Mostrando postagens com marcador Távola dos melancólicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Távola dos melancólicos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

E você, como reiterado contrário, de pijama e mascando chiclete gasto, assombra minha manhã sendo um par agridoce em um romance improvável. Seu olhar de predador permanece aceso, do alto de seu cansaço de seguidas noites em bancos de ônibus, ou de uma jornada proveitosa pelo inconsciente dos homens. Teimosa, se aproxima da beirada da cama e senta como se estivesse contrariada por fazê-lo, seus lábios sustentam uma eterna promessa de sorriso não concretizada. Nosso diálogo simplesmente está ali, sem começo nem fim, apenas ritmo conduzindo uma lânguida e sinistra capoeira, evocada pelo excesso de branco algodão, lençol e moletom. Em nosso aconchego descubro o fator comum entre tempo, gravidade e uma conversa: o beijo. Dentro daquele sólido sinto seu chiclete sem gosto fazendo malabarismo, tentando passar pra minha boca.
Só quando acordo a lembrança de nunca ter dividido goma com outra boca se instala. Assim como jamais, jamais.

Lá, você retorna á penumbra, descendo devagar em um vasto tacho de óleo fervente. Suas roupas deslizaram para ás sombras, como tiras de serpentes voadoras. O cabelo curto espeta a curva do ombro quando seu rosto olha por cima, desaparecendo em silêncio no sibilo monocórdio do azeite imperturbável. Até restar só a superfície de um sussurro homogêneo, imiscível.



Uma manhã com um suspiro dúbio na mesa do café. Existem ironias e existem paradoxos. Mas melodrama nunca deixa de ser popular na tela da vida interior. Principalmente os bem feitos.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Vigora

Vigência de um vício em insone lâmina transparente,

Tão rente á pele microbiótica

Certeza negada e outra vez deferida...

Eco em forma de vácuo emoldura tua piedade.

Vive visível vício?

Carne cortada, pústulas à venda,

Todo sangue escorrido e agora só essa luz elétrica fala por ti,

Com a dor amena de amanhecer...

Agudo pleito de plágio braquicárdio!

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Cacos no chão

Arranquei,

Da minha imagem

O coração,

Reflexo parasitado.

Um asseado verme

Sorriu-me

Óxidos de outras eras.

Era ele mais

Uma corda

Que toava,

Na minha alcova vil,

Lambendo as vestes

Das considerações reclusas?

No salão

Um pingo

Reverbera,

Compondo pavilhões,

No som

Da senil linha

Reta.

Aquele,

Outro em minha

Arcada,

Reflete os

Vultos assoberbados

Frente à máscara,

Portal da vida

Dentes,

Espelhos,

Sem saída.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Sono

Sono, eu vejo assassinos.

Sono, eu os vejo pequeninos.

Sono, as imagens afogadas

No pulsar das facas.

Na queda pulsante,

Dos corpos,

Das lâminas,

Das línguas.

Uma vasta onda

Esfola a realidade.

Calma, a maré afasta o solo,

Gota à gota.

Somo psicóticos sim,

Chacinados carvões!

Dois olhos se erguem.

Um corpo, uma miríade,

De afiados metais.

Cada retalho é

Reflexo do ser som.

Uma multidão de rostos,

De gozos,

Na infinidade das dimensões,

Goza!

Dos deuses pessoais a carne,

Cacos de aço,

Ri e rima.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Sem sonhar se irrita

Não há sonhos na manhã deste dia. Não existem sonhos visitando a catedral. O pragmatismo lhes retirou todo fluido e o escorreu entre os dedos, em uma camisa molhada de suor e metais engraxa o cavalo a vapor.

Poderia ser o álcool, essa leve angústia, moléculas egoístas não abrem espaço para visitas. Mas são lápis desarmados em dedos grossos, densos demais para o piano, vastos para as cordas de violão, desajeitados entre as placas de circuitos, retângulos dentuços de polímero, cobre e outros metais pequeninos, nossas presas, com as quais queremos morder e mastigar o mundo.

Dedos grossos manipulam o mundo através da alavanca do próprio sexo. Terminam velhos e úmidos, recobertos de tempo recendendo á mágoa. Da gordura das horas se faz o sabão que lava a sépia dos sonhos de debaixo das unhas dos dedos calejados de procurar.