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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Unibang!

Em uma sala branca e sem janelas, cinco jovens executivos esperam. Duas mulheres e três homens. Cada terno e tailleur, uma cor diferente com a suavidade sóbria do mundo corporativo. Como um elenco para uma versão seriada e pós moderna de Dick Tracy esperando para ser avaliado. Em um terno de risca de giz entra um  careca de 53 anos, com o final de um charuto aceso na mão. Ele solta um - "Senhores.." com uma voz de barítono, enquanto dá um piparote para trás no charuto acesso. Os braços musculosos de seguranças armários são vistos de relance quando fecham a porta da sala para ele. Comecemos a reunião da equipe de marketing de guerrilha da UNIBAN.

- Boa noite a todos.

- Boa noite- responde o jovem executivo de terno verde pálido. - Desculpe perguntar, mas cadê o reitor? Ele não...

- Ele está passando por uma indisposição estomacal temporária e me designou como substituto.

- E o senhor seria? Arriscou a jovem de tailleur azul cortina.

- Eu sou o Auditor. Estou aqui para avaliar e dar um parecer. Por favor, prossigam.

- Bom, primeiramente - Começa a jovem de vermelho - vamos aos fatos: a campanha da nossa agência foi um sucesso! Conseguimos audiência em todos os meios de comunicação nacionais! E tivemos ainda penetração no. - pigarra a colega de azul- Hã desculpe, infiltração no noticiário internacional muito além do esperado para uma ação local!

- Sim, e estes gráficos indicam uma ótima aderência á política da instituição na China!- emenda empolgado um rapaz loiro em um amarelo bandeira fosco. - Um mercado emergente!

- Sem contar uma tremenda receptividade no meio oeste dos E.U. A! - Destaca o rapaz de laranja cáqui.

- E no oriente médio! Observa lá do canto da tela de slides a moça de azul.

- Que bom. Já temos para onde transferir nossas operações no futuro próximo.

Silêncio de respirações suspensas.

- Por favor, continuem. - Diz o careca enquanto puxa do bolso do terno uma até então não percebida caixa de charutos. A apresentadora segue:

- Bom, as estatísticas não mentem: Após a nossa intervenção virar viral, a UNIBAN saltou de um quase anonimato para o top-of-mind em instituições de ensino particulares.

- A resposta da UNIBAN ao caso foi aprovada nos setores mais tradicionais da sociedade e aumentou a reputação da instituição nos setores que prezam a moral e os valores tradicionais da família, consolidando o público da empresa. - Completa o rapaz de laranja.

- E quanto ao prejuízo que a ação causou?- Pergunta o auditor enquanto tranqüilamente abre a caixa e escolhe o próximo charuto.

- Bom, estimamos que o prejuízo será compensado pela arrecadação nos mercados emergentes de feição conservadora em que vamos entrar.

 - Mas e aqui no Brasil, mais especificamente em São Bernardo?

- Ora passada a polêmica inicial a situação tende a se normalizar e voltaremos á normalidade. Veja esse grá...

BANG!

Da lateral da têmpora do rapaz brota sangue e ele cai quase atingindo o cavalete com as lâminas da apresentação.

Fumaça subia á frente do rosto impassível do auditor e não era tabaco. O revólver prateado parecia dar continuidade ao brilho da careca do sujeito. Mas ele não ria.

- Meu deu! O que você está fazendo!! Gritou a moça de tailleur azul.

- Esta é uma instituição fascista e vocês sabiam disso desde o início deste projeto. Logo não vamos começar a chorar. É assim que resolvemos as coisas. O auditor recuou o revólver e apoiou o cotovelo na mesa. Baixou a tampa da caixa na sua frente com um sonoro clique que calou quase todos os gemidos. Vamos aos argumentos e quem sabe não preciso gastar toda a munição. Quem organizou a ala feminina dos agressores?

A moça de vermelho tremia:

- Fu- fu- fui eu.

- Faltaram mais mulheres. Para deixar a coisa mais equilibrada. O auditor deixa a arma tombar suavemente sobre seu pulso em movimentos repetidos. A moça balança as mãos sem saber aonde as colocar.

- Olha, a gente fez um cálculo da proporção feminina necessária ao evento, pra tudo dar certo. Deixa eu mostrar o gráfico...

BANG!

O tiro pega a moça no centro das costas e ela tomba sobre o cavalete derrubando tudo. Seus colegas se contraem e guincham de desespero.

- Chega de gráficos.

 - O que é isso! Onde vamos parar! Vocês acham que podem sumir assim com a gente? Que ninguém vai notar? Grita o loiro de amarelo.

- Vocês terão três opções: Cuba de ácido, material para canapés do curso de gastronomia ou ração para os trolls da turma de anti-socialização na internet. Qualquer uma delas não deixa rastros. E assim estará encerrada a primeira e única turma de marketing avançado desta instituição. Agora, antes eu queria saber quem escolheu o vestido usado por ela?

- Fui eu. - ergue a mão a moça de azul, tremendo.

- Você por acaso esqueceu as cores da universidade? O logo é vermelho. Não rosa.

- Eu jurava que era vermelho, e-eu tenho dificuldade em enxergar certos tons. E-

BANG!

- Tinha.

O rapaz loiro se recompõe:

- Escute, que tal-

BANG!

- Não agüento mais essa cor tentando combinar com o cabelo.

O auditor olha para o jovem de verde. Cruza os braços, cotovelos na mesa e a arma ainda na mão. Silêncio. Um minuto passa. O jovem executivo tenta não olhar para os colegas tombados ao seu redor, os dois últimos com os furos no meio da testa ainda fumegando. Fixa o olhar no careca.

- E você rapaz, qual sua proposta?

- Deveríamos oferecer o curso de Turismo de graça pra ela e após o provável sucesso da revista e do possível programa de TV, promover uma nova campanha, destacando o nome dela e a frase: Formada na UNIBAN!

O último executivo da turma de marketing avançado seguiu olhando nos olhos do Auditor, corpo tenso a espera do próximo tiro. O careca descruzou os braços e abriu a caixa para guardar a arma, pela primeira vez deixando arcos se formarem na sua testa enquanto erguia as sobrancelhas:

- É, considerando as idéias anteriores, essa até que não é um completo tiro no pé. Vale poupar uma bala. Teremos outro destino para você.

- Eu, vou poder ir embora?

- Não. Você vai para a sala dos trolls no subsolo B. Se você sobreviver ao fim do semestre, quem sabe até ganha uma promoção.

- Mas, mas eles estão sempre com fome, eles vão me devorar!

- Calma, eles podem ser brutos, mas mais do que qualquer outro aluno daqui, eles absorveram muito bem a filosofia do Tao de Paulo, a qual diz que não importa o quanto você humilhe, violente, degrade e invada a dignidade de outra pessoa, o importante é nunca matá-la.

- Eu acho que a frase não é bem essa!

- Você me entendeu.

O Auditor estalou os dedos e as portas foram abertas. O jovem executivo foi arrastado aos gritos, dizendo que preferia a morte. Os seguranças parrudos taparam sua boca até a entrada do úmido corredor que levava á sala dos trolls. A porta se abre o jovem executivo é rapidamente jogado para dentro, atravessando o quase sólido odor de sebo envelhecido e pizza azeda. A porta é fechada com um estrondo e o som da chave girando nela é o último sinal do mundo exterior. A sala de teto alto está mergulhada na escuridão, salvo a luz dos monitores. O barulho de risadas débeis, mastigação e coceira aos poucos vão parando, na medida em que as criaturas notam o novo colega. Eles vêm se aproximando lentamente, murmúrios incompreensíveis vão virando grunhidos altos, chiados finos vão compondo com risadas guturais. Logo ele está cercado, e a expectativa funesta mareja seus olhos, quando ele escuta  a palavra de duas sílabas brotando aqui e acolá e logo virando um coro. Grave-aguda, grave-aguda, grave-aguda e ninguém o acuda...

Em meios aos gritos de fúria ninguém o ouviria gritar.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Refúgio no caminho do coração

Um convite para jantar, fazer pizza e celebrar a amizade como nos velhos tempos, na Terça-Feira. Dia da semana em que vim ao mundo. De manhã a ex liga: Você pode alugar o modem 3g por um dia? Posso claro, passa ás quatro horas. Ok arranja um recibo, a ONG precisa de nota pra poder pagar. Só quando escrevo essas linhas paro pra refletir em como velhos canais de comunicação ficam ativos apesar do passar das eras. Intuição feminina á serviço do terceiro setor. Lá pelo meio dia uma caminhada de quarenta minutos até o caixa da Lagoa, tirar dinheiro pra locadora, pois esta não trabalha com cartão. Taxas da máquina no limite da economia de bairro. Na banca de revista da senhora mais simpática um cartão de recarga, pois a franquia foi-se na última saudade. A caminhada de volta e a promessa de boa forma aos quarenta com mais minutos. Chego em casa, e preparo a mochila pra viagem. Ligação de novo, daqui á meia hora estamos chego pra pegar a “internet”. Subo na locadora, passo na papelaria e compro um talão com canhoto. Desço pela ruinha estreita, a moça do restaurante natural sobe empurrando a bicicleta. Eu com pressa e ela finalmente conversando comigo na maior simpatia inesperada da tarde morna. Endereço da casa anotado no peito em um abraço em braile. Urgência dos compromissos e o aroma de pasta de dente no beijo de despedida. Até depois. Só acontecem nessas horas. O inesperado desce comigo, motiva uma corrida e cochicha no ouvido: Amanhã. Mas amanhã é outro dia...

De volta em casa, tenho o tempo de deixar tudo pronto e devanear um pouco. Anoto o nome e número da casa da bela cozinheira. A amiga ex chega, acompanhada do colega de trabalho, fecha o serviço, e deixa duas garrafas de refri. Fecho a casa e vou para o ponto. É o ponto final e duas mulheres estão sentadas no banco improvisado recém reformado pela iniciativa anônima dos moradores. No ônibus olho o céu decidindo os tons de cinza. Adianto mentalmente o roteiro do dia seguinte e aposto comigo mesmo. A moça da aléia é toda graça, mas não é Aletéia...

Desembarco no centro. O horário de pico não está longe. Subir ao mercado, onde um litro e meio de um vinho Uruguaio bom custo benefício ainda está com aquele preçinho e combina afetivamente com seu conterrâneo parmesão, que na mochila espera a deixa pra mais tarde. Grandes televisores de plasma em promoção ligados na MTV. Penélope entrevistando nas ruas. A ex de São Paulo a conheceu pessoalmente e se declarou fã. Mudo de canal. O banco de madeira do outro lado dos caixas está ocupado, arrumo no piso espaço pra a garrafa bojuda entre os ingredientes. Saio do hipermercado e está chovendo. Vim sem guarda-chuva, não parecia muito prático. A chuva não está tão forte, mas resolvo esperar. E comigo ficam várias pessoas ali na passarela protegida ao lado da saída do hipermercado. Aumenta o aguaceiro e fico observando o concreto do poste, ainda seco e claro, encharcar aos poucos. O emaranhado da fiação é tão bonito contra a luz amarelada da rua, enquanto a chuva engrossa. Pessoas correm, a maioria espera. Um cara japonês empurra o carrinho sem pressa na torrente com uma mão enquanto a outra vai no guarda chuva. O carrinho puxa pra direita. Uma moça no quiosque sem roupa de frio e chinelo de dedos leva respingos nas canelas. Adolescentes em uniforme escolar de colégio religioso pedem sorvete; Um casal se pega no canto, o toldo do restaurante ao lado canta grave para quem não tem celular. O ritmo diminui e sigo em passo rápido de volta ao terminal.

É raro eu ir ao Norte da ilha a partir do centro. Pelo menos tão ao norte. Acho que naquela plataforma nunca. Quando você está indo sozinho pela primeira vez para um lugar a maior fila do terminal geralmente é a sua, mas você finge ignorar. Hoje não é exceção. Pergunto pro senhor de bigodes e olhos claros se aquele ônibus vai direto pro terminal do norte, ele confirma e pergunta se é minha primeira vez na ilha. Não, mas naquele percurso é. Acabamos conseguindo pegar o segundo ônibus e vamos sentados, conversando até lá. Ele vai pro mesmo bairro que eu. Trabalha fora da ilha, mas faz uma viagem maior de casa ao trabalho. Vai sempre em pé de manhã cedo. O patrão estressado é jovem, mas safenado. Falamos de transporte urbano na ilha, ele destaca o paradoxo da ausência de transporte marítimo em uma ilha. A corrupção, a violência o descaso público. Quanto tempo moramos na ilha, as mudanças ocorridas, a urbanização acelerada, a faculdade do filho. Ele consulta o relógio, calcula o horário da conexão e liga pra mulher buscar ele de carro, pois o próximo ônibus demora. Ganho uma carona. O filho vem buscar e vamos até o ponto onde eu desceria. Um adeus sem nomes, cidadão.

Dado a referência, não deveria ser possível encontrar. Ela disse: o segundo ponto depois do quarto quebra-mola. Hã? Quarto aonde. Quando entrar no bairro começa a contar. Bom, o caos funcionou. Assim como a poesia. Ao final da Servidão, na árvore desenhada, passe o segundo portão e vire no caminho do coração onde encontrarás o refúgio. Luzes na casa de madeira no meio da mata, como em tantos momentos significativos. A suave voz da amiga que ainda não conheço guia os últimos passos. E estamos reunidos, sem pretensões além da companhia. Só conheço a amiga que me convidou. O outro homem só de vista em festas no sul da ilha. Um vinho já em cima da mesa e aos poucos vão surgindo da mochila os tomates, o brócolis, as cebolas e os queijos. Panelas de barro, fôrma improvisada e duas pizzas grandes. Diálogo de microcosmos.

Isso há uma semana. Vi um curta e lembrei de invernos passados. Vi documentário e vi que o tempo passou no rosto de velhos conhecidos. Dormi com a chuva lá fora. Acordei e fui comprar pães em uma clara manhã nublada. Vi fotos e lembrei de paixões passadas. E Refleti sobre os fantasmas dos quais queremos nos refugiar no coração, mas eles ainda assombram o peito. Penso no sarcasmo terapêutico que reservei aos amigos e como ele me embosca no caminho do coração e aponta a ferida, dedo em riste, próximo a chaga, reparando de esguelha no meu desmontar. Talvez ver no outro a dor semelhante abrande a decepção. Talvez apenas a torne ridícula. O que também serve.

Voltei de ônibus até o centro com a amiga da amiga. Dia cinza. Chego no bairro e desço antes para ir na locadora, ver aquela última comédia do Woody Allen que eu hereticamente não vi no cinema. É calculado. Rir pra espantar as sombras. Também é calculado o tempo de pegar o filme e sair pela mesma rua na hora que a moça cheia de graça sai do trabalho. É engraçado como se percebe à distância. O abraço não tem mais a mesma intensidade. O beijo não tem as mesmas nuances nem mostra os atalhos. Ela tem coisas para fazer agora. Seus planos mudaram e está indo embora de Floripa, fechando as pendências. E não vai abrir novas... Cogito. Ela diz que é muito impulsiva. Comento que é bom ser impulsivo ás vezes, ela diz precisa botar a vida em ordem. Reparo na minha frase bobinha e também na constelação de pontos com casquinha no pescoço dela. Calculo mentalmente o tempo de cicatrização. Disfarço com o uma hora dessas passo lá e nos despedimos educadamente. O dia de amanhã é sempre um novo dia. Quando desço a ruela sinto o sorriso malevolente daquele cinismo ancestral que mora comigo. Aposta ganha. Mas era fácil. Para o astrônomo paciente basta reparar nos ritmos do universo. A gravidade próxima á estrelas gera fenômenos curiosos. E elas inda ofuscam mesmo depois de mortas.

Mas a pizza no refúgio estava ótima. E o filme do Woody é bom e rio um monte. Hollywoodiano, promotor turístico pouco importa. A essência do cara está lá e ele é uma estrela. Um astro cujo brilho deve ser reconhecido. Sem se deixar cegar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Abajo la Calle




A orquestra vira a esquina comigo, a cidade é um cinza de azuis violáceos refletidos no calçamento e o cais do porto ao final da rua ofega, entre uma baforada e outra. Cada círculo de fumaça é mais um partindo, embora o corpo fique para trás, olhando fixo o copo vazio, sonhando aguardente e calor barato em seda velha. Emborcando o chilreio de saltos e o suave estalo só deixado por lábios carregado de batom. A saca de estopa vai aos ombros, arranhões preliminares da amante, seu peso firma os pés e cada passo é um ensaio de dança, seu volume testado pelos dedos é a resistência da parceira e as pedras no piso são as linhas da pele de seus ombros. O calor do meio dia é o do corpo dela e o vapor subindo das pedras é seu perfume barato. E ele segue ao armazém com quem sobrevoa savanas desconhecidas em um balão. Os grãos o odor de um incêndio distante, irritam os olhos com a bruma de um ocaso, no horizonte um sol castanho emoldurado pela pausa quando o solo erodido freme, á espera do próximo movimento. Cílios da noite chegando estrelada no suor da fronte, gotas no dia a pino gemem evaporando nas pedras. E a noite se instala em volta das luzes amareladas, ao redor das ruas emaranhadas, na superfície dos sapatos de couro e de verniz, por fora dos ternos de feltro e dentro das rendas francesas, contorna os maços de cigarro, enrosca os de dinheiro, sopra através dos violões e sonha preguiçosa dentro dos acordeões. E em suas mesas, no salão, ao bilhar, no balcão, á beira da porta, nas calçadas entre corredores e becos, nos quartos abafados, estão eles, tantos olhos de um deus morto, roubados só para te conquistar.



Suas órbitas vazias ainda estarão lá, quando olhares o cais do longe do último barco, como uma brasa apagando o horizonte. Órbitas vazias, pés descalços, piso frio, a aurora entrará lenta entre olhos cegos e só assim finalmente poderei lhe ouvir. E só no vazio serás melodia...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Detalhes de morar sozinho

Pensando nas coisas boas de morar sozinho, uma dessas súbitas revelações surgiu dentre detalhes geralmente ignorados dada sua escatológica intimidade:

A súbita economia de papel higiênico.

Como nunca coloquei nessas páginas detalhes da minha vida pregressa um esclarecimento: De 98 até 2006, seja casado, seja em república de estudantes, dividi a casa e suas despesas e alegrias com amigos. Nos últimos anos de moradia coletiva, em uma configuração particularmente agradável, de apenas três pessoas, ainda me admirava a velocidade vertiginosa que o papel higiênico acabava. As visitas claro contribuíam, principalmente nos fins de semana. Sutilmente fui percebendo que as visitas femininas eram as responsáveis pela devastação da mata nativa e sua conseqüente substituição pela monocultura do eucalipto. Após tantos anos para evoluir da incompetência abissal, rumo á excelência em limpeza de banheiros, senti-me como um Sísifo preso dentro de um livro de etiqueta. Onde por mais inútil que pareça a tarefa, não se deve comentar, pois o mínimo é apenas seguir fazendo. Recentemente uma amiga contribuiu inconscientemente para minhas reflexões, ao esquecer no vaso uma pequena tira de papel, indício suficiente para ativar minhas habilidades detetivescas e deduzir que todo o assento havia sido forrado de papel higiênico. Subitamente vi minha singela casinha se tornar um posto de gasolina arruinado na beira de uma estrada secundária no interior, envolto na névoa de poeira deixada pelos constantes caminhões. Um restaurante servindo pratos á base de óleo, cujos freqüentadores não ligam se é de motor ou de cozinha. E em um canto externo, respirando pesadamente como uma besta ancestral com o hálito milenar de heróis e mendigos devorados, pulsando qual um fungo das trevas, um daqueles banheiros que assombravam minha mãe e irmã nos velhos tempos de viagens com a família. Quando você crê ter alcançou um padrão normal de higiene, a vida rapidamente lhe prova o quanto você estava sendo pretensioso, e aquele assento aparentemente tão limpo era na verdade um criatório de micoses ignorado em sua residência, onde uma orquestra fúngica preparava a próxima melodia de sucesso para o verão, aquela que gruda e não sai mais da cabeça.

Mas a vida de quem trabalha com limpeza não é feita de exagerados melodramas. É uma estrada zen de disciplina, repetição e imperturbável avanço. Não questionar, apenas limpar. Tai Chi da praticidade, uma dança objetiva com o caos, desprovida de rancor, focada e justa. Como Krishna matador de demônios. Desse ponto de vista posso compreender a prática de forrar os assentos como uma espécie de sentido transcendental adquirido com o treino, onde um simples assento de vaso (salvo exceção do da própria casa) é visto como um espaço adimensional e eterno, existindo na constante espera de ser forrado, independente das ilusórias garantias materiais de asseio.

Enquanto pratico as minimalistas técnicas marciais do consagrado mestre Miyagi, no banheiro de casa, imagino um dia em que dentre tantos acessórios desnecessários postos pelo consumismo exacerbado dentro do lar, em uma casa inteligente, um assento de vaso interativo detecte o contato de papel higiênico com sua superfície e avise:

Olá! São 16h50min do dia 25/04/2024. Este assento foi limpo pela última vez ás 09h26min do dia 23/04/2024 e até o presente momento encontra-se livre de vida microbiana. Não são necessárias adicionais precauções higiênicas. Tenha uma boa tarde!

Ah, o súbito conforto da oportuna voz da ecologia!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Você se Pintou

Quando vi você a primeira vez, reparei no contraste entre sua beleza e a maquiagem. Naquele dia estava cansado e dormi no samba, um disparate. Depois soube seu nome e lembrei a música do Caymmi. ...”Você já é bonita com o que Deus lhe deu...” Não tenho como me zangar com você nem ficar de mal, e pelo tempo que não lhe vejo, sequer pensar que teu rosto é só meu, mas permanece o encanto daquele olhar com uma certa melancolia boêmia, apesar da água mineral.

Suas sombras debaixo dos cílios brilhavam na luz negra e me remetiam a pintura protetora de alpinistas, um quê de boxeador ou talvez uma pintura de guerra de soldados camuflados. Nada disso escondia as belas olheiras notívagas, um olhar temperado de lúgubre, com um sorriso encantador. Sombras de suas batalhas pessoais, para mim desconhecidas.

Imagino seu horror ao ler tais comparações.

Lembro de uma amiga que recebeu uma esdrúxula cantada na universidade, o cara elogiou as lindas olheiras que ela tinha. Rimos da ambigüidade e veja você, agora elogio olheiras como quem admira uma musa gótica encontrada em uma casa de samba. Paradoxos... Aparentes. Diria-lhe hoje: menos maquiagem (sim, eu vi que você quase não usa). Seu semblante é algo tão doce que não precisa de açúcar, deve ser bebido puro.

Para além dos devaneios, o importante mesmo foi dançar com você e, apesar da minha falta de prática, sentir a maravilhosa tensão de pantera debaixo daquele vestido fino, praticamente inexistente ao tato. A embriaguez poética da única e sutil peça de roupa de baixo. Quando penso na meditação de se ater ao instante e torná-lo eterno, o momento que senti o início da curva de seu quadril e lhe guiei os passos torna-se transcendente.


Grato pela dança.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Segue o ritmo

Fora tentativas de musicar pra ser feliz, as quais levantam as sobrancelhas de meus amigos músicos ao mesmo tempo em que lhes entorta metade da cara, vamos insistindo. O tempo segue frio, os prazos vão chegando ao fim, a comida sobe de preço, tomar cerveja gelada em bar aberto se torna surreal. Velhos inimigos se reúnem em volta dos mesmos rancores no inverno e as novas e inconstantes pessoas em minha vida continuam surgindo e sumindo, na mais tranqüila rotina fantasmal. Assentamento de tijolos, jejuns periódicos, tapetes velhos e a longevidade dos botijões de gás vêm á baila no papo pós-almoço, emoldurando o feijão, arroz com couve e macarrão com abóbora, batata e carne moída. O vizinho tira a sesta e acorda com jazz, enquanto o sol vai oblíquo no meio da tarde. Uma metrópole dos anos trinta desliza devagar do outro lado da rua, subindo o rio num barco a vapor. Ruas surgem entre fachadas e fundos, insinuando o trânsito interior, enquanto os olhos tentam seguir um trabalhador subindo a ladeira. Quem me vê, cumprimenta e segue a rotina. A lama da rua não secou e sua frieza opaca e poças claras me remetem à argila e fornos.

Não seriam todas as ceramistas complexas dobraduras vivas de origami, através do barro dialogando com a própria fragilidade? O papel deve admirar aquilo que pode atravessar o fogo e nascer de novo, novamente em belo e útil branco.

Esfriam as sombras de Junho e a dama de terracota admira o fogo, cercada de azul chumbo, sorrindo danças mais leves, despreocupada como uma bandeirola de festa. Um segundo andar desabrocha como uma oração de alvenaria no fim de tarde, levando consigo o hálito de promessas sonolentas. Só o cálcio sobreviverá.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Noite no subsolo

Eu cheguei no bar com o Jota, naquele meu estilo elegante e lugar comum de vestir, com uma camisa gola pólo e uma calça jeans com aparência de nova. Ele estava como eu, mas seu eterno ar de sambista o tornava mais elegante, qualquer roupa caía bem com sua descontração. Naquela noite eu não estava distribuindo sarcasmo como de costume, mas entregue a uma ansiedade fria e previsível, por isso mesmo controlável.

Em uma mesa no largo corredor do subsolo estavam as amigas do meu camarada. Na verdade vizinhas de prédio. Bom, só Sônia era amiga dele mesmo, a outra era amiga desta. Quando nos viram houve aquela pausa de segundos quando somos sondados com equipamentos de inconcebível tecnologia. Depois, os cumprimentos educados. Sônia era uma moça de altura mediana de uns vinte e seis anos, cabelos castanhos sem franja escorridos até o ombro, um lado mais despenteado. Rosto comum, porém belo, com um sorriso levemente triste que fazia toda a diferença. Usava uma mini saia branca justa e um casaco curto também branco e aberto, deixando a mostra uma blusa apertada de um verde escuro cintilante. Um decote generoso, coxas grossas, belas curvas. Para os padrões do meu amigo ela era gordinha, mas em minha opinião ele sonhava acordado com algum país de virgens anoréxicas.

Gisele tinha ascendência oriental e curvas menos exuberantes, mas firmes e delicadas, que fluíam em conjunto sob o pano ao menor movimento. Usava um vestido roxo, estilo entre medieval e moderno, de mangas compridas e ombros levemente bufantes, mostrando uma parte das costas, expondo o pescoço e um par de hipnóticas saboneteiras de pantera. Seu cabelo longo também tinha mechas e reflexos roxos. Seus lábios carnudos ficavam mudando lentamente de formato, quando ela não estava fumando, como um caleidoscópio de brilho fosco. Infelizmente a maior parte das combinações que faziam com os olhos era de desdém.

Logo que nos sentamos ela ironizou com meus cabelos compridos e minha condição de estudante, fez questão de destacar que ela trabalhava, tinha um emprego em um escritório e se preocupava com coisas sérias e adultas. Eu mal tinha aberto a boca. Nem tomado um trago. Vieram as bebidas e ela forçou um interesse perguntando de que cidade eu vinha, filmes preferidos, livros e outros detalhes. Houve alguma conversa amena entre nós quatro, mas logo Sônia e Jota deram prosseguimento a algum assunto pendente entre eles. Continuei falando de mim para Gisele, consegui alguns sorrisos agradáveis, mas a situação no geral era terrível. Ela me olhava como se eu fosse um tedioso exemplar de uma raça de lesmas peludas, mais um medíocre improdutivo onerando a sociedade, com sua existência. Os mínimos movimentos de seu belo corpo agora eram os de um predador, indeciso entre sujar as garras na imundície ou livrar o mundo daquela aberração na sua frente. E ao mesmo tempo aquela calma por entre a fumaça do cigarro, aquela beleza envolvente como o som de um gongo atordoando os sentidos a cada piscadela. Ela era fantástica, mas isso ficava escondido debaixo da própria merda rancorosa com que ela tinha se coberto. Gisele tinha sido cercada no centro da cidade por uma torcida organizada e quebrada até o menor dos ossos, á luz do dia em horário de almoço. A rua ficou assistindo e ninguém fez nada, seguiu sua rotina enquanto ela permanecia no chão coberta de mijo e fezes. E eu era só mais um cara menor do que o sofrimento dela. Um esboço, um contra regra.

Uma hora nosso assunto morreu e ela ficou dando ostensivas olhadas para a amiga, com vontade de ir embora. Eu já havia reparado que Sônia fazia alguma confissão muito íntima para o Jota, tinha até chorado. Mas ele contou uma piadinha infame e conseguiu levá-la para a pista de dança. Era visível que nada ia rolar entre os dois, mas Jota mantinha a esperança. Os olhos de Sônia estavam em outros rapazes. Gisele viu que ia ter de esperar e tentou disfarçar no seu rosto, sem sucesso, aquela frustração de estar condenada a dividir seu tempo comigo. Sua educação fingida ficava cada vez mais insuportável. Perguntou-me sobre meus relacionamentos e após meu resumo soltou um suspiro irônico. Todo o sarcasmo que descarreguei no mundo estava voltando para mim naquela noite, querendo provar que deus existia e era uma mulher bela, amarga e vingativa. Não agüentava mais. Quando ela estava me ignorando ataquei:

- Porque você tem de ser tão insuportável? O que te aconteceu? Sua amiga perdeu um filho, foi traída pelo ex-marido que roubou tudo que ela tinha e ainda passou AIDS pra ela. Mas ela ainda sai pra balada e curte a vida. Ela teria muito mais razão em ser frustrada com o mundo, mas não é. Não é curioso isso?

- Você virou um livro de auto-ajuda garoto? Se quiser aplaudir vai lá. Ela vai gostar.

- Não, assim como eu ela não está aqui pra dar show, vivemos o presente.

- Fale por você. Ela vive de ilusão.

- Você é amarga.

Ela apagou o cigarro e sorriu, jogando os cabelos para o lado, saboneteiras ondulando como veludo. Inclinou-se devagar para meu lado enquanto falava.

- Não. Vou te contar a verdade, já que estamos aqui após todo esse tempo. Eu e ela somos um espelho. Sou a sombra do teu reflexo. Nós somos tudo que restou do teu lado feminino. Esse é presente. Seja bem vindo.

Sônia chegou da pista, pegando a bolsa e acenando pra amiga. Gisele se levantou e vestiu uma jaqueta jeans clara, ocultando toda a beleza de seu vestido. Jota lamentou a partida delas e ensaiou uma longa despedida. Sentado de pernas quebradas olhei para Gisele, engolindo a verdade. Não podia terminar assim.

- Meu lado feminino? Cadê a terceira de vocês?

Sua delicada mão acariciou meu ombro enquanto ela se inclinava para sussurrar no meu ouvido. Suas voz tinha suaves cliques:

- Então espertinho, essa aí é aquela que assombra as tuas punhetas. Tenta ser mais criativo tá bom? Curte a vida. Tchau.

Deu-me um beijo carinhoso e levantou-se. Pegou Sônia pelo braço e acenou pro meu amigo. Jota sorria, satisfeito e radiante. Cerveja na mão passou o copo, enquanto me cutucava com o cotovelo, repetindo e aí, e aí?

Eu estava mudo, havia sido derrotado. Senti o copo na mão, a cerveja gelada descendo, ouvi minha voz, mas dentro de mim já tinha levantado e ido embora. O bar virou um jogo de luzes coloridas dentro de uma esfera de vidro que encolhia, cercada de escuridão. Eu tinha olhado o abismo e ele me olhou de volta. E riu da minha cara.