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quinta-feira, 20 de março de 2008

Livro Afinal

Achei seu livro. Caído no vão de uma escada de uma casa condenada, recusado pelo mofo e pelas traças. Achei seu livro. No bolso de um casaco na seção de achados e perdido do metrô, com ingressos usados do último filme assistido. Achei seu livro. Em uma caixa de papelão por um real, em um sebo ambulante. Em um bote no fundo de uma cisterna, dentro de um embrulho impermeável. Na gaveta de uma mesa esquecida pelo antigo morador. Achei seu livro. E lá dentro, cuidadosamente desdobrada e plana a embalagem de um incenso estava de marcador. Bem no começo. Achei seu livro e ele não era seu, era da autora. Isto é óbvio. Mas ele já era seu estava impregnado em você como um novo aroma e era visível no seu olhar, na sua face. Você sinestesia da sinestesia anterior. Achei o livro, mas o sonho era tarde. Você acordou cedo, entrou em outra realidade. Uma vida febril e muito nova, não cabe nas frases, nem será eterna, porque isso não tem graça. Penso em porque gostamos de cidades invisíveis, de viver nelas e sonhar com planícies ancestrais. Penso que cheguei tarde demais. Mas se pensar assim fica a autora, em outro paralelo aonde nunca alcancei. Meu par perfeito ali no lado de fora. Mas só agora. Encontrada antes não serviria. Mas ficamos bem, os três, cada um na sua realidade.


E o livro é bom, muito bom na verdade.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Utopia Portátil

O pequeno universo de uma mochila, seus deuses de pano, sua lógica de correias e zíperes. Um ser que vive mesmo murcho e cuja obesidade faz dançar na Terra a geografia de um indivíduo. Um organismo em simbiose que precisa do bípede para mover-se por aí, em troca de carregar suas peles, seus sonhos, seus mantimentos. Uma ferramenta que se desdobra para dentro e para fora do mundo.
Um vazio que chama a viagem, chama o vazio da xícara, o oco da casa, da barraca, deste ônibus, o vão do sapato, a fôrma das calças, o éter dos telefonemas, a câmara das conversas, o escuro dos olhos, o branco do papel.
A mochila no bagageiro, como um cão triste esperando a volta do dono. No banco de passageiros vazio, como um gato pedindo cafuné. Semi-esvaziada em um canto da estadia, tal ídolo antigo, aceitando oferendas, distribuindo bênçãos.
Lagarta de carne rarefeita, roendo uma folha esvoaçante. Fruta única de árvore sem raízes. Da poeira do quarto para a poeira da estrada. Última lágrima do alento de um sonho, afinal derramada.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Mentes na Rodovia

Siga a estrada de espelhos, cortante, sem saída. O sangue de uma era dorme com você, em seu carro de ferro. Carona Azul é o ar condicionado, um pacote de carne e estilo, na dose certa pra te satisfazer. Agulhas de gasolina chacoalham lá atrás, aquelas com que estico o mapa de couro e suas rodovias cicatrizes, recheadas de um ouro cinza que já confundem com chumbo, após tantos fogos andarilhos.

Não espero mais que o olhar baço do horizonte, dormindo ao volante ao me ver, incessantemente vindo em sua direção. Ele lacrimeja, lacrimeja, enfim dorme, e fica mais atento. Sua inconsciência é precisa, fria, racional e tudo esvazia com sua presença.

Repercute em meu gosto essa espera da luz sem rumo, dispersa demais para ser minha amiga, onipresente professora de sorriso irônico e lábios amontoados de lã.

É este o lar do vento irmão eco, que agora se senta ao meu lado desdenhosamente mortificado.

É aqui que atropelo quem toca os genitais de minha alma em busca de abrigo.

Onde o asfalto estala unhas tetraplégicas, incrivelmente asseadas.

Local que jamais o será novamente.

Espaço endócrino-gástrico-intestinal.

Na hora certa em que vais a merda,

Musa filha-da-puta.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Sem sonhar se irrita

Não há sonhos na manhã deste dia. Não existem sonhos visitando a catedral. O pragmatismo lhes retirou todo fluido e o escorreu entre os dedos, em uma camisa molhada de suor e metais engraxa o cavalo a vapor.

Poderia ser o álcool, essa leve angústia, moléculas egoístas não abrem espaço para visitas. Mas são lápis desarmados em dedos grossos, densos demais para o piano, vastos para as cordas de violão, desajeitados entre as placas de circuitos, retângulos dentuços de polímero, cobre e outros metais pequeninos, nossas presas, com as quais queremos morder e mastigar o mundo.

Dedos grossos manipulam o mundo através da alavanca do próprio sexo. Terminam velhos e úmidos, recobertos de tempo recendendo á mágoa. Da gordura das horas se faz o sabão que lava a sépia dos sonhos de debaixo das unhas dos dedos calejados de procurar.