epifania de lâmina é encontrar resistência.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Fantasma além
Sua risada, seus gestos, seu cigarro e uísque, sua pomba-gira auto-imune, Maria Padilha niilista. Sinto você atrás de mim, observando minhas atividades. E você põe a mão no meu ombro, essa mão fantasmal que já esteve tão perto, os dedos, o contraste entre palma e costas, as linhas, o relevo, o tempo de uma dimensão paralela. A áspera maciez de um país imaginário, o frio de seus regatos, o calor de suas fogueiras, a cantiga do vento desbastando as montanhas quando sua mão desliza contra minha pele, seus dedos escavando novos vales envolvem meu pescoço com a lentidão das geleiras. As estações passam enquanto sinto você inclinar-se sobre mim, seu cabelo como uma nebulosa atravessando o sistema solar, seu aroma um vapor de terra, seu calor o sol idealista de uma primavera.
E você me abraça. E demora comigo em silêncio, esquecendo o tempo, finalmente sem pressa. Universos se interceptam e você colapsa um beijo em minha bochecha. Deixo as ondas de choque se dissiparem pelo cosmo do meu crânio e você vai. Vejo-te partir, no rumo de teus sonhos, como a bruma de uma manhã na serra do mar, revigorada e cheia de esperança.
Dança no sol minha melhor vampira...
No ar dançam cinzas, e fico a pensar se todo coração é um origami.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Finitude
Quando acordo de madrugada para ir trabalhar e na minha primeira ida ao banheiro defeco apenas sangue, penso na finitude. Lembro dos morros na paisagem e imagino o horizonte de eventos da minha vida estreitando, até o derradeiro colapso. Sinto um grande silêncio, expandindo de dentro para fora daquilo que entendo por minha consciência. Penso nas histórias incompletas e nas ainda por contar. Penso nos intraduzíveis momentos quando dialogo com a lista de músicas, em todas as idéias amigas que passam por mim, a caminho das metrópoles mentais da humanidade, para mais um dia de trabalho. Penso nos amigos verdadeiros, em todos os instantes de cumplicidade como velas iluminando uma grande casa de madeira, prestes a queimar. Lembro da cama desarrumada e vazia no quarto, um lado mais amassado do que o outro. Penso em nas minhas prioridades, no quanto é bom estar sozinho, poder partir sem angustiar uma companheira. leio o que escrevi agora e suspiro a incontinência do melodrama. Pensar em fins atrai o vampiro do drama.
Penso
A passagem do tempo foi criando uma nova orientação sexual, o afeto por espaços antropomórficos vazios. A paixão pelo vácuo deixado onde outrora uma mulher dançava e ria em voz alta. O vazio deixado pela implosão de conceitos como lábios, olhares, pés, mãos. Penso em meu coração como um favo onde a única hierarquia entre as paixões é o nível de realidade delas. Penso em uma amiga especial dormindo sozinha a mais de quinhentos quilômetros de distância. Sabendo assim como eu o quão bom ou ruim é ter uma cama de casal com espaço sobrando. E penso
Dentro de mim, do centro de uma geleira, preservado, um adolescente de quatorze anos balbucia senil, preso na eterna repetição do mesmo instante. Não é mais uma criança, não posso lhe dar colo. Não é ainda adulto, não posso empregá-lo. Ele espera a alvorada de uma outra vida, após passar pelos bardos e manter a consciência, de uma existência á outra, ver uma nova infância crescer ao seu redor, a chegada de outro adolescer, aprender outra vez a gostar. Aprender de novo a colocar o pé na estrada e seguir tranqüilo. Deixo o sonho já vivido da juventude para trás, não sinto mais o frio de suas paisagens.
Penso
Dê-me um derradeiro beijo e apague a luz.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Desertos de mim mesmo
A caminhada não cessa. Vou no rumo de desertos ignotos. Cruzo áridas planícies onde cacos de cerâmica indecisos ora massageiam ora cortam meus pés. Grandes formações de rochas esmaltadas enfeitam o deserto. Admiro as nuances na paleta de cores em cada estátua ancestral, os obeliscos esculpidos pelo vento, a água empoçada nas panelas ao chão. Em todo lugar miragens sorriem dançam ao flamenco que levanta seus véus. O deserto sorri, deixa-se admirar, mas não deita comigo quando anoitece. Recolho meu corpo sob o aroma de suas axilas suaves, sonho nele e ele sonha nações distantes. Sou apenas uma brisa vaga embalando seu sono.
Ao longe maciços avermelhados anunciam outro deserto. Brilham na luz dos trovões de chuva ácida. Paredões de carros compactados comidos pela ferrugem, gigantescos corais de metal. A campina de ferro velho, riachos de óleo, grotões de graxa, onde a vegetação rasteira de placas de circuito integrado bruxuleia.
A noite durmo embalado pelo zunido das máquinas defeituosas. A aurora traz o aroma das selvas de jeans. Acordo ao som das calças esvoaçando, presas entre fios de aço nas copas de espuma e molas dos bancos rotos. O bosque de jeans puído fala comigo a linguagem inefável do silêncio, a pressão das altitudes no fundo do ouvido, quando caio por um segundo.
Começam a nevar manuscritos, as placas queimam, perdem a taxonomia. Tomos gotejam, o chão fica coberto de gramática. Em um súbito sol de voz vejo subir o vapor de conceitos, eles preenchem o ar com seus poliedros. O deserto fala comigo. Seus sólidos me criticam como outrora, mas exibem lacunas. O deserto revela as fragilidades de sua ecologia enquanto boemia.
O deserto não sabe de mim, escaravelho.
Desconhece que em seu pó me espelho.
Não sei onde ele sonha, onde se trata.
Apenas tento ser o silvo em sua prata.
Ali onde um suado trapo de jeans farfalha.
Quero ser daquela navalha.
( )...
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Detalhes de morar sozinho
A súbita economia de papel higiênico.
Como nunca coloquei nessas páginas detalhes da minha vida pregressa um esclarecimento: De 98 até 2006, seja casado, seja em república de estudantes, dividi a casa e suas despesas e alegrias com amigos. Nos últimos anos de moradia coletiva, em uma configuração particularmente agradável, de apenas três pessoas, ainda me admirava a velocidade vertiginosa que o papel higiênico acabava. As visitas claro contribuíam, principalmente nos fins de semana. Sutilmente fui percebendo que as visitas femininas eram as responsáveis pela devastação da mata nativa e sua conseqüente substituição pela monocultura do eucalipto. Após tantos anos para evoluir da incompetência abissal, rumo á excelência em limpeza de banheiros, senti-me como um Sísifo preso dentro de um livro de etiqueta. Onde por mais inútil que pareça a tarefa, não se deve comentar, pois o mínimo é apenas seguir fazendo. Recentemente uma amiga contribuiu inconscientemente para minhas reflexões, ao esquecer no vaso uma pequena tira de papel, indício suficiente para ativar minhas habilidades detetivescas e deduzir que todo o assento havia sido forrado de papel higiênico. Subitamente vi minha singela casinha se tornar um posto de gasolina arruinado na beira de uma estrada secundária no interior, envolto na névoa de poeira deixada pelos constantes caminhões. Um restaurante servindo pratos á base de óleo, cujos freqüentadores não ligam se é de motor ou de cozinha. E em um canto externo, respirando pesadamente como uma besta ancestral com o hálito milenar de heróis e mendigos devorados, pulsando qual um fungo das trevas, um daqueles banheiros que assombravam minha mãe e irmã nos velhos tempos de viagens com a família. Quando você crê ter alcançou um padrão normal de higiene, a vida rapidamente lhe prova o quanto você estava sendo pretensioso, e aquele assento aparentemente tão limpo era na verdade um criatório de micoses ignorado em sua residência, onde uma orquestra fúngica preparava a próxima melodia de sucesso para o verão, aquela que gruda e não sai mais da cabeça.
Mas a vida de quem trabalha com limpeza não é feita de exagerados melodramas. É uma estrada zen de disciplina, repetição e imperturbável avanço. Não questionar, apenas limpar. Tai Chi da praticidade, uma dança objetiva com o caos, desprovida de rancor, focada e justa. Como Krishna matador de demônios. Desse ponto de vista posso compreender a prática de forrar os assentos como uma espécie de sentido transcendental adquirido com o treino, onde um simples assento de vaso (salvo exceção do da própria casa) é visto como um espaço adimensional e eterno, existindo na constante espera de ser forrado, independente das ilusórias garantias materiais de asseio.
Enquanto pratico as minimalistas técnicas marciais do consagrado mestre Miyagi, no banheiro de casa, imagino um dia em que dentre tantos acessórios desnecessários postos pelo consumismo exacerbado dentro do lar, em uma casa inteligente, um assento de vaso interativo detecte o contato de papel higiênico com sua superfície e avise:
Olá! São 16h50min do dia 25/04/2024. Este assento foi limpo pela última vez ás 09h26min do dia 23/04/2024 e até o presente momento encontra-se livre de vida microbiana. Não são necessárias adicionais precauções higiênicas. Tenha uma boa tarde!
Ah, o súbito conforto da oportuna voz da ecologia!
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Segue o ritmo
Não seriam todas as ceramistas complexas dobraduras vivas de origami, através do barro dialogando com a própria fragilidade? O papel deve admirar aquilo que pode atravessar o fogo e nascer de novo, novamente em belo e útil branco.
Esfriam as sombras de Junho e a dama de terracota admira o fogo, cercada de azul chumbo, sorrindo danças mais leves, despreocupada como uma bandeirola de festa. Um segundo andar desabrocha como uma oração de alvenaria no fim de tarde, levando consigo o hálito de promessas sonolentas. Só o cálcio sobreviverá.