sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Só quando acordo a lembrança de nunca ter dividido goma com outra boca se instala. Assim como jamais, jamais.
Lá, você retorna á penumbra, descendo devagar em um vasto tacho de óleo fervente. Suas roupas deslizaram para ás sombras, como tiras de serpentes voadoras. O cabelo curto espeta a curva do ombro quando seu rosto olha por cima, desaparecendo em silêncio no sibilo monocórdio do azeite imperturbável. Até restar só a superfície de um sussurro homogêneo, imiscível.
Uma manhã com um suspiro dúbio na mesa do café. Existem ironias e existem paradoxos. Mas melodrama nunca deixa de ser popular na tela da vida interior. Principalmente os bem feitos.
terça-feira, 5 de junho de 2007
Vigora
Vigência de um vício em insone lâmina transparente,
Tão rente á pele microbiótica
Certeza negada e outra vez deferida...
Eco em forma de vácuo emoldura tua piedade.
Vive visível vício?
Carne cortada, pústulas à venda,
Todo sangue escorrido e agora só essa luz elétrica fala por ti,
Com a dor amena de amanhecer...
Agudo pleito de plágio braquicárdio!
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Cacos no chão
Arranquei,
Da minha imagem
O coração,
Reflexo parasitado.
Um asseado verme
Sorriu-me
Óxidos de outras eras.
Era ele mais
Uma corda
Que toava,
Na minha alcova vil,
Lambendo as vestes
Das considerações reclusas?
No salão
Um pingo
Reverbera,
Compondo pavilhões,
No som
Da senil linha
Reta.
Aquele,
Outro em minha
Arcada,
Reflete os
Vultos assoberbados
Frente à máscara,
Portal da vida
Dentes,
Espelhos,
Sem saída.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Sono
Sono, eu os vejo pequeninos.
Sono, as imagens afogadas
No pulsar das facas.
Na queda pulsante,
Dos corpos,
Das lâminas,
Das línguas.
Uma vasta onda
Esfola a realidade.
Calma, a maré afasta o solo,
Gota à gota.
Somo psicóticos sim,
Chacinados carvões!
Dois olhos se erguem.
Um corpo, uma miríade,
De afiados metais.
Cada retalho é
Reflexo do ser som.
Uma multidão de rostos,
De gozos,
Na infinidade das dimensões,
Goza!
Dos deuses pessoais a carne,
Cacos de aço,
Ri e rima.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Sem sonhar se irrita
Não há sonhos na manhã deste dia. Não existem sonhos visitando a catedral. O pragmatismo lhes retirou todo fluido e o escorreu entre os dedos, em uma camisa molhada de suor e metais engraxa o cavalo a vapor.
Poderia ser o álcool, essa leve angústia, moléculas egoístas não abrem espaço para visitas. Mas são lápis desarmados em dedos grossos, densos demais para o piano, vastos para as cordas de violão, desajeitados entre as placas de circuitos, retângulos dentuços de polímero, cobre e outros metais pequeninos, nossas presas, com as quais queremos morder e mastigar o mundo.
Dedos grossos manipulam o mundo através da alavanca do próprio sexo. Terminam velhos e úmidos, recobertos de tempo recendendo á mágoa. Da gordura das horas se faz o sabão que lava a sépia dos sonhos de debaixo das unhas dos dedos calejados de procurar.