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quarta-feira, 14 de março de 2012

Prova não prova

Era mais um Domingo de provas em Rondônia. Noite de véspera insone, o som altíssimo das festas da vizinhança tira o sentido do sono. De manhã mal ainda era difícil imprimir o nunca requisitado comprovante de inscrição. Um pedaço de pepel só pra ficar dobrando e desdobrando, para recordar e relaxar enquanto espera. A faculdade da prova tem uma arquitetura bonita, você vai gostar, disse a esposa. Lembro disso quando abrem os portões e caminho, olhando os prédios sem placa, procurando o que está em maiúsculas na folha, Neo Clássico. E ele é realmente, ao menos a parte superior da parte caixa cor de concreto, que me faz supor um edifício em construção. É mezzo feio, mas tem sua pompa, entre o vaticano e o mausoléu de Napoleão Bonaparte, todos vão lembrar da Glória de Roma e o poderio da sapiência. Ao lado ao menos, há um prédio branco baixo e comprido, vejo quatro arcos da sua lateral, o último o primeiro de um longo corredor avarandado, com uma sequência de grandes lanternas quadradas, de vidro e metal preto, a se distanciar. Talvez Árabe. O interior do prédio neo clássico é um grande hall, uma escadaria ascendente em curva, elegante, uma grande área central vazia, elevadores com seus fossos expostos, como em shoppings e uma grande cúpula de vidro e metal, deixando a luz entrar. A cúpula é uma da melhores coisas ali, passo grande parte do meu tempo antes de entrar contemplando-a. E tendo os mais diversos pensamentos. É incrível como a mente vai criando as mais diversas conjecturas em momentos inesperados.

O interior do prédio lembra uma versão com acabamento de alto padrão do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, onde estudei lá em Santa Catarina. Totalmente anti mendigo claro, sem banco algum. Mas a mesma concepção, aquele miolo amplo onde o pensamento do estudante expande antes de contrair na sala de aula. A gente entra na faculdade com essa ideia mesmo, de que ali é um lugar onde vamos expandir nossos horizontes. Com o tempo vamos percebendo onde as coisas realmente acontecem. Desde seu campus, a faculdade é ampla, mas a vida acadêmica é passar da amplitude para espaços cada vez menores, onde você se torna cada vez mais importante. Do Salão para a sala de aula para a salinha do núcleo de estudo para o escritório do orientador para uma mesinha e uma cadeira. O menor lugar é dentro do computador, aonde vai seu currículo, dentro das ainda menores caixinhas dos formulários. Você não existe fora daquela caixa. Os editais comprovam. A compartimentalização, não ensina humildade, é apenas  burocracia. Já viu um compactador de lixo? Não transforma lixo em Hai Kai, embora o poeta faça. A universidade também é assim, compacta o ser humano, até ele em um diploma. O subproduto é livro geralmente pouco lido, com sorte um pouco mais, quase sempre esquecido. Você é do tamanho do teu Lattes. Os caerriculos lattem e a caravana do emprego passa. Caerrículos são sempre mirrados. É quântico como uma palavra que remete a universo na pratica é agorafóbica.

Quando estou à beira de mais uma prova de concurso fico contemplando essa ilusão. Olho a cúpula de vidro lá no alto do prédio e toda a sua luz. Vai chover e tenho certeza que apesar da beleza há uma falha. A chuva cai forte, um som agradável, parece um bom presságio pessoal. O peso da chuva é intenso. Após alguns minutos olho o chão perto do feio jardim de inverno atrás dos elevadores, com quatro plantas parecendo palmeiras em um chão de pedrinhas sujo, estilo canteiro das bitucas. Uma goteira cai lá do alto da cúpula. Vejo outra. Fico pensando se ela está afixada no neo clássico com parafusos e na possível existência de uma cavidade circular ao redor da base, funda o suficiente para encobrir a fronteira entre abóboda e teto e deixa a água entrar. Penso na BR 364 cortada pela cratera e em um país onde chove em abundância desde sempre, mas a água é rala nos cálculos de engenharia. Não sabemos escoá-la, então reformamos o código florestal para matar os córregos. Criar mais mosquitos para matar os pobres que não morreram bebendo água suja.

E vou para a prova, já fraudada de saída mas ninguém fala nisso. Uma prova exaustiva com oitenta questões e duas redações. Nostálgica pra quem fez cursinho. Já começa com errata, datilográfica. Perguntas explicitam que você não decorou coisa metafísicas como anáfora, catáfora e dêitico. Prefiro lembrar de sardônico, meu sorriso enquanto recordo satisfeito a língua portuguesa morrendo nos lépidos dedos dos jovens miguxos ( alguns temem ). Recordo de anáfora, penso em ânfora. Lembro sobre ensinar o que é vasilhame,  sem definir o vazio nele contido. As funções pronomiais parecem o som de cacos quebrando.

Outras coisas que nunca farão parte do cotidiano trabalhista de um funcionário público, salvo em conversas no intervalo do café, como a lembrança de John Gleen orbitando a terra ou o apreço pela Semana de Arte Moderna. Suspeito corretamente que não considerar o general desertor sírio como líder de um conselho revolucionário vai me valer um erro e mais tarde descubro acertada a  suposição. A prova recorta as manchetes e tem posição política definida: não questionar. Ao menos isso é mais pé no chão do que saber qual o primeiro estadunidense a orbitar a Terra. Não questionar é uma constante de funcionário. Ou será do brasileiro?

As horas passaram, fui ao banheiro ao final das objetivas e o detector de metais não apitou para minhas moedas e chave no bolso, e nem pra fivela do cinto. Foi a prova mais tranquila que fiz até agora. A sombra da fraude ironicamente deu um ar nonsense a tudo aquilo. Mas é essencialmente uma piada. Mais tarde veio a notícia que as provas do meu cargo foram anuladas. Depois mais irregularidades afloraram. Sorria meu bem, você está sendo lesado.

De 2010 até este ano foi o período em que mais fiz concursos na vida. Um padrão emergiu desse período. Concursos com inscrição cara e poucas vagas, geralmente fraudados ( A prova está até na sabedoria popular, será que eles estão errados? ) e concursos com muitas vagas, de inscrição mais baratas, ocasionalmente manipulados. O de Domingo último um exemplo mais evidente do primeiro tipo. O segundo, foi o concurso para a prefeitura de Porto velho que precisava urgentemente contratar mais professores e médicos. Para não ficar com somente 60 professores aprovados, nove questões específicas foram anuladas.  Agora podem chamar mais de quinhentos professores. Manipulação favorável aos candidatos. A dos concursos fraudados só é favorável a quem já está previamente escolhido. Cartas marcadas, a piada recorrente. Cartas na manga, a piada dos gestores reféns de um modelo de contratação que é como a maioria das coisas no país, por fora, sério, por dentro pantomima. Sem desmerecer essa última.

A chuva cai, a BR 364 abre cada vez mais no meio, o trânsito desviado para um rua precária, como quase todas as vias não principais de Porto Velho, onde fora das avenidas predomina o mosaico entre asfalto e lama. Engenheiros formados com excelência, cálculos medíocres nas edificações, nos projetos da cidade, na receita do asfalto. a água enche os buracos na rua, olhos do chão refletindo a luz dos postes.

Espelhos onde a educação vê seu verdadeiro valor na sociedade.

Como ensinar a importância do invisível que não é deus?

Uma resposta deve ser formar burocratas.

domingo, 13 de março de 2011

Meu Ano Novo



Tentei mas não fiz uma retrospectiva de 2010. Era o último dia do ano. 2011 já passa do carnaval. Então recordo: o que foi 2010 para mim?
Virei o ano um tanto amargo. Expectativas frustradas, desencontros, ilusões. Roteiros batidos tantas vezes executados ao longo da vida. Me deixei levar pela indolência dos desterrados, pelo cotidiano transcorrendo entre o meditativo e o melancólico. Mas não por muito tempo.
Conhecia uma moça a tempo,da rede de computadores. Ela veio me encontrar pessoalmente em finais de Janeiro. E minha vida mudou graças a esse encontro. Conversamos muito mais nos meses seguintes e comprei uma passagem em suaves prestações. Após quase 12 anos no Desterro, mais conhecida na mídia como Floripa, mudei de capital. Fui para Porto Velho, Rondônia.
Partida de Curitiba, escala em Cuiabá. Em poucas horas, lá estava eu. Hotel barato, quarto quente com um ventilador velho e sujo. Depois conheci Candeias do Jamari e um surreal hotel de beira de estrada.
Passei frio em PVH na primeira semana na casa da futura noiva, dormindo na rede na área de serviço. E foram as mais baixas temperaturas desde então. Morei em uma quitinete térrea, com exterior de cadeia e banhada pela poeira vermelha da esquina movimentada. Do sul ao norte do país, morando em uma rua de areia ou terra.
Fiz concursos para professor. Não passei em um, tive mais sorte no da prefeitura de PVH. Virei professor do ensino fundamental II, na zona rural, especificamente do Projeto Ribeirinho. No Projeto os professores descem o Rio Madeira e passam quinze dias nas comunidades ribeirinhas dando aula e depois retornam para Porto Velho e passam mais quatorze dias na capital, pois um é para a reunião de pessoal. Entrei nessa rotina em Julho.
Passei os meses seguintes conhecendo uma comunidade do baixo Madeira, a cultura ribeirinha, a simpatia dos ribeirinhos, as belezas da natureza local e os horrores da realidade educacional do município. Meu quarto-sala alagou pelo ralo do banheiro, fui embora. Ensaiei alunas para apresentações de dança, observei de perto os grandes jacarés do Lago Cuniã, acompanhei o campeonato local de futebol e presidi a mesa. Testemunhei o período eleitoral e vi o fundamentalismo cristão mostrar a face rançosa.
Pedi em noivado a moça que me trouxe pra Rondônia. Levei ela para conhecer a comunidade em que trabalhei. Distendi a coluna de tanto carregar bagagem pras localidades. Terminei o ano letivo indo fechar matérias de 2009 na comunidade de Demarcação, sem telefone nem internet, mas com tevê Globo. Tomei muito banho de cuia. Terminei o ano quase saindo do Projeto, mas permaneci. Passei o ano novo com a família e apresentei a noiva. Mostrei a ela a lendária capital do país e artefatos diversos do meu passado. Brindamos ao futuro. Voltamos a Rondônia, marcamos o casamento, o cartório quase atrasa nosso processo, os preparativos se atropelam mas afinal, casamos em pleno carnaval, com direito a samba de bloco pra saudar a entrada da noiva. Meu 2010 se encerra agora e 2011 começa oficialmente após o carnaval, como é tradição da pátria. Mudei. Girei cento e oitenta graus e sacudi a falta de perspectivas. Já era hora.

sábado, 4 de julho de 2009

Invernos em Floripa novamente

Desenterrando o Fotolog:

http://www.fotolog.com.br/bufodiarlechino

Porque afinal de contas isso aqui é um botequim.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Refúgio no caminho do coração

Um convite para jantar, fazer pizza e celebrar a amizade como nos velhos tempos, na Terça-Feira. Dia da semana em que vim ao mundo. De manhã a ex liga: Você pode alugar o modem 3g por um dia? Posso claro, passa ás quatro horas. Ok arranja um recibo, a ONG precisa de nota pra poder pagar. Só quando escrevo essas linhas paro pra refletir em como velhos canais de comunicação ficam ativos apesar do passar das eras. Intuição feminina á serviço do terceiro setor. Lá pelo meio dia uma caminhada de quarenta minutos até o caixa da Lagoa, tirar dinheiro pra locadora, pois esta não trabalha com cartão. Taxas da máquina no limite da economia de bairro. Na banca de revista da senhora mais simpática um cartão de recarga, pois a franquia foi-se na última saudade. A caminhada de volta e a promessa de boa forma aos quarenta com mais minutos. Chego em casa, e preparo a mochila pra viagem. Ligação de novo, daqui á meia hora estamos chego pra pegar a “internet”. Subo na locadora, passo na papelaria e compro um talão com canhoto. Desço pela ruinha estreita, a moça do restaurante natural sobe empurrando a bicicleta. Eu com pressa e ela finalmente conversando comigo na maior simpatia inesperada da tarde morna. Endereço da casa anotado no peito em um abraço em braile. Urgência dos compromissos e o aroma de pasta de dente no beijo de despedida. Até depois. Só acontecem nessas horas. O inesperado desce comigo, motiva uma corrida e cochicha no ouvido: Amanhã. Mas amanhã é outro dia...

De volta em casa, tenho o tempo de deixar tudo pronto e devanear um pouco. Anoto o nome e número da casa da bela cozinheira. A amiga ex chega, acompanhada do colega de trabalho, fecha o serviço, e deixa duas garrafas de refri. Fecho a casa e vou para o ponto. É o ponto final e duas mulheres estão sentadas no banco improvisado recém reformado pela iniciativa anônima dos moradores. No ônibus olho o céu decidindo os tons de cinza. Adianto mentalmente o roteiro do dia seguinte e aposto comigo mesmo. A moça da aléia é toda graça, mas não é Aletéia...

Desembarco no centro. O horário de pico não está longe. Subir ao mercado, onde um litro e meio de um vinho Uruguaio bom custo benefício ainda está com aquele preçinho e combina afetivamente com seu conterrâneo parmesão, que na mochila espera a deixa pra mais tarde. Grandes televisores de plasma em promoção ligados na MTV. Penélope entrevistando nas ruas. A ex de São Paulo a conheceu pessoalmente e se declarou fã. Mudo de canal. O banco de madeira do outro lado dos caixas está ocupado, arrumo no piso espaço pra a garrafa bojuda entre os ingredientes. Saio do hipermercado e está chovendo. Vim sem guarda-chuva, não parecia muito prático. A chuva não está tão forte, mas resolvo esperar. E comigo ficam várias pessoas ali na passarela protegida ao lado da saída do hipermercado. Aumenta o aguaceiro e fico observando o concreto do poste, ainda seco e claro, encharcar aos poucos. O emaranhado da fiação é tão bonito contra a luz amarelada da rua, enquanto a chuva engrossa. Pessoas correm, a maioria espera. Um cara japonês empurra o carrinho sem pressa na torrente com uma mão enquanto a outra vai no guarda chuva. O carrinho puxa pra direita. Uma moça no quiosque sem roupa de frio e chinelo de dedos leva respingos nas canelas. Adolescentes em uniforme escolar de colégio religioso pedem sorvete; Um casal se pega no canto, o toldo do restaurante ao lado canta grave para quem não tem celular. O ritmo diminui e sigo em passo rápido de volta ao terminal.

É raro eu ir ao Norte da ilha a partir do centro. Pelo menos tão ao norte. Acho que naquela plataforma nunca. Quando você está indo sozinho pela primeira vez para um lugar a maior fila do terminal geralmente é a sua, mas você finge ignorar. Hoje não é exceção. Pergunto pro senhor de bigodes e olhos claros se aquele ônibus vai direto pro terminal do norte, ele confirma e pergunta se é minha primeira vez na ilha. Não, mas naquele percurso é. Acabamos conseguindo pegar o segundo ônibus e vamos sentados, conversando até lá. Ele vai pro mesmo bairro que eu. Trabalha fora da ilha, mas faz uma viagem maior de casa ao trabalho. Vai sempre em pé de manhã cedo. O patrão estressado é jovem, mas safenado. Falamos de transporte urbano na ilha, ele destaca o paradoxo da ausência de transporte marítimo em uma ilha. A corrupção, a violência o descaso público. Quanto tempo moramos na ilha, as mudanças ocorridas, a urbanização acelerada, a faculdade do filho. Ele consulta o relógio, calcula o horário da conexão e liga pra mulher buscar ele de carro, pois o próximo ônibus demora. Ganho uma carona. O filho vem buscar e vamos até o ponto onde eu desceria. Um adeus sem nomes, cidadão.

Dado a referência, não deveria ser possível encontrar. Ela disse: o segundo ponto depois do quarto quebra-mola. Hã? Quarto aonde. Quando entrar no bairro começa a contar. Bom, o caos funcionou. Assim como a poesia. Ao final da Servidão, na árvore desenhada, passe o segundo portão e vire no caminho do coração onde encontrarás o refúgio. Luzes na casa de madeira no meio da mata, como em tantos momentos significativos. A suave voz da amiga que ainda não conheço guia os últimos passos. E estamos reunidos, sem pretensões além da companhia. Só conheço a amiga que me convidou. O outro homem só de vista em festas no sul da ilha. Um vinho já em cima da mesa e aos poucos vão surgindo da mochila os tomates, o brócolis, as cebolas e os queijos. Panelas de barro, fôrma improvisada e duas pizzas grandes. Diálogo de microcosmos.

Isso há uma semana. Vi um curta e lembrei de invernos passados. Vi documentário e vi que o tempo passou no rosto de velhos conhecidos. Dormi com a chuva lá fora. Acordei e fui comprar pães em uma clara manhã nublada. Vi fotos e lembrei de paixões passadas. E Refleti sobre os fantasmas dos quais queremos nos refugiar no coração, mas eles ainda assombram o peito. Penso no sarcasmo terapêutico que reservei aos amigos e como ele me embosca no caminho do coração e aponta a ferida, dedo em riste, próximo a chaga, reparando de esguelha no meu desmontar. Talvez ver no outro a dor semelhante abrande a decepção. Talvez apenas a torne ridícula. O que também serve.

Voltei de ônibus até o centro com a amiga da amiga. Dia cinza. Chego no bairro e desço antes para ir na locadora, ver aquela última comédia do Woody Allen que eu hereticamente não vi no cinema. É calculado. Rir pra espantar as sombras. Também é calculado o tempo de pegar o filme e sair pela mesma rua na hora que a moça cheia de graça sai do trabalho. É engraçado como se percebe à distância. O abraço não tem mais a mesma intensidade. O beijo não tem as mesmas nuances nem mostra os atalhos. Ela tem coisas para fazer agora. Seus planos mudaram e está indo embora de Floripa, fechando as pendências. E não vai abrir novas... Cogito. Ela diz que é muito impulsiva. Comento que é bom ser impulsivo ás vezes, ela diz precisa botar a vida em ordem. Reparo na minha frase bobinha e também na constelação de pontos com casquinha no pescoço dela. Calculo mentalmente o tempo de cicatrização. Disfarço com o uma hora dessas passo lá e nos despedimos educadamente. O dia de amanhã é sempre um novo dia. Quando desço a ruela sinto o sorriso malevolente daquele cinismo ancestral que mora comigo. Aposta ganha. Mas era fácil. Para o astrônomo paciente basta reparar nos ritmos do universo. A gravidade próxima á estrelas gera fenômenos curiosos. E elas inda ofuscam mesmo depois de mortas.

Mas a pizza no refúgio estava ótima. E o filme do Woody é bom e rio um monte. Hollywoodiano, promotor turístico pouco importa. A essência do cara está lá e ele é uma estrela. Um astro cujo brilho deve ser reconhecido. Sem se deixar cegar.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Feliz Natal Guff !!




Dia 21 de dezembro de 2008, pela manhã, Guff, um pequenino Yorkshire partiu deste mundo. Foi encontrado na calçada externa da casa e enterrado pelo meu pai. Foram quatorze anos de vida. Um membro da família.



Eu tinha dezenove anos quando ele chegou em casa, agora tenho trinta e três. Foi comprado para minha irmã, a segunda tentativa dela ter um cachorro de uma espécie pequena, após uma poodle toy preta, morrer em decorrência de cinomose. Guff foi o primeiro filho dela, antes deste realmente vir ao mundo. No começo ele tinha seu cantinho, uma casinha dobrável de espuma, onde aprendeu a dormir. Tomou o quarto da minha irmã como território e o defendia ferozmente, assim como á ela. Se ela estava com ele no colo, chegar perto era arriscar doloridas mordidas do seus pequenos caninos, que machucavam muito, contrariando a aparência inofensiva.



Gostava de explorar os espaços da casa e fugir para a rua. Conviveu com três cachorros de grande porte, Dogues alemães e uma mistura de Fila com Dogue. Dessa convivência adquiriu uma exacerbada auto-estima. Era necessário, afinal as mulheres que ele almejava eram descomunais. Essa auto-estima, somada a sua valentia, lhe deu a confiança de viver entre gigantes e talvez por isso ele resolveu dar um olá na casa do vizinho da frente, onde um enorme Fila e mais outros cachorros grandes moravam. Esse Fila o mascou, e satisfeito o jogou para os colegas, que só não o trucidaram porque o dono chegou a tempo. Minha mãe e irmã o levaram chorando para o veterinário, sem esperanças. Ele foi todo costurado de volta e sobreviveu. Passou a semana de sua recuperação tendo pequenos ataques epiléticos, ou surtos semelhantes em aparência. Seu sistema nervoso abalado. Quando voltava ao normal resolveram dedetizar a casa contra ratos e ele ficou mal, quase morrendo novamente.



Por essas e outras ficou provado que a ele não servia o estereótipo de cachorro de madame. Quando foi comprado havia recomendações de que ele não podia ficar exposto a ventos fortes ou mudanças bruscas de temperatura e que uma queda de um metro seria fatal. Ele sobreviveu a muito mais. Passou por outras dedetizações, criou tártaro que o envenenou, poucos anos atrás, sobreviveu a uma transfusão de sangue. Uma vez eu arrumava a mala ás pressas para viajar e sentei na cama para amarrar os sapatos e o estrado caiu em cima dele, quase o esmaguei. Guff não era frágil como parecia. Tenho a impressão que muitas vezes, sutil e discretamente ele segurou a barra da família, como todo cão faz desde os tempos imemoriais do contrato entre espécies, atuando na diáfana fronteira do desconhecido. Na última ocasião em que, segundo minha mãe era para ele ter morrido, uma ano ou seis meses atrás, acendi uma vela por sua recuperação. Era um período de muito stress, tanto para mim como para minha família e tive a impressão que ele estava sendo exigido muito além de suas capacidades. Com a queima daquela vela antigos elos da adolescência também foram embora. Por uma boa causa. Era o mínimo que eu podia fazer por um amigo.



Penso em tudo que vivemos juntos. Em seu companheirismo, várias vezes ficava no meu colo enquanto em madrugava em frente ao computador. Sempre raspava a porta do quarto pra dormir perto da gente, como havia acostumado com minha irmã. Fico pensando nesse período que ele participou da minha vida e da minha família. Fico triste por não ter estado lá com ele nesse momento derradeiro, mas morrer insiste em ser uma experiência solitária. Lembro que cogitei trazê-lo para morar aqui, mas seria cruel retirá-lo do seu lar de tantos anos. Além do mais ali ele está bem acompanhado. Muitos ossos caninos repousam no jardim. Imagino que sinalizem um caminho tranquilo para o acordar.


Meu presente de Natal para você Guff são votos de uma boa viagem e uma boa estada em seu novo lar. Tenha uma boa passagem e mais que um Ano Novo, uma nova existência. Muito obrigado por ter compartilhado a sua conosco.



Acorde, o Natal chegou.

Feliz Natal!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Finitude

Quando acordo de madrugada para ir trabalhar e na minha primeira ida ao banheiro defeco apenas sangue, penso na finitude. Lembro dos morros na paisagem e imagino o horizonte de eventos da minha vida estreitando, até o derradeiro colapso. Sinto um grande silêncio, expandindo de dentro para fora daquilo que entendo por minha consciência. Penso nas histórias incompletas e nas ainda por contar. Penso nos intraduzíveis momentos quando dialogo com a lista de músicas, em todas as idéias amigas que passam por mim, a caminho das metrópoles mentais da humanidade, para mais um dia de trabalho. Penso nos amigos verdadeiros, em todos os instantes de cumplicidade como velas iluminando uma grande casa de madeira, prestes a queimar. Lembro da cama desarrumada e vazia no quarto, um lado mais amassado do que o outro. Penso em nas minhas prioridades, no quanto é bom estar sozinho, poder partir sem angustiar uma companheira. leio o que escrevi agora e suspiro a incontinência do melodrama. Pensar em fins atrai o vampiro do drama.

Penso em você. Na distância entre nós, se meu afeto não é somente outro hieróglifo de uma busca na qual escolho perder-me para não ter de olhar para o caminho á frente e o sentido de estar nele. Na última semana meu sentimento por você é mais uma escultura na sala de estar, ao lado de São Francisco de Assis, da estátua marajoara e do negro de madeira. Sem ter contato contigo, fui colocando tantas camadas de verniz nele, que agora posso olhá-lo como se não fosse meu. Assim fica mais fácil por de lado caso não haja espaço para mim em sua vida. A maturidade por vezes tão maldita cria um lado prático no coração, como um programa de treinamento de um caixa de supermercado. Passar as mercadorias, ver o total, forma de pagamento, empacotar e deixá-las partir. Esperar as próximas da fila. Diante dessa rotina o coração só anseia pelos quinze minutos de pausa na salinha dos funcionários, de onde observa o fluxo dos afetos enquanto fuma um cigarrinho. Hipermercados Samsara. Mas como não há angústia, deve ser o zen do não pertencimento. Não consigo imaginar mais alguém como minha. Só o fato de estar na mesma vida e dividir experiências com você é divino. Mas eu nunca deixei de ser ambicioso.

A passagem do tempo foi criando uma nova orientação sexual, o afeto por espaços antropomórficos vazios. A paixão pelo vácuo deixado onde outrora uma mulher dançava e ria em voz alta. O vazio deixado pela implosão de conceitos como lábios, olhares, pés, mãos. Penso em meu coração como um favo onde a única hierarquia entre as paixões é o nível de realidade delas. Penso em uma amiga especial dormindo sozinha a mais de quinhentos quilômetros de distância. Sabendo assim como eu o quão bom ou ruim é ter uma cama de casal com espaço sobrando. E penso em você. Lembro do quanto a imagem dos seus pés sem meias em uma sandália deixam pegadas em meu peito. Do quanto os instintos de sobrevivência não me deixam examiná-las com cuidado. Pois você vive em um mundo particular. Ao menos da forma como escolhi concebê-la.

Dentro de mim, do centro de uma geleira, preservado, um adolescente de quatorze anos balbucia senil, preso na eterna repetição do mesmo instante. Não é mais uma criança, não posso lhe dar colo. Não é ainda adulto, não posso empregá-lo. Ele espera a alvorada de uma outra vida, após passar pelos bardos e manter a consciência, de uma existência á outra, ver uma nova infância crescer ao seu redor, a chegada de outro adolescer, aprender outra vez a gostar. Aprender de novo a colocar o pé na estrada e seguir tranqüilo. Deixo o sonho já vivido da juventude para trás, não sinto mais o frio de suas paisagens.

Penso em você. No esgar canino de teu sorriso visto de lado, a caveira da finitude, no peso de teu olhar quando nele brilha a noite abissal. Na força da tua presença, na tua consistência. Tento imaginar teu gosto. Lembro do quanto a vida é curta. E se não existe alma, não há um depois e tudo cessa quando finda, porque hesitar? No fim basta lembrar do instante em que provei você. É todo significado que preciso. Inclusive para permanecer um pouco mais. A única prova da existência de Deus que preciso é o teu sabor.

Dê-me um derradeiro beijo e apague a luz.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Desertos de mim mesmo

A caminhada não cessa. Vou no rumo de desertos ignotos. Cruzo áridas planícies onde cacos de cerâmica indecisos ora massageiam ora cortam meus pés. Grandes formações de rochas esmaltadas enfeitam o deserto. Admiro as nuances na paleta de cores em cada estátua ancestral, os obeliscos esculpidos pelo vento, a água empoçada nas panelas ao chão. Em todo lugar miragens sorriem dançam ao flamenco que levanta seus véus. O deserto sorri, deixa-se admirar, mas não deita comigo quando anoitece. Recolho meu corpo sob o aroma de suas axilas suaves, sonho nele e ele sonha nações distantes. Sou apenas uma brisa vaga embalando seu sono.

Ao longe maciços avermelhados anunciam outro deserto. Brilham na luz dos trovões de chuva ácida. Paredões de carros compactados comidos pela ferrugem, gigantescos corais de metal. A campina de ferro velho, riachos de óleo, grotões de graxa, onde a vegetação rasteira de placas de circuito integrado bruxuleia.

A noite durmo embalado pelo zunido das máquinas defeituosas. A aurora traz o aroma das selvas de jeans. Acordo ao som das calças esvoaçando, presas entre fios de aço nas copas de espuma e molas dos bancos rotos. O bosque de jeans puído fala comigo a linguagem inefável do silêncio, a pressão das altitudes no fundo do ouvido, quando caio por um segundo.

Começam a nevar manuscritos, as placas queimam, perdem a taxonomia. Tomos gotejam, o chão fica coberto de gramática. Em um súbito sol de voz vejo subir o vapor de conceitos, eles preenchem o ar com seus poliedros. O deserto fala comigo. Seus sólidos me criticam como outrora, mas exibem lacunas. O deserto revela as fragilidades de sua ecologia enquanto boemia.

O deserto não sabe de mim, escaravelho.

Desconhece que em seu pó me espelho.

Não sei onde ele sonha, onde se trata.

Apenas tento ser o silvo em sua prata.

Ali onde um suado trapo de jeans farfalha.

Quero ser daquela navalha.

( )...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Lei Seca e transporte coletivo

Na última sexta-feira sai para a noitada de ônibus. O bar de samba, última moda na noite de Florianópolis, já que o forró perdeu o pódio faz tempo, é longe de onde moro, mais de trinta quilômetros. Enquanto duas amigas esperavam no terminal do Rio Tavares, eu ficava em casa procrastinando a possível saída. Por fim me decidi e peguei o ônibus que saía do centro ás 23h05min, chegando ao meu bairro ás 23h33minmin. Procurei não pensar, como tantas vezes outrora, nos hipotéticos obstáculos que poderiam aparecer, frustrando a jornada. Cheguei ao centro ás dez para meia-noite, peguei um Agronômica, fui ao terminal da Trindade, chegando ás 00h17min e lá por fim, peguei o último ônibus para o bairro visado, ás 00h:25min. Tudo correu tão bem, dando a impressão de que o sistema de transporte coletivo estendia sucessivamente tapetes de boas vindas, a cada conexão que eu pegava.

Ao final da noite, apesar das tentativas de pegar carona, o ônibus novamente, no caso a linha Madrugadão Norte da Ilha, nos levou de volta para o terminal do centro da cidade, onde tomamos o Rio Tavares Paradoura e depois, no meu caso, Lagoa Rio Tavares ás 05h50 da manhã (chegou um minuto atrasado no Terminal Rio Tavares, nada demais).

Durante á noite, o assunto Lei Seca surgiu aqui e ali, em um comentário, em uma observação, abordado direta ou indiretamente. As meninas comentaram, influenciadas provavelmente pelo frio de nove graus Celsius, que a arquitetura dos terminais de ônibus de Florianópolis intensifica, no quanto seria bom ter um amigo com carro para poder voltar para casa tranquilamente. Eu concordei com elas em silêncio, achando graça de imaginar a possibilidade de uma indireta. Mesmo que fosse, pouco importava, pois éramos companheiros na mesma barca. Porém fiquei pensando nas grandes estruturas subjetivas da sociedade, abalroadas inadvertidamente pela Lei Seca, como o machismo ou o status social.

Chegar de carro na balada ainda causa, mas voltar nele não mais. Do homem de classe média é retirado seu veículo, símbolo por excelência de seu sucesso financeiro, social e por conseqüência galardão de sua masculinidade, e ele é obrigado a depender da perícia alheia ao volante. Ó revolta! Se ao menos ele possuísse dinheiro para um chofer ou para o táxi estaria tudo resolvido e a crista ainda levantada. Mas não. Até nisso a lei é cruel: relembra ao homem da existência de seus patrões. Daqueles que bebem de rios de dinheiro, inclusive daquele advindo dos impostos que ele paga. Pior, ao ver de súbito a blitz, o homem de classe média flagra em si um medo da polícia semelhante ao de um ladrão, lhe sobe á garganta a náusea de ser nivelado á periferia, local de onde, no seu imaginário, vêem os bandidos. E logo está ele ao bafômetro, os números sobem e ele em instantes de pesadelo vê-se igualado á grotesca figura do malfeitor, antecipa entre lágrimas o abraço acre e emocionado dos colegas de cela, percebe o quão curta é a distância entre o cidadão de bem e o fora da lei. O quanto esse tempo todo ele esteve próximo á sanção do braço forte do estado, enquanto uns poucos, por ele eleitos flutuam imunes ao suor do ganha-pão cotidiano e á miséria. Eis o feio da nova lei: ela iguala. E ninguém quer ser igual. Na prática, apesar da carta de direitos humanos, não existe o meu semelhante, existem os outros, que erram, cometem os crimes e não prosperam. Eu nunca serei um deles e qualquer lei que mesmo na contravenção transforme o outro em meu semelhante é uma aberração.


Não vou aqui questionar a rigidez dos limites de álcool no sangue previstos pela nova lei, álcool e direção não combinam, e pronto. A lei parte de um princípio lógico e razoável. Para algumas pessoas é possível beber dois chopes ou mais e continuar plenamente capaz de dirigir, mas e daí? Na mesma faixa onde transitam com segurança os acostumados a beber e dirigir há lugar para os imprudentes. Vale o risco? No meu entender a solução é simples e cristalina: deixe o carro em casa e vá de ônibus para a balada. Para essa idéia ser viável, mais linhas de transporte coletivo devem ser providenciadas, nos horários da madrugada e principalmente nos fins de semana, como já ocorreu em São Paulo. Tal iniciativa deveria vira um padrão nas outras cidades brasileiras, quebrando a lógica da necessidade de ter carro para sair á noite. Permitindo a livre circulação do lazer.

Por livre circulação do lazer entendo a liberdade do cidadão de ir e vir durante seu período de recreação e entretenimento. Para quem depende exclusivamente de transporte coletivo, tal falta de mobilidade é contornada com um programa que elege um só local para a balada e não está aberta a deslocamento durante a madrugada, devido á falta de meios de locomoção, como o episódio vivido por mim no último fim de semana. Naquela noite eu estive satisfeito com o sistema de transporte público, mas somente porque soube criar uma estratégia de sobrevivência ás condições que este me impõe. É só observar a tabela de horários do fim de semana para ver que o sistema de transporte público trabalha contra você. O número de horários diminui, o desconto do passe estudantil deixa de valer e a noite os coletivos viram uma rara visão. Tanto que ao contar para amigos que consegui curtir a sexta de ônibus recebi olhares admirados. Florianópolis pareceu lhes pareceu, por um momento, funcionar como uma metrópole cosmopolita, a utopia do cidadão urbano devidamente respeitado pela cidade onde mora tornada realidade. Ou simplesmente a súbita iluminação de constatar a existência de uma brecha para a vida boêmia nos horários de ônibus, até então ignorada.

Aqui em Florianópolis os contratos das empresas de ônibus venceram e as eleições se aproximam. Em frente ao terminal do centro, um movimento tenta conseguir assinaturas do povo para pedir uma nova licitação dos transportes. Motivos não faltam e a hora é propícia. Fico pensando como seria bom que as companhias de ônibus urbanos fossem como os candidatos, tivessem de convencer a população do bom serviço vão fazer se contratadas, ou que fazem e vão continuar fazendo se reeleitas. Melhor seria poder identificar os candidatos que possuem companhias de ônibus. Lançar luz no limbo onde habitam políticos e empresas de transporte coletivo. Aquele evento tão deixado ao deus dará pelo poder público, ás obscuras licitações. Porque não inovar e expandir os critérios de licitação? Em um daqueles momentos seja você mesmo o empreendedor, acaso tivesse capital, eu ficaria contente de explorar apenas as madrugadas e fins de semanas, justamente nos horários onde os ônibus tradicionalmente minguam. Com a lei de tolerância zero tenho certeza de que clientes não iriam faltar.

Quer dizer, com a lei e com muito mais fiscalização. Ao sairmos do bar no fim de semana, eu e minhas amigas pudemos constatar vários motoristas embriagados, inclusive aqueles a quem elas pediram carona. Uma delas observou que deviam existir blitze permanentes. Ela está certa, mesmo que na prática falar de fiscalização ás quatro da manhã cause risadas ou o movimento repetitivo de ombros. São necessários mais policiais? Novos empregos no horizonte então. Precisamos de mais fiscais para fazer valer também a legislação ambiental, contratar nunca foi tão necessário.

Estamos em Agosto. O STF julgará a constitucionalidade da lei. Espero que a lei sobreviva a este mês e fique como está, rígida. Não que eu seja simpático ao despotismo brando ou a um estado policial, mas quero ver o quanto a sociedade vai mudar ou permanecer igual com ela em vigor. Agora com licença que vou fazer os cálculos de quanto eu preciso ganhar pra poder usufruir uma corrida de táxi mais de duas vezes por mês. Até a próxima e uma feliz Tolerância Zero para vocês!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Detalhes de morar sozinho

Pensando nas coisas boas de morar sozinho, uma dessas súbitas revelações surgiu dentre detalhes geralmente ignorados dada sua escatológica intimidade:

A súbita economia de papel higiênico.

Como nunca coloquei nessas páginas detalhes da minha vida pregressa um esclarecimento: De 98 até 2006, seja casado, seja em república de estudantes, dividi a casa e suas despesas e alegrias com amigos. Nos últimos anos de moradia coletiva, em uma configuração particularmente agradável, de apenas três pessoas, ainda me admirava a velocidade vertiginosa que o papel higiênico acabava. As visitas claro contribuíam, principalmente nos fins de semana. Sutilmente fui percebendo que as visitas femininas eram as responsáveis pela devastação da mata nativa e sua conseqüente substituição pela monocultura do eucalipto. Após tantos anos para evoluir da incompetência abissal, rumo á excelência em limpeza de banheiros, senti-me como um Sísifo preso dentro de um livro de etiqueta. Onde por mais inútil que pareça a tarefa, não se deve comentar, pois o mínimo é apenas seguir fazendo. Recentemente uma amiga contribuiu inconscientemente para minhas reflexões, ao esquecer no vaso uma pequena tira de papel, indício suficiente para ativar minhas habilidades detetivescas e deduzir que todo o assento havia sido forrado de papel higiênico. Subitamente vi minha singela casinha se tornar um posto de gasolina arruinado na beira de uma estrada secundária no interior, envolto na névoa de poeira deixada pelos constantes caminhões. Um restaurante servindo pratos á base de óleo, cujos freqüentadores não ligam se é de motor ou de cozinha. E em um canto externo, respirando pesadamente como uma besta ancestral com o hálito milenar de heróis e mendigos devorados, pulsando qual um fungo das trevas, um daqueles banheiros que assombravam minha mãe e irmã nos velhos tempos de viagens com a família. Quando você crê ter alcançou um padrão normal de higiene, a vida rapidamente lhe prova o quanto você estava sendo pretensioso, e aquele assento aparentemente tão limpo era na verdade um criatório de micoses ignorado em sua residência, onde uma orquestra fúngica preparava a próxima melodia de sucesso para o verão, aquela que gruda e não sai mais da cabeça.

Mas a vida de quem trabalha com limpeza não é feita de exagerados melodramas. É uma estrada zen de disciplina, repetição e imperturbável avanço. Não questionar, apenas limpar. Tai Chi da praticidade, uma dança objetiva com o caos, desprovida de rancor, focada e justa. Como Krishna matador de demônios. Desse ponto de vista posso compreender a prática de forrar os assentos como uma espécie de sentido transcendental adquirido com o treino, onde um simples assento de vaso (salvo exceção do da própria casa) é visto como um espaço adimensional e eterno, existindo na constante espera de ser forrado, independente das ilusórias garantias materiais de asseio.

Enquanto pratico as minimalistas técnicas marciais do consagrado mestre Miyagi, no banheiro de casa, imagino um dia em que dentre tantos acessórios desnecessários postos pelo consumismo exacerbado dentro do lar, em uma casa inteligente, um assento de vaso interativo detecte o contato de papel higiênico com sua superfície e avise:

Olá! São 16h50min do dia 25/04/2024. Este assento foi limpo pela última vez ás 09h26min do dia 23/04/2024 e até o presente momento encontra-se livre de vida microbiana. Não são necessárias adicionais precauções higiênicas. Tenha uma boa tarde!

Ah, o súbito conforto da oportuna voz da ecologia!