sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Museu Vivo na minha Memória Candanga

Lendo sobre uma apresentação do Esquadrão da Vida  no Museu Vivo da Memória Candanga recordei do tempo em que participai do Grupo de teatro e das muitas tardes que passei por lá. Era longe de casa. Morando em um extremo de Brasília, precisava pegar um ônibus até a Rodoviária e de lá, outro para o Núcleo Bandeirante ou Candangolândia, para chegar. Era eu e o Aluísio indo de lotação na maioria das vezes, nos dois percursos, porque era mais rápido que ônibus com regularidade entre trinta a quarenta minutos. E até hoje desconfio que continue sendo. Quando era possível, pegávamos carona.

As lembranças desse período intensamente teatral entre meus dezenove para vinte anos são um mapa. A parada de ônibus lotada na chegada e na saída. A concessionária de automóveis brilhante contrastando com a entrada humilde do Museu. A guarita e suas solicitações. Uma estrada asfaltada a pé. Casas coloridas em uma rua como um parque temático vazio. Oficinas distantes umas das outras onde equipamentos funcionavam em horários  diferentes do nosso e trabalhadores invisíveis deixavam sobras de material como  único indício de sua existência. O prédio onde ensaiávamos, com platéia e palco. A área externa entre um prédio e outro onde treinamos acrobacias. Lá após muito custo dei minha primeiro e única virada completa, quase bem sucedida não fosse minha testa. Apesar de ter sido só um acidente cênico do meu ponto de vista, pois não me machuquei de verdade, fui colocado em repouso, mas tinha certeza que podia tentar de novo. Um padrão no piso da área copiado na contra capa do caderno, a planta de um cenário esperando uso. Um ensaio do lado de fora, embaixo das árvores, onde Ary tocava uma música de andamento complicado e explicava  o porquê disso. O escritório administrativo no meio das casas coloridas, na rua de quase de brinquedo, onde de vez em quando íamos solicitar alguma coisa. As mangueiras carregadas, forravam o chão debaixo delas. Onde em um momento de folga sentar para chupar mangas com uma colega e um funcionário do Museu, encontrando na distração alheia um erotismo ancestral e pueril.

Tudo no Museu era transitório mas permanente. Um lugar fora do tempo, difícil de alcançar e cansativo para sair. Uma cidade interiorana para habitar, uma ilha de quietude cercada de trânsito. Na volta íamos retornando ao ritmo frenético da cidade e na rodoviária de Brasília eu e Aluísio tínhamos nossa pausa para o lanche. Comíamos na clássica pastelaria Viçosa. Semana após semana. Numa delas a fritura e o caldo de cana cobraram seu preço em abundante desinteria, mas após uma pausa na dieta voltamos com um ritmo mais comedido. Quando chegávamos em casa após o segundo ônibus, o ensaio acrobático virava prática. Eu não tinha chave de casa e por algum motivo estranho nem uma cópia. Chegávamos muito antes dos meus pais voltarem do trabalho. Nosso primeiro desafio era a cerca de ferro e seus espigões metálicos. Fácil graças ao muro do vizinho. Depois entrar na casa. Espetos de churrasco viravam gazuas, pinças desajeitadas para chaves distantes acaso esquecidas. Ou fazer Aluísio passar pela pequena janela redonda da sala, ir segurando seus pés enquanto ele deslizava pela parede interna para uma perfeita cambalhota em um espaço exíguo, já avisado para não acertar a mesa com tampos de vidro. O Museu era pura aventura. Temperado com uma missão secreta e sorrateira entre labirintos da papelada, pois o espetáculo não parava.

Parou um um dia para eu descer do barco. Já passava de um ano com o grupo, tempo que estipulei pra mim antes de embarcar, como o daquela jornada. O anúncio da partida quase não saiu da minha boca, instantes antes de falar o tempo congelara. Foi triste o ensaio interrompido. Não parti de vez mas ali no Museu disse adeus. Fui embora do Esquadrão e o Museu ali ficou, vivo na minha lembrança.

E até hoje está comigo. O lugar e tudo que deu significado a ele me acompanha por onde vou. Um museu onde a história é imaterial mas concreta porque estive lá, percorri seus caminhos e provei o eterno criado nas ruas e calçadas. Onde mitos nascem entre poeira, pés e canção.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Maior do que cabe no peito


No início era uma sala imponente na amplidão de seu pé direito, vazia e solene como uma igreja. Então surgiu um ponto na parede e terminou a sentença. Enquanto a sala refletia sobre o provérbio do ângulo e do volume, o ponto ficou quieto, invisível. E quieto sentia. E sensível pensava, buscando a luz, pois o reflexo ilude a solidão. O ponto cresceu, inchou espelhando-se selene na sala, deitando sobre todos sua órbita cinéria, cuja cegueira ciclópica refulgia em fases as marés ocultas.

Olhava para aquele guarda, um sorriso lunático talvez oculto atrás dos bigodes e pensava no inverno de sua metáfora, vigiando a inconstância infiltrada na casa da razão. O modelo minucioso do único esporo do ignoto fungo argênteo sobre nossas cabeças. A derradeira abstração antes do caos.



E quando seu turno acabava e ele ia pra casa, em um suspiro ele escutava as marés no peito e lembrava da certeza de que bastava um dia.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Arquitetura do Assombro

Um grande saguão de hotel, colunas romanas, alto como um templo, um culto ao conforto em mármore branco e amarelo, losangos esquecidos no limite obscurecido dos aposentos cujos volumes desaparecem na distância. Uma grande piscina quadrada, cheia de pessoas como um balneário artificial. E lá no alto, filtrando a luz, outra piscina com um fundo de grandes quadrados de vidro, através dos quais vejo as pessoas nadarem escuras, debaixo de um sol branco. Há uma rachadura no fundo, a água cai em uma cascata imprecisa, os golfos pulsam no ritmo da diversão e nada desaba. Vejo uma grande escadaria emoldurada de escuro onde no alto a luz branca destaca uma porta e subo. Lá em cima existe uma vastidão de corredores escadas e aposentos diversos. Arrumados, limpos e belos. Vazios. Veias mansões e nervos castelos, o pulmão de cantaria onde mora a cantora morta.

E eu vou de sala em sala, subo e desço escadas abro portas e janelas e entro os mais escuros aposentos em busca de seu fantasma e a encontro Ela surge no ar vindo ao meu encontro, surge do contraste das sombras escuras com os móveis claros, se desprende do luar onipresente em cada quarto,como uma folha de gelatina de prata ondulante, vem para mim como um alvo de cartão em um estande de tiro, e desaparece quando seu rosto encontra o meu. E abro a pequena porta embaixo da escada, e chamo por seu nome e entro no mais escuro cubículo e clamo repetidamente até ela saltar na minha direção e desaparecer, muda. Do velho negativo apenas sobe um zumbido quando ela abre a boca. A cantora muda, despida de toda carne, amortalhada no luar aprisionado no interior da casa, é agora somente um nome próprio. E minha ânsia cessa. Não a procuro mais e de algum lugar qualquer no meio do labirinto vou descendo a grande escadaria novamente. Vou rumo a outra história na vastidão do grande hotel, feita de movimento e o brilho de lagos de fogo cuja semântica particular desaparece no encontro das pálpebras. E cá estou.

Penso no que estou esquecendo. Memórias terão validade? A mente cessou de alimentar as nostalgias? o poliedro surreal é pesado e recorda: tudo o que abandonas fica vazio.


Mas só preciso limpar a casa, para receber novas visitas.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O quarto

O quarto não saída de mim. Não ficava trancado nele. Ele estava lá no fundo. Fechado, esperando como um brinquedo no baú ou um livro na estante. Aonde eu estivesse ele também estava, não como uma sombra, mas como o coração, pulmões ou a cabeça, essa jamais esquecida, mesmo quando perdida na interseção das esferas. No trabalho, em uma conversa interessante ou não, na pista de dança, a qualquer hora, a mão pousava na maçaneta invisível e ele estava lá, arrumado, com todas as minhas coisas no lugar, organizado ou não. Livros, coleções de quadrinhos, bugigangas, relíquias acumuladas desde a infância. Um cubo branco girando na escuridão. O gelo metafísico de um drinque inexistente. Dentro de seus ângulos de arame, paredes estreladas, embora eu as preferisse brancas e vazias. Mas a amplidão alva durava pouco, rapidamente as constelações voltavam e cada ponto brilhante podia virar uma tela da memória, reprisando o ocorrido debaixo de seu auspício. E canais do impossível, programações do improvável, novelas do irreparável. Bastidores do inacabado. Retrospectivas dos momentos felizes, espetáculo das ideias. Todos passavam e caíam no chão, coloridas peças de montar, para erguer as paredes caleidoscópicas do escapismo.

Um dia só uma brasa apagada no centro do aposento. O quarto era um ruína, poeira e porcelana enterrada, restos de catapultas, canhões enferrujados. Era 2003 e todos meus amigos estavam mortos. Um jardim começava a brotar de suas carcaças. Flores eclipsaram os fantasmas. Enterrado o cubículo e o passado, restam anagramas. E a popularidade cruel do museu de cera.

Celular consertado

Você desliga o telefone, sem tempo para me encontrar.
Eu compreendo e fico a consertar teu celular.
Assombrado lembro, quão ligado a máquina o relacionamento está.
Você não está aberta, teu aparelho minha voz não escuta.
Não há namoro, decreta. A ligação não comuta.
Outro amor refletiu na máquina de lavar.
Aquele partiu a perna quando ela começou a estragar.
A gente não se falava, a máquina não enxaguava.
Ninguém mais se aguentava.

Limpando do celular o contato elétrico, me vi tão tétrico.
Bom técnico conserta o aparelho quebrado.
Mas não coração magoado.

Cadê aquela ponta de fio desencapado...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Estampido Branco

Estampido branco,
Beira da faca
Cão sarnento.
Luz surda,
Cegos olhos,
Fogo lento.
Carne cálida,
Canta árida,
Portento.
Pele, pedra chão,
Joelhos tento.

Cidade nula
Vapor desfeito.
Gavião morto,
Pio sedento.
Língua pula
Picota peito.

Olhos ave,
Rosto refeito.
Céu abre,
Olhos deito.
Amarelos,
Magnético,
Alento.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Unibang!

Em uma sala branca e sem janelas, cinco jovens executivos esperam. Duas mulheres e três homens. Cada terno e tailleur, uma cor diferente com a suavidade sóbria do mundo corporativo. Como um elenco para uma versão seriada e pós moderna de Dick Tracy esperando para ser avaliado. Em um terno de risca de giz entra um  careca de 53 anos, com o final de um charuto aceso na mão. Ele solta um - "Senhores.." com uma voz de barítono, enquanto dá um piparote para trás no charuto acesso. Os braços musculosos de seguranças armários são vistos de relance quando fecham a porta da sala para ele. Comecemos a reunião da equipe de marketing de guerrilha da UNIBAN.

- Boa noite a todos.

- Boa noite- responde o jovem executivo de terno verde pálido. - Desculpe perguntar, mas cadê o reitor? Ele não...

- Ele está passando por uma indisposição estomacal temporária e me designou como substituto.

- E o senhor seria? Arriscou a jovem de tailleur azul cortina.

- Eu sou o Auditor. Estou aqui para avaliar e dar um parecer. Por favor, prossigam.

- Bom, primeiramente - Começa a jovem de vermelho - vamos aos fatos: a campanha da nossa agência foi um sucesso! Conseguimos audiência em todos os meios de comunicação nacionais! E tivemos ainda penetração no. - pigarra a colega de azul- Hã desculpe, infiltração no noticiário internacional muito além do esperado para uma ação local!

- Sim, e estes gráficos indicam uma ótima aderência á política da instituição na China!- emenda empolgado um rapaz loiro em um amarelo bandeira fosco. - Um mercado emergente!

- Sem contar uma tremenda receptividade no meio oeste dos E.U. A! - Destaca o rapaz de laranja cáqui.

- E no oriente médio! Observa lá do canto da tela de slides a moça de azul.

- Que bom. Já temos para onde transferir nossas operações no futuro próximo.

Silêncio de respirações suspensas.

- Por favor, continuem. - Diz o careca enquanto puxa do bolso do terno uma até então não percebida caixa de charutos. A apresentadora segue:

- Bom, as estatísticas não mentem: Após a nossa intervenção virar viral, a UNIBAN saltou de um quase anonimato para o top-of-mind em instituições de ensino particulares.

- A resposta da UNIBAN ao caso foi aprovada nos setores mais tradicionais da sociedade e aumentou a reputação da instituição nos setores que prezam a moral e os valores tradicionais da família, consolidando o público da empresa. - Completa o rapaz de laranja.

- E quanto ao prejuízo que a ação causou?- Pergunta o auditor enquanto tranqüilamente abre a caixa e escolhe o próximo charuto.

- Bom, estimamos que o prejuízo será compensado pela arrecadação nos mercados emergentes de feição conservadora em que vamos entrar.

 - Mas e aqui no Brasil, mais especificamente em São Bernardo?

- Ora passada a polêmica inicial a situação tende a se normalizar e voltaremos á normalidade. Veja esse grá...

BANG!

Da lateral da têmpora do rapaz brota sangue e ele cai quase atingindo o cavalete com as lâminas da apresentação.

Fumaça subia á frente do rosto impassível do auditor e não era tabaco. O revólver prateado parecia dar continuidade ao brilho da careca do sujeito. Mas ele não ria.

- Meu deu! O que você está fazendo!! Gritou a moça de tailleur azul.

- Esta é uma instituição fascista e vocês sabiam disso desde o início deste projeto. Logo não vamos começar a chorar. É assim que resolvemos as coisas. O auditor recuou o revólver e apoiou o cotovelo na mesa. Baixou a tampa da caixa na sua frente com um sonoro clique que calou quase todos os gemidos. Vamos aos argumentos e quem sabe não preciso gastar toda a munição. Quem organizou a ala feminina dos agressores?

A moça de vermelho tremia:

- Fu- fu- fui eu.

- Faltaram mais mulheres. Para deixar a coisa mais equilibrada. O auditor deixa a arma tombar suavemente sobre seu pulso em movimentos repetidos. A moça balança as mãos sem saber aonde as colocar.

- Olha, a gente fez um cálculo da proporção feminina necessária ao evento, pra tudo dar certo. Deixa eu mostrar o gráfico...

BANG!

O tiro pega a moça no centro das costas e ela tomba sobre o cavalete derrubando tudo. Seus colegas se contraem e guincham de desespero.

- Chega de gráficos.

 - O que é isso! Onde vamos parar! Vocês acham que podem sumir assim com a gente? Que ninguém vai notar? Grita o loiro de amarelo.

- Vocês terão três opções: Cuba de ácido, material para canapés do curso de gastronomia ou ração para os trolls da turma de anti-socialização na internet. Qualquer uma delas não deixa rastros. E assim estará encerrada a primeira e única turma de marketing avançado desta instituição. Agora, antes eu queria saber quem escolheu o vestido usado por ela?

- Fui eu. - ergue a mão a moça de azul, tremendo.

- Você por acaso esqueceu as cores da universidade? O logo é vermelho. Não rosa.

- Eu jurava que era vermelho, e-eu tenho dificuldade em enxergar certos tons. E-

BANG!

- Tinha.

O rapaz loiro se recompõe:

- Escute, que tal-

BANG!

- Não agüento mais essa cor tentando combinar com o cabelo.

O auditor olha para o jovem de verde. Cruza os braços, cotovelos na mesa e a arma ainda na mão. Silêncio. Um minuto passa. O jovem executivo tenta não olhar para os colegas tombados ao seu redor, os dois últimos com os furos no meio da testa ainda fumegando. Fixa o olhar no careca.

- E você rapaz, qual sua proposta?

- Deveríamos oferecer o curso de Turismo de graça pra ela e após o provável sucesso da revista e do possível programa de TV, promover uma nova campanha, destacando o nome dela e a frase: Formada na UNIBAN!

O último executivo da turma de marketing avançado seguiu olhando nos olhos do Auditor, corpo tenso a espera do próximo tiro. O careca descruzou os braços e abriu a caixa para guardar a arma, pela primeira vez deixando arcos se formarem na sua testa enquanto erguia as sobrancelhas:

- É, considerando as idéias anteriores, essa até que não é um completo tiro no pé. Vale poupar uma bala. Teremos outro destino para você.

- Eu, vou poder ir embora?

- Não. Você vai para a sala dos trolls no subsolo B. Se você sobreviver ao fim do semestre, quem sabe até ganha uma promoção.

- Mas, mas eles estão sempre com fome, eles vão me devorar!

- Calma, eles podem ser brutos, mas mais do que qualquer outro aluno daqui, eles absorveram muito bem a filosofia do Tao de Paulo, a qual diz que não importa o quanto você humilhe, violente, degrade e invada a dignidade de outra pessoa, o importante é nunca matá-la.

- Eu acho que a frase não é bem essa!

- Você me entendeu.

O Auditor estalou os dedos e as portas foram abertas. O jovem executivo foi arrastado aos gritos, dizendo que preferia a morte. Os seguranças parrudos taparam sua boca até a entrada do úmido corredor que levava á sala dos trolls. A porta se abre o jovem executivo é rapidamente jogado para dentro, atravessando o quase sólido odor de sebo envelhecido e pizza azeda. A porta é fechada com um estrondo e o som da chave girando nela é o último sinal do mundo exterior. A sala de teto alto está mergulhada na escuridão, salvo a luz dos monitores. O barulho de risadas débeis, mastigação e coceira aos poucos vão parando, na medida em que as criaturas notam o novo colega. Eles vêm se aproximando lentamente, murmúrios incompreensíveis vão virando grunhidos altos, chiados finos vão compondo com risadas guturais. Logo ele está cercado, e a expectativa funesta mareja seus olhos, quando ele escuta  a palavra de duas sílabas brotando aqui e acolá e logo virando um coro. Grave-aguda, grave-aguda, grave-aguda e ninguém o acuda...

Em meios aos gritos de fúria ninguém o ouviria gritar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dia de ficar em casa

Dia chuvoso, nublado de Nós.
Murmura caos nas gotas,
Glaciares ósseos contra a carne.

Olhar acre, corpo erodido.
No teu hálito distante.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Noite quente de Domingo





Noites de final de semana
Sons de festas ao longe
Parecem vir da memória.

Esse lugar perene
Chamado evocação.

sábado, 19 de setembro de 2009

Reflexões de um dente podre

Aranhas em teias

Balançam de cá para lá,

Teriam na vida pendências?


V.R Gherardini, em seu primeiro Hai Kai.



Recentemente, minha última leitura de toalete (hábito revisitado após décadas de ausência), levei minha agenda de 2006, ou ao menos o volume que constituiu em uma tentativa de agenda de compromissos. Lá encontrei meu eu da época, demasiado amargo para meu gosto atual. Redescobri as anotações afetivas de uma antiga namorada e destas resgato este poema. A sutileza do poema reflete minhas considerações existenciais do último ano. Não tanto pelas tramas espalhadas ao longo da ladeira do triênio, mas pela última palavra, pendências. Sempre penso nelas quando entro em um avião. Terra dos Homens eliminou minha ansiedade de viajar de avião, mas não a mórbida conjectura do e se for a última viagem? É preciso estar leve. Cada ano vivido nos treina a eliminar o excesso de bagagem.


Meu ano novo chega em Setembro com um clima insólito. As estações também mudam nas cidades interiores e ocorrem trocas de carapaças oníricas. Ao olhos a casa da mente está limpa, mas de fininho surgem os fantasmas das relações passadas. E após o surrealismo inicial uma voz reverbera na escuridão infinita: porque agora? E na ausência de relacionamentos concretos com essas mulheres episódicas os espíritos inacabados ganham contorno: são fantasmas das virginianas passadas.


Contrariando uma inevitabilidade masculina de esquecer as datas, uma engrenagem sutil movimenta a roda d'água nas profundezas e apesar da consciência não guardar mais referências, os dias chegam e mecanismos estalam, e lançam seus espectros. Como se uma frequência de rádio morta deixasse um sinal oco na alma, que bruxuleia quando chove e relampeja fantasmagoria. No mercado, ajudando minha irmã nas compras olho para as massas de pastel prontas e zelosamente embaladas e me permito meio segundo de melancolia nostálgica na ponderação do impossível. Uma fugaz oferta de aniversário ao vácuo. Em seguida a mente prática assume de volta e instantes depois impera o nonsense da afetividade barroca. A hilaridade da noiva de Frankenstein criada na torre do ego, destinada a nos rejeitar, pois mesmo monstros possuem o bom senso de recusar participação em mitos tortos. E a boa vassoura de palha os leva embora...


Mente limpa, dente podre. No abismo minimalista da dentina um homúnculo extrai uma catedral da podridão e ergue um altar de cadáveres. No fundo da raiz perdida duendes decompostos guincham emaciados á luz do derradeiro fogo fátuo. O verdadeiro horror chega a ser absurdo. Tão bizarro quanto um cármico canal quinze anos depois. A auto imagem corporal custa a desfocar da miúda entidade sombria repousando na gengiva, em cujo murmúrio reside a promessa de toda dor... A cavidade barítono, brocas soprano e lixas contralto e vindo de detrás dos olhos, aquele tenor. E o boticão ausente, negado pelo progresso e a eugenia da estética percorre as ruas na mão das viúvas dos bucaneiros...


E a luz do consultório entra altaneira com a primavera e purga celeste a nociva fossa. E sobre as ruínas da civilização esquecida é erguida a cosmopolita cidade do escárnio, destinada a perdurar para além da ausência do hálito. Para o deleite dos existencialistas futuros.


Saúde!





P.S: Só pra constar, a autora do poema de abertura é de Capricórnio.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Lá no canto

A umidade abaixa,
Toda água se levanta.
Na narina,
Da barata
O aroma
De quitina,
Canta.


Folha seca,
Bíblia eterna,
Massa abstrata.

Teu corpo arrebata,
A carícia
Que o pé achata.

Teu corpo,
Tua pata,
Tanta.

Jazz no fundo,
Da lata.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ela escreve


Ela senta diante da tela, as distrações assombram atrás dos ícones coloridos, informação, deleite estético, ferramentas para ser mais humana do que o dia a dia permite. A firmeza do lápis, suas linhas retas conduzindo a atenção, seus ângulos sextavados atravessando o tato, os dedos colossais de um polvo mental envolvendo a coluna do templo, o olho focado no vértice onde a tinta interior adentra a aridez da folha seca e meticulosamente se deposita em extratos geológicos de grafite. Toda essa dança já passou e a folha coberta de simbologia ritual agora será transcrita para sobreviver embaixo d'água, para habitar o oceano mercurial onde a linguagem humana cria uma nova eternidade, que paradoxalmente lhe parece mais tangível.


Ela olha a mesa, a escrivaninha, o feio móvel para o computador, o quarto converge a sua intenção, se movimenta atrás dela com sua solenidade de concha ancestral de molusco, coberta de cracas, mapa de uma vida. Não há papel algum, apenas a ideia do mesmo contra o fundo do olho a 60 Hertz por segundo, luz da dissecação. Ela olha os nós das mãos, o padrão gráfico que se irradia como ondas pelos finos dedos, as unhas holofotes de celofane vem e vão entre o espírito e a matéria. Ela está lá, e onde ela está? O princípio da relatividade, além de si. Do canto de seu olho, aos poucos vão chegando suas versões, como uma caravana emergindo da bruma, como improvisações da intérprete na garganta recém amaciada pela cachaça, notas ganham corpo.


Subitamente ela tem significado, ela passa a prestar, não prestando. Sua vida boêmia ganha o glamour de navalhas de sangue seco, cada gastrite é apenas um ronco do motor do caráter, os agudos de sua risada transformam os homens tímidos em borboletas de coleção e os ousados em dançantes bonecos de um piche mágico que não enreda. Ela não tem cáries, apenas sussurros nas trevas da promessa do açúcar gentil em mãos de afeto. Seu hálito de cigarro é o verniz raspado de velhas brochuras, a promessa de sabedoria que sobe da poeira de tumbas recém abertas. Seu corpo não envelhece, apenas descobre novos aposentos na mansão, novos bairros se revelam na cidade do mim.


Ela se vê vadia, pintura a óleo gotejante sem tela, respingando cor e malícia. Apenas momento, sem memória ou hesitação. De suas mãos de tinta um copo escorre para cima, tomando forma e uma vez consolidado, borbulha o próprio conteúdo, para brindar ao instante. Ela está livre da vida sem graça dentro daquele corpo roído pelas traças da lembrança, apodrecendo na sarjeta sob luz de poesia viva, decomposto pelos vermes do ideal. Saúde!


Mas eis que da múmia evapora a Rainha do Rádio, em toda sua leveza e compostura. Troca de turnos entre plenitudes, a sensatez de contralto ressalta a ribalta. Tudo é cenário e a putaria vira chanchada, pois tanta concupiscência estava ficando pesada. E ela precisa rir de si mesma, pra não chorar á beira dos próprios limites, abismos em cujo fundo não existem monstros, apenas linhas de ônibus. Ao menos agora a barriga dói da piada, úlceras cicatrizadas em pequeninos muxoxos. A manhã reflete na tela e nos lábios roxos. E ela sacode a idealização de cima do corpo.

E desvanece.

sábado, 4 de julho de 2009

Invernos em Floripa novamente

Desenterrando o Fotolog:

http://www.fotolog.com.br/bufodiarlechino

Porque afinal de contas isso aqui é um botequim.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Refúgio no caminho do coração

Um convite para jantar, fazer pizza e celebrar a amizade como nos velhos tempos, na Terça-Feira. Dia da semana em que vim ao mundo. De manhã a ex liga: Você pode alugar o modem 3g por um dia? Posso claro, passa ás quatro horas. Ok arranja um recibo, a ONG precisa de nota pra poder pagar. Só quando escrevo essas linhas paro pra refletir em como velhos canais de comunicação ficam ativos apesar do passar das eras. Intuição feminina á serviço do terceiro setor. Lá pelo meio dia uma caminhada de quarenta minutos até o caixa da Lagoa, tirar dinheiro pra locadora, pois esta não trabalha com cartão. Taxas da máquina no limite da economia de bairro. Na banca de revista da senhora mais simpática um cartão de recarga, pois a franquia foi-se na última saudade. A caminhada de volta e a promessa de boa forma aos quarenta com mais minutos. Chego em casa, e preparo a mochila pra viagem. Ligação de novo, daqui á meia hora estamos chego pra pegar a “internet”. Subo na locadora, passo na papelaria e compro um talão com canhoto. Desço pela ruinha estreita, a moça do restaurante natural sobe empurrando a bicicleta. Eu com pressa e ela finalmente conversando comigo na maior simpatia inesperada da tarde morna. Endereço da casa anotado no peito em um abraço em braile. Urgência dos compromissos e o aroma de pasta de dente no beijo de despedida. Até depois. Só acontecem nessas horas. O inesperado desce comigo, motiva uma corrida e cochicha no ouvido: Amanhã. Mas amanhã é outro dia...

De volta em casa, tenho o tempo de deixar tudo pronto e devanear um pouco. Anoto o nome e número da casa da bela cozinheira. A amiga ex chega, acompanhada do colega de trabalho, fecha o serviço, e deixa duas garrafas de refri. Fecho a casa e vou para o ponto. É o ponto final e duas mulheres estão sentadas no banco improvisado recém reformado pela iniciativa anônima dos moradores. No ônibus olho o céu decidindo os tons de cinza. Adianto mentalmente o roteiro do dia seguinte e aposto comigo mesmo. A moça da aléia é toda graça, mas não é Aletéia...

Desembarco no centro. O horário de pico não está longe. Subir ao mercado, onde um litro e meio de um vinho Uruguaio bom custo benefício ainda está com aquele preçinho e combina afetivamente com seu conterrâneo parmesão, que na mochila espera a deixa pra mais tarde. Grandes televisores de plasma em promoção ligados na MTV. Penélope entrevistando nas ruas. A ex de São Paulo a conheceu pessoalmente e se declarou fã. Mudo de canal. O banco de madeira do outro lado dos caixas está ocupado, arrumo no piso espaço pra a garrafa bojuda entre os ingredientes. Saio do hipermercado e está chovendo. Vim sem guarda-chuva, não parecia muito prático. A chuva não está tão forte, mas resolvo esperar. E comigo ficam várias pessoas ali na passarela protegida ao lado da saída do hipermercado. Aumenta o aguaceiro e fico observando o concreto do poste, ainda seco e claro, encharcar aos poucos. O emaranhado da fiação é tão bonito contra a luz amarelada da rua, enquanto a chuva engrossa. Pessoas correm, a maioria espera. Um cara japonês empurra o carrinho sem pressa na torrente com uma mão enquanto a outra vai no guarda chuva. O carrinho puxa pra direita. Uma moça no quiosque sem roupa de frio e chinelo de dedos leva respingos nas canelas. Adolescentes em uniforme escolar de colégio religioso pedem sorvete; Um casal se pega no canto, o toldo do restaurante ao lado canta grave para quem não tem celular. O ritmo diminui e sigo em passo rápido de volta ao terminal.

É raro eu ir ao Norte da ilha a partir do centro. Pelo menos tão ao norte. Acho que naquela plataforma nunca. Quando você está indo sozinho pela primeira vez para um lugar a maior fila do terminal geralmente é a sua, mas você finge ignorar. Hoje não é exceção. Pergunto pro senhor de bigodes e olhos claros se aquele ônibus vai direto pro terminal do norte, ele confirma e pergunta se é minha primeira vez na ilha. Não, mas naquele percurso é. Acabamos conseguindo pegar o segundo ônibus e vamos sentados, conversando até lá. Ele vai pro mesmo bairro que eu. Trabalha fora da ilha, mas faz uma viagem maior de casa ao trabalho. Vai sempre em pé de manhã cedo. O patrão estressado é jovem, mas safenado. Falamos de transporte urbano na ilha, ele destaca o paradoxo da ausência de transporte marítimo em uma ilha. A corrupção, a violência o descaso público. Quanto tempo moramos na ilha, as mudanças ocorridas, a urbanização acelerada, a faculdade do filho. Ele consulta o relógio, calcula o horário da conexão e liga pra mulher buscar ele de carro, pois o próximo ônibus demora. Ganho uma carona. O filho vem buscar e vamos até o ponto onde eu desceria. Um adeus sem nomes, cidadão.

Dado a referência, não deveria ser possível encontrar. Ela disse: o segundo ponto depois do quarto quebra-mola. Hã? Quarto aonde. Quando entrar no bairro começa a contar. Bom, o caos funcionou. Assim como a poesia. Ao final da Servidão, na árvore desenhada, passe o segundo portão e vire no caminho do coração onde encontrarás o refúgio. Luzes na casa de madeira no meio da mata, como em tantos momentos significativos. A suave voz da amiga que ainda não conheço guia os últimos passos. E estamos reunidos, sem pretensões além da companhia. Só conheço a amiga que me convidou. O outro homem só de vista em festas no sul da ilha. Um vinho já em cima da mesa e aos poucos vão surgindo da mochila os tomates, o brócolis, as cebolas e os queijos. Panelas de barro, fôrma improvisada e duas pizzas grandes. Diálogo de microcosmos.

Isso há uma semana. Vi um curta e lembrei de invernos passados. Vi documentário e vi que o tempo passou no rosto de velhos conhecidos. Dormi com a chuva lá fora. Acordei e fui comprar pães em uma clara manhã nublada. Vi fotos e lembrei de paixões passadas. E Refleti sobre os fantasmas dos quais queremos nos refugiar no coração, mas eles ainda assombram o peito. Penso no sarcasmo terapêutico que reservei aos amigos e como ele me embosca no caminho do coração e aponta a ferida, dedo em riste, próximo a chaga, reparando de esguelha no meu desmontar. Talvez ver no outro a dor semelhante abrande a decepção. Talvez apenas a torne ridícula. O que também serve.

Voltei de ônibus até o centro com a amiga da amiga. Dia cinza. Chego no bairro e desço antes para ir na locadora, ver aquela última comédia do Woody Allen que eu hereticamente não vi no cinema. É calculado. Rir pra espantar as sombras. Também é calculado o tempo de pegar o filme e sair pela mesma rua na hora que a moça cheia de graça sai do trabalho. É engraçado como se percebe à distância. O abraço não tem mais a mesma intensidade. O beijo não tem as mesmas nuances nem mostra os atalhos. Ela tem coisas para fazer agora. Seus planos mudaram e está indo embora de Floripa, fechando as pendências. E não vai abrir novas... Cogito. Ela diz que é muito impulsiva. Comento que é bom ser impulsivo ás vezes, ela diz precisa botar a vida em ordem. Reparo na minha frase bobinha e também na constelação de pontos com casquinha no pescoço dela. Calculo mentalmente o tempo de cicatrização. Disfarço com o uma hora dessas passo lá e nos despedimos educadamente. O dia de amanhã é sempre um novo dia. Quando desço a ruela sinto o sorriso malevolente daquele cinismo ancestral que mora comigo. Aposta ganha. Mas era fácil. Para o astrônomo paciente basta reparar nos ritmos do universo. A gravidade próxima á estrelas gera fenômenos curiosos. E elas inda ofuscam mesmo depois de mortas.

Mas a pizza no refúgio estava ótima. E o filme do Woody é bom e rio um monte. Hollywoodiano, promotor turístico pouco importa. A essência do cara está lá e ele é uma estrela. Um astro cujo brilho deve ser reconhecido. Sem se deixar cegar.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Tentáculos


Uma paixão platônica abandona da cidade para nunca mais voltar. O que não foi dito calado está. O espaço organiza o tempo que organiza o coração. E estou novamente naquele quarto vazio, liberto de toda expectativa. Então vejo você. Estou sentado e as pernas não dançam. O quadril é um vaso de onde cresce a árvore negra de copa bulbosa e cinzenta, cujos frutos vítreos enxergam a si mesmos de dentro de seu olhar. Visto você, cerco-me do aroma de seu couro róseo e finalmente estou dentro, lá no fundo da tua capela. Sempre me perguntei como seria nadar em outra carne. O mundo lá fora é uma silhueta atrás de uma pesada cortina. Sinto seu movimento, teu centro de gravidade balançando, os delicados dedos de sua mão estalando. Minhas mãos afastam-se de meu rosto e param quando encaixam no espaço côncavo dos teus seios. Giro os punhos e estico os indicadores, para eriçar seus mamilos por dentro. Os dedos em pontas de luvas mornas sentem a tensão do vestido. Teu olhar desdenha de mim. Longe, atrás do espelho, você agarra no ar um molusco invisível. E a tinta escorre, por tua mão e antebraço escorrem arabescos de ébano, a gramática das profundezas queimando na pele. Fecho os olhos e a vejo enquanto água-viva em uma velha foto sépia. Então saio do poço.


Ao abrir os olhos sou ela tão longe, sorrindo em uma roda boêmia, franjas nos cantos das pálpebras. Ao bater as pestanas sou ela, Kohl carregado no olhar e a boca pequena franzindo e esticando de espanto. Ao abrir os olhos sou ela, braços finos envolvendo segurando firme a cintura do professor, sentindo na palma o suor na fina camisa dele, enquanto giram no salão. Sou seus pés descalços nos paralelepípedos quentes da cidade longínqua, ao voltar para casa. Sinto a bermuda jeans apertada e o peso da porta do banheiro público quando ela passa, um ano atrás. O peso da câmera em suas mãos. A esmagadora densidade de tantos sorrisos.


A filigrana negra em teu braço, o bolor escuro salpicado no pote de manteiga. Vilas oníricas, metrópoles esquecidas. Quando as vejo roçar as unhas pontudas na barba malfeita de tantos, pergunto-me se é isso que procuram. Uma casa vaga na cidade efêmera. Uma árvore sem dono no bosque obscuro.


Sento diante da inimiga invencível. Desfeitas as mentiras, resta afiar o espírito e esperar. O mais gentil e afetuoso aspecto delas virá um dia trazer a derradeira taça. E quando os tentáculos romperem minha casca, serei o fio da obsidiana. Quantos já estarão lá, fincados na carne da realidade? Quantos Merlins aprisionados em cristais adornam a deusa?


Rogo que ela tenha ossos. A epifania de lâmina é encontrar resistência.

Quando paro pra refletir olho pela janela...

...E Janeiro de 2009 acaba. A década de dez, em sua denominação redundante, e talvez por isso mesmo raramente ouvida, começará daqui a um ano ou dois no máximo, dependendo de como escolhermos contar o tempo. Em 2012 o calendário Maia acaba e quiçá veremos o fim do mundo chegando ao tropel das carruagens de fogo de deuses alienígenas regressos. Porém, sobrevivemos a tantas profecias, ao fim do mundo no ano 2000, ao bug do milênio e mais importante, ao fim da história de Francis Fukuyama. E como o mundo pós humano ainda está longe, ainda mais para quem mal pode pagar as prestações de um computador pré pós moderno, quanto mais avanços biotecnológicos, a humanidade segue vivendo, com mais um tempo pra criar novas ideologias.

Janeiro de 2009. Mês de trabalho desde o dia seis, calor intenso, recursos entrando no curso, uma nova rotina estabelecida. Pessoas de capricórnio fazem aniversário, ganhando mais uma camada de verniz do tempo. E os nativos de Aquário também começam a envelhecer. Reparo mais nas pessoas, o quanto mudam ou permanecem as mesmas. Pego no flagra versões defasadas do meu ego tentando voltar para minha personalidade. Então relaxo e vejo que é hora de botar tudo nos eixos. Os livros que leio, as situações das quais participo, as pessoas que encontro, nunca falaram comigo tão francamente. Os ecos de uma vida anterior passada na índia chegam até a conversa dos alunos sobre a mais recente novela. As emanações do espaço tempo são irônicas, ou ao menos essa é minha forma de interpretar. Um mês de papéis estabelecidos e novos ganchos de personagem. Um mês rápido, acumulo três calendários pela casa e ele já acabou, nem comprei a agenda de papel, como das últimas duas tentativas em 2006 e 2007. Mês sem notas na agenda, sem postagens no blog. Mês do desfile pré carnaval das idéias não escritas. Fevereiro chega em um domingo e me faz uma proposta. Vamos ver no que vai dar. E se o espaço pode ser tão veloz quanto o tempo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Feliz Natal Guff !!




Dia 21 de dezembro de 2008, pela manhã, Guff, um pequenino Yorkshire partiu deste mundo. Foi encontrado na calçada externa da casa e enterrado pelo meu pai. Foram quatorze anos de vida. Um membro da família.



Eu tinha dezenove anos quando ele chegou em casa, agora tenho trinta e três. Foi comprado para minha irmã, a segunda tentativa dela ter um cachorro de uma espécie pequena, após uma poodle toy preta, morrer em decorrência de cinomose. Guff foi o primeiro filho dela, antes deste realmente vir ao mundo. No começo ele tinha seu cantinho, uma casinha dobrável de espuma, onde aprendeu a dormir. Tomou o quarto da minha irmã como território e o defendia ferozmente, assim como á ela. Se ela estava com ele no colo, chegar perto era arriscar doloridas mordidas do seus pequenos caninos, que machucavam muito, contrariando a aparência inofensiva.



Gostava de explorar os espaços da casa e fugir para a rua. Conviveu com três cachorros de grande porte, Dogues alemães e uma mistura de Fila com Dogue. Dessa convivência adquiriu uma exacerbada auto-estima. Era necessário, afinal as mulheres que ele almejava eram descomunais. Essa auto-estima, somada a sua valentia, lhe deu a confiança de viver entre gigantes e talvez por isso ele resolveu dar um olá na casa do vizinho da frente, onde um enorme Fila e mais outros cachorros grandes moravam. Esse Fila o mascou, e satisfeito o jogou para os colegas, que só não o trucidaram porque o dono chegou a tempo. Minha mãe e irmã o levaram chorando para o veterinário, sem esperanças. Ele foi todo costurado de volta e sobreviveu. Passou a semana de sua recuperação tendo pequenos ataques epiléticos, ou surtos semelhantes em aparência. Seu sistema nervoso abalado. Quando voltava ao normal resolveram dedetizar a casa contra ratos e ele ficou mal, quase morrendo novamente.



Por essas e outras ficou provado que a ele não servia o estereótipo de cachorro de madame. Quando foi comprado havia recomendações de que ele não podia ficar exposto a ventos fortes ou mudanças bruscas de temperatura e que uma queda de um metro seria fatal. Ele sobreviveu a muito mais. Passou por outras dedetizações, criou tártaro que o envenenou, poucos anos atrás, sobreviveu a uma transfusão de sangue. Uma vez eu arrumava a mala ás pressas para viajar e sentei na cama para amarrar os sapatos e o estrado caiu em cima dele, quase o esmaguei. Guff não era frágil como parecia. Tenho a impressão que muitas vezes, sutil e discretamente ele segurou a barra da família, como todo cão faz desde os tempos imemoriais do contrato entre espécies, atuando na diáfana fronteira do desconhecido. Na última ocasião em que, segundo minha mãe era para ele ter morrido, uma ano ou seis meses atrás, acendi uma vela por sua recuperação. Era um período de muito stress, tanto para mim como para minha família e tive a impressão que ele estava sendo exigido muito além de suas capacidades. Com a queima daquela vela antigos elos da adolescência também foram embora. Por uma boa causa. Era o mínimo que eu podia fazer por um amigo.



Penso em tudo que vivemos juntos. Em seu companheirismo, várias vezes ficava no meu colo enquanto em madrugava em frente ao computador. Sempre raspava a porta do quarto pra dormir perto da gente, como havia acostumado com minha irmã. Fico pensando nesse período que ele participou da minha vida e da minha família. Fico triste por não ter estado lá com ele nesse momento derradeiro, mas morrer insiste em ser uma experiência solitária. Lembro que cogitei trazê-lo para morar aqui, mas seria cruel retirá-lo do seu lar de tantos anos. Além do mais ali ele está bem acompanhado. Muitos ossos caninos repousam no jardim. Imagino que sinalizem um caminho tranquilo para o acordar.


Meu presente de Natal para você Guff são votos de uma boa viagem e uma boa estada em seu novo lar. Tenha uma boa passagem e mais que um Ano Novo, uma nova existência. Muito obrigado por ter compartilhado a sua conosco.



Acorde, o Natal chegou.

Feliz Natal!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Abajo la Calle




A orquestra vira a esquina comigo, a cidade é um cinza de azuis violáceos refletidos no calçamento e o cais do porto ao final da rua ofega, entre uma baforada e outra. Cada círculo de fumaça é mais um partindo, embora o corpo fique para trás, olhando fixo o copo vazio, sonhando aguardente e calor barato em seda velha. Emborcando o chilreio de saltos e o suave estalo só deixado por lábios carregado de batom. A saca de estopa vai aos ombros, arranhões preliminares da amante, seu peso firma os pés e cada passo é um ensaio de dança, seu volume testado pelos dedos é a resistência da parceira e as pedras no piso são as linhas da pele de seus ombros. O calor do meio dia é o do corpo dela e o vapor subindo das pedras é seu perfume barato. E ele segue ao armazém com quem sobrevoa savanas desconhecidas em um balão. Os grãos o odor de um incêndio distante, irritam os olhos com a bruma de um ocaso, no horizonte um sol castanho emoldurado pela pausa quando o solo erodido freme, á espera do próximo movimento. Cílios da noite chegando estrelada no suor da fronte, gotas no dia a pino gemem evaporando nas pedras. E a noite se instala em volta das luzes amareladas, ao redor das ruas emaranhadas, na superfície dos sapatos de couro e de verniz, por fora dos ternos de feltro e dentro das rendas francesas, contorna os maços de cigarro, enrosca os de dinheiro, sopra através dos violões e sonha preguiçosa dentro dos acordeões. E em suas mesas, no salão, ao bilhar, no balcão, á beira da porta, nas calçadas entre corredores e becos, nos quartos abafados, estão eles, tantos olhos de um deus morto, roubados só para te conquistar.



Suas órbitas vazias ainda estarão lá, quando olhares o cais do longe do último barco, como uma brasa apagando o horizonte. Órbitas vazias, pés descalços, piso frio, a aurora entrará lenta entre olhos cegos e só assim finalmente poderei lhe ouvir. E só no vazio serás melodia...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Fantasma além

É noite, as caixas de som zunem, o computador sussurra, a geladeira estremece. Ouço a noite, seus insetos, o som da luz nos postes, o mar ao longe, alguns carros na estrada. Preparo aula, estudo, escrevo. Imagino você chegando, geist über weltgeist.

Sua risada, seus gestos, seu cigarro e uísque, sua pomba-gira auto-imune, Maria Padilha niilista. Sinto você atrás de mim, observando minhas atividades. E você põe a mão no meu ombro, essa mão fantasmal que já esteve tão perto, os dedos, o contraste entre palma e costas, as linhas, o relevo, o tempo de uma dimensão paralela. A áspera maciez de um país imaginário, o frio de seus regatos, o calor de suas fogueiras, a cantiga do vento desbastando as montanhas quando sua mão desliza contra minha pele, seus dedos escavando novos vales envolvem meu pescoço com a lentidão das geleiras. As estações passam enquanto sinto você inclinar-se sobre mim, seu cabelo como uma nebulosa atravessando o sistema solar, seu aroma um vapor de terra, seu calor o sol idealista de uma primavera.

E você me abraça. E demora comigo em silêncio, esquecendo o tempo, finalmente sem pressa. Universos se interceptam e você colapsa um beijo em minha bochecha. Deixo as ondas de choque se dissiparem pelo cosmo do meu crânio e você vai. Vejo-te partir, no rumo de teus sonhos, como a bruma de uma manhã na serra do mar, revigorada e cheia de esperança.

Dança no sol minha melhor vampira...

No ar dançam cinzas, e fico a pensar se todo coração é um origami.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Finitude

Quando acordo de madrugada para ir trabalhar e na minha primeira ida ao banheiro defeco apenas sangue, penso na finitude. Lembro dos morros na paisagem e imagino o horizonte de eventos da minha vida estreitando, até o derradeiro colapso. Sinto um grande silêncio, expandindo de dentro para fora daquilo que entendo por minha consciência. Penso nas histórias incompletas e nas ainda por contar. Penso nos intraduzíveis momentos quando dialogo com a lista de músicas, em todas as idéias amigas que passam por mim, a caminho das metrópoles mentais da humanidade, para mais um dia de trabalho. Penso nos amigos verdadeiros, em todos os instantes de cumplicidade como velas iluminando uma grande casa de madeira, prestes a queimar. Lembro da cama desarrumada e vazia no quarto, um lado mais amassado do que o outro. Penso em nas minhas prioridades, no quanto é bom estar sozinho, poder partir sem angustiar uma companheira. leio o que escrevi agora e suspiro a incontinência do melodrama. Pensar em fins atrai o vampiro do drama.

Penso em você. Na distância entre nós, se meu afeto não é somente outro hieróglifo de uma busca na qual escolho perder-me para não ter de olhar para o caminho á frente e o sentido de estar nele. Na última semana meu sentimento por você é mais uma escultura na sala de estar, ao lado de São Francisco de Assis, da estátua marajoara e do negro de madeira. Sem ter contato contigo, fui colocando tantas camadas de verniz nele, que agora posso olhá-lo como se não fosse meu. Assim fica mais fácil por de lado caso não haja espaço para mim em sua vida. A maturidade por vezes tão maldita cria um lado prático no coração, como um programa de treinamento de um caixa de supermercado. Passar as mercadorias, ver o total, forma de pagamento, empacotar e deixá-las partir. Esperar as próximas da fila. Diante dessa rotina o coração só anseia pelos quinze minutos de pausa na salinha dos funcionários, de onde observa o fluxo dos afetos enquanto fuma um cigarrinho. Hipermercados Samsara. Mas como não há angústia, deve ser o zen do não pertencimento. Não consigo imaginar mais alguém como minha. Só o fato de estar na mesma vida e dividir experiências com você é divino. Mas eu nunca deixei de ser ambicioso.

A passagem do tempo foi criando uma nova orientação sexual, o afeto por espaços antropomórficos vazios. A paixão pelo vácuo deixado onde outrora uma mulher dançava e ria em voz alta. O vazio deixado pela implosão de conceitos como lábios, olhares, pés, mãos. Penso em meu coração como um favo onde a única hierarquia entre as paixões é o nível de realidade delas. Penso em uma amiga especial dormindo sozinha a mais de quinhentos quilômetros de distância. Sabendo assim como eu o quão bom ou ruim é ter uma cama de casal com espaço sobrando. E penso em você. Lembro do quanto a imagem dos seus pés sem meias em uma sandália deixam pegadas em meu peito. Do quanto os instintos de sobrevivência não me deixam examiná-las com cuidado. Pois você vive em um mundo particular. Ao menos da forma como escolhi concebê-la.

Dentro de mim, do centro de uma geleira, preservado, um adolescente de quatorze anos balbucia senil, preso na eterna repetição do mesmo instante. Não é mais uma criança, não posso lhe dar colo. Não é ainda adulto, não posso empregá-lo. Ele espera a alvorada de uma outra vida, após passar pelos bardos e manter a consciência, de uma existência á outra, ver uma nova infância crescer ao seu redor, a chegada de outro adolescer, aprender outra vez a gostar. Aprender de novo a colocar o pé na estrada e seguir tranqüilo. Deixo o sonho já vivido da juventude para trás, não sinto mais o frio de suas paisagens.

Penso em você. No esgar canino de teu sorriso visto de lado, a caveira da finitude, no peso de teu olhar quando nele brilha a noite abissal. Na força da tua presença, na tua consistência. Tento imaginar teu gosto. Lembro do quanto a vida é curta. E se não existe alma, não há um depois e tudo cessa quando finda, porque hesitar? No fim basta lembrar do instante em que provei você. É todo significado que preciso. Inclusive para permanecer um pouco mais. A única prova da existência de Deus que preciso é o teu sabor.

Dê-me um derradeiro beijo e apague a luz.