domingo, 13 de março de 2011
Meu Ano Novo
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Celular consertado
Eu compreendo e fico a consertar teu celular.
Assombrado lembro, quão ligado a máquina o relacionamento está.
Você não está aberta, teu aparelho minha voz não escuta.
Não há namoro, decreta. A ligação não comuta.
Outro amor refletiu na máquina de lavar.
Aquele partiu a perna quando ela começou a estragar.
A gente não se falava, a máquina não enxaguava.
Ninguém mais se aguentava.
Limpando do celular o contato elétrico, me vi tão tétrico.
Bom técnico conserta o aparelho quebrado.
Mas não coração magoado.
Cadê aquela ponta de fio desencapado...
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Fantasma além
Sua risada, seus gestos, seu cigarro e uísque, sua pomba-gira auto-imune, Maria Padilha niilista. Sinto você atrás de mim, observando minhas atividades. E você põe a mão no meu ombro, essa mão fantasmal que já esteve tão perto, os dedos, o contraste entre palma e costas, as linhas, o relevo, o tempo de uma dimensão paralela. A áspera maciez de um país imaginário, o frio de seus regatos, o calor de suas fogueiras, a cantiga do vento desbastando as montanhas quando sua mão desliza contra minha pele, seus dedos escavando novos vales envolvem meu pescoço com a lentidão das geleiras. As estações passam enquanto sinto você inclinar-se sobre mim, seu cabelo como uma nebulosa atravessando o sistema solar, seu aroma um vapor de terra, seu calor o sol idealista de uma primavera.
E você me abraça. E demora comigo em silêncio, esquecendo o tempo, finalmente sem pressa. Universos se interceptam e você colapsa um beijo em minha bochecha. Deixo as ondas de choque se dissiparem pelo cosmo do meu crânio e você vai. Vejo-te partir, no rumo de teus sonhos, como a bruma de uma manhã na serra do mar, revigorada e cheia de esperança.
Dança no sol minha melhor vampira...
No ar dançam cinzas, e fico a pensar se todo coração é um origami.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Desertos de mim mesmo
A caminhada não cessa. Vou no rumo de desertos ignotos. Cruzo áridas planícies onde cacos de cerâmica indecisos ora massageiam ora cortam meus pés. Grandes formações de rochas esmaltadas enfeitam o deserto. Admiro as nuances na paleta de cores em cada estátua ancestral, os obeliscos esculpidos pelo vento, a água empoçada nas panelas ao chão. Em todo lugar miragens sorriem dançam ao flamenco que levanta seus véus. O deserto sorri, deixa-se admirar, mas não deita comigo quando anoitece. Recolho meu corpo sob o aroma de suas axilas suaves, sonho nele e ele sonha nações distantes. Sou apenas uma brisa vaga embalando seu sono.
Ao longe maciços avermelhados anunciam outro deserto. Brilham na luz dos trovões de chuva ácida. Paredões de carros compactados comidos pela ferrugem, gigantescos corais de metal. A campina de ferro velho, riachos de óleo, grotões de graxa, onde a vegetação rasteira de placas de circuito integrado bruxuleia.
A noite durmo embalado pelo zunido das máquinas defeituosas. A aurora traz o aroma das selvas de jeans. Acordo ao som das calças esvoaçando, presas entre fios de aço nas copas de espuma e molas dos bancos rotos. O bosque de jeans puído fala comigo a linguagem inefável do silêncio, a pressão das altitudes no fundo do ouvido, quando caio por um segundo.
Começam a nevar manuscritos, as placas queimam, perdem a taxonomia. Tomos gotejam, o chão fica coberto de gramática. Em um súbito sol de voz vejo subir o vapor de conceitos, eles preenchem o ar com seus poliedros. O deserto fala comigo. Seus sólidos me criticam como outrora, mas exibem lacunas. O deserto revela as fragilidades de sua ecologia enquanto boemia.
O deserto não sabe de mim, escaravelho.
Desconhece que em seu pó me espelho.
Não sei onde ele sonha, onde se trata.
Apenas tento ser o silvo em sua prata.
Ali onde um suado trapo de jeans farfalha.
Quero ser daquela navalha.
( )...
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Amor sem tostão
Um amor sem conquista.
Amor só de coração
E que ela seja paulista.
Dizes que penso de inverso,
Falo o absurdo incrível.
Mas me diz o universo
Com certeza é possível.
Amor sem carro, sem dinheiro,
Sem promessas de pensão.
Amor sem apoio financeiro
E que nunca abra a mão.
Um amor sem cartão
Crédito ou avalista.
Sem compensação
E no Serasa não exista.
Não lhe darei dinheiro,
Transporte ou abrigo.
Mas serei teu por inteiro
E te quero sempre comigo
Não terei dívidas, ativos,
Papéis em ascensão.
Só sentimentos cativos
Do teu coração.
Faltei aula de economia
E de estatística.
Investi na que sorria,
Desprezei a logística
Um amor sem tostão
E que ela seja paulista.
Apenas puro coração
Em plena Paulista.
Vadiar na avenida
Pedir por caridade.
Fundos para a vida
De um casal da cidade.
Esmolar nosso dinheiro
Em frente á FIESP.
Ali nosso afeto inteiro
Aos investidores se despe.
O mundo pode até rir
Da nossa falta de capital.
O teu peito partir,
Mas sigas sentimental.
Sentar no meio fio,
Secar-lhe o rosto
Com a toalha suada.
Choras um rio,
Choras com gosto,
Pois sabes que és amada.
Posso lhe dar amor
Carinho atenção,
Até um filho lhe dar.
Diante do teu estupor
Fazer uma canção,
O impossível provar.
Mas não posso, não quero,
Ter que por esse amor trabalhar.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Faltou á aula
Quando o assunto é amor.
Criou até, nova gramática,
De uma língua sem dor.
Pouco vocabulário
Para falar, de emoção.
Sim, pois é precário,
Neste mundo, ter coração.
Nananina nã, na ni na ni não,
Não gostei de te ver aqui.
Sua visita, é uma opressão
Ao meu senso de piri pi qui.
Tipô puxa, afe, le chatô.
Eu falei, quero só curtir.
Se estive lá, quando lá não tô,
Era só pra não precisar mentir.
Nananina nã, na ni na ni não,
Já te disse não venha aqui.
Sua visita é uma opressão.
Ao meu senso de piri pi qui.
Tadadijadeu, podeirsevá,
Eu já provei, então já passou.
O consumido, usado está.
Não importa se o amor sobrou.
Apesar disso a sua voz,
Qual sólida luz.
Dissipa a ilusão atroz,
Quando a nota conduz.
Quisera eu só amar
Mãe, pai, irmão, irmã.
Tive logo que gostar
De uma filha de Iansã...