quinta-feira, 20 de março de 2008
Livro Afinal
E o livro é bom, muito bom na verdade.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Clipe
Você vaga pelas ruas, o cabelo bate no alto dos ombros e te faz lembrar de quando ele era comprido. Tempos de mestrado, poucos e bons amigos, romances platônicos, muitas promessas. Recorda a saída da universidade com seus colegas, sorrisos, olhares tímidos e cada um deles vai se afastando para um carro, um ônibus, um metrô e você fica sozinha, com a cidade passando atrás como em uma esteira de fábrica, mudando a cada rua transversal que você atravessa.
E estás no presente. O rosto melancólico comprime os lábios em um bico e as sobrancelhas pretas definidas erguem um arco “e se”. O vestido preto e azul agora é branco e você mexe na bolsa, acaricia a lebre caramelo lá dentro, tranqüila entre paredes de veludo vermelho e um piso de grama. Pega um estojo largo feito de jeans e quando ergue vê a si mesma esperando o ônibus, calça puída e tênis gastos, jaqueta um tamanho maior, celular na mão, abre, fecha, olha o ônibus e contempla a tela.
Ultrapassa a si mesma e se vê sentada em uma escadaria, amigas em volta, cortando a calça pra fazer o estojo. Você abre e tira dele uma grossa trança dos seus cabelos pretos com fitas vermelhas nas pontas. Você a coloca no pescoço enquanto anda, é uma gargantilha. Amarra as fitas e antes de dar o nó puxa as pequenas cordas que derramam o azeite de oliva que empapa a trança. O azeite escorre pelo seu colo nu e mancha o vestido. Você dá o nó. Seu vestido começa a mudar para verde escuro.
O mundo desacelera ao seu redor quando você solta as mãos e olha fixamente pra frente, o rosto melancólico substituído por uma determinação impassível. O sol aparece ao seu lado e você sorri na direção dele, lábios com um brilho verde refletem insetos voando. Entrega sua bolsa para um louva-deus gigante que lhe faz uma mesura com a cabeça. Olha pra frente de novo e caminha confiante. Começa a chover.
Você fecha os olhos, ergue o rosto, abre os braços e se joga girando em direção a avenida. Você gira sem parar na avenida molhada e os carros começam a derrapar e giram junto contigo, a água sobe entre eles formando lentas colunas ascendentes. Vista de cima, você é um ponto verde entre manchas coloridas escorrendo em linha reta pelo vidro do carro. Os reflexos da estrada brilham lá fora. Você puxa a aba do casaco com frio e se ajeita melhor no banco. Olha para o vidro e devaneia. O cheiro dentro do automóvel te conforta.
Seu rosto vai ficando pequeno enquanto o carro, a estrada e a paisagem se afastam em ritmo constante, até parecerem uma coisa só.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Manteiga Epifania
Quando olhei pela primeira vez esse pote de manteiga fiquei surpreso com o design. Manteiga em espinhas? Homenagem industrial ao úbere primevo? Um estudante de arquitetura com o prazo apertado para entrega de um trabalho teria ocas modulares em sua mesa. Todas as manteigas de pote até esse dia tinham sido iguais. Planas, lisas, ás vezes com um platô ou outro desnível para um lado, mas nunca assim, organizadas. “É da máquina”, me disse um amigo. Realmente, dá pra imaginar uma esteira e a manteiga vindo por tubos até os bicos dosadores, o suave som semelhante a um flato tímido quando o pote é preenchido. Teria eu sido enganado todos esses anos, por comerciantes que desligavam seus freezers durante a noite e assim desfaziam o singelo padrão? Teria a luz elétrica diminuído de preço, permitindo a volta daquela estética, sem ameaçar o lucro dos mercados com geladeiras ligadas? Nada disso, apenas uma mudança no padrão das máquinas dosadoras. Pelo menos para mim, a primeira em dez anos. A manteiga mais barata do mercado agora vinha com uma experiência estética gratuita. Um inesperado estímulo para racionar o produto quando a grana aperta. Agora havia como escapar da depressão ao constatar a geladeira quase vazia. Uma xícara com a última dose de café, o derradeiro pedaço de pão e uma contemplação.
Amanhece á mesa quase nada,
Ouço os sons do dia
Chega a luz da alvorada.
O café ralo,
No bule espera.
O pão dormido,
Acorda a fera,
A manteiga é destampada.
Urra a pança,
Contemplo a textura.
Espeta-me a lança
Com ternura.
Desço entre monastérios
Cúpulas de ouro sob o sol.
Caminho nas sombras de torres amarelas, uma cidade coberta de arabescos cambiantes, envolta na fumaça dourada de chá de manteiga de iaque. Um sensual aroma de úbere e óleo de açafrão envolve e aperta como diáfanas serpentes de vapor. Á sombra dos palacetes monges dourados ecoam o mesmo mantra. Odaliscas se espreguiçam no umbral de cambiantes portais. Seus sorrisos fluem ao contrário, para cima enquanto deslizam ao meu encontro, ventres generosos e curvas brilhantes derretendo ao sol...
Que ilumina já a mesa e amolece o pequeno quilate de Xanadu ali á espera. Começo a desfazê-lo com a faca...
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Noite no subsolo
Eu cheguei no bar com o Jota, naquele meu estilo elegante e lugar comum de vestir, com uma camisa gola pólo e uma calça jeans com aparência de nova. Ele estava como eu, mas seu eterno ar de sambista o tornava mais elegante, qualquer roupa caía bem com sua descontração. Naquela noite eu não estava distribuindo sarcasmo como de costume, mas entregue a uma ansiedade fria e previsível, por isso mesmo controlável.
Em uma mesa no largo corredor do subsolo estavam as amigas do meu camarada. Na verdade vizinhas de prédio. Bom, só Sônia era amiga dele mesmo, a outra era amiga desta. Quando nos viram houve aquela pausa de segundos quando somos sondados com equipamentos de inconcebível tecnologia. Depois, os cumprimentos educados. Sônia era uma moça de altura mediana de uns vinte e seis anos, cabelos castanhos sem franja escorridos até o ombro, um lado mais despenteado. Rosto comum, porém belo, com um sorriso levemente triste que fazia toda a diferença. Usava uma mini saia branca justa e um casaco curto também branco e aberto, deixando a mostra uma blusa apertada de um verde escuro cintilante. Um decote generoso, coxas grossas, belas curvas. Para os padrões do meu amigo ela era gordinha, mas em minha opinião ele sonhava acordado com algum país de virgens anoréxicas.
Gisele tinha ascendência oriental e curvas menos exuberantes, mas firmes e delicadas, que fluíam em conjunto sob o pano ao menor movimento. Usava um vestido roxo, estilo entre medieval e moderno, de mangas compridas e ombros levemente bufantes, mostrando uma parte das costas, expondo o pescoço e um par de hipnóticas saboneteiras de pantera. Seu cabelo longo também tinha mechas e reflexos roxos. Seus lábios carnudos ficavam mudando lentamente de formato, quando ela não estava fumando, como um caleidoscópio de brilho fosco. Infelizmente a maior parte das combinações que faziam com os olhos era de desdém.
Logo que nos sentamos ela ironizou com meus cabelos compridos e minha condição de estudante, fez questão de destacar que ela trabalhava, tinha um emprego em um escritório e se preocupava com coisas sérias e adultas. Eu mal tinha aberto a boca. Nem tomado um trago. Vieram as bebidas e ela forçou um interesse perguntando de que cidade eu vinha, filmes preferidos, livros e outros detalhes. Houve alguma conversa amena entre nós quatro, mas logo Sônia e Jota deram prosseguimento a algum assunto pendente entre eles. Continuei falando de mim para Gisele, consegui alguns sorrisos agradáveis, mas a situação no geral era terrível. Ela me olhava como se eu fosse um tedioso exemplar de uma raça de lesmas peludas, mais um medíocre improdutivo onerando a sociedade, com sua existência. Os mínimos movimentos de seu belo corpo agora eram os de um predador, indeciso entre sujar as garras na imundície ou livrar o mundo daquela aberração na sua frente. E ao mesmo tempo aquela calma por entre a fumaça do cigarro, aquela beleza envolvente como o som de um gongo atordoando os sentidos a cada piscadela. Ela era fantástica, mas isso ficava escondido debaixo da própria merda rancorosa com que ela tinha se coberto. Gisele tinha sido cercada no centro da cidade por uma torcida organizada e quebrada até o menor dos ossos, á luz do dia em horário de almoço. A rua ficou assistindo e ninguém fez nada, seguiu sua rotina enquanto ela permanecia no chão coberta de mijo e fezes. E eu era só mais um cara menor do que o sofrimento dela. Um esboço, um contra regra.
Uma hora nosso assunto morreu e ela ficou dando ostensivas olhadas para a amiga, com vontade de ir embora. Eu já havia reparado que Sônia fazia alguma confissão muito íntima para o Jota, tinha até chorado. Mas ele contou uma piadinha infame e conseguiu levá-la para a pista de dança. Era visível que nada ia rolar entre os dois, mas Jota mantinha a esperança. Os olhos de Sônia estavam em outros rapazes. Gisele viu que ia ter de esperar e tentou disfarçar no seu rosto, sem sucesso, aquela frustração de estar condenada a dividir seu tempo comigo. Sua educação fingida ficava cada vez mais insuportável. Perguntou-me sobre meus relacionamentos e após meu resumo soltou um suspiro irônico. Todo o sarcasmo que descarreguei no mundo estava voltando para mim naquela noite, querendo provar que deus existia e era uma mulher bela, amarga e vingativa. Não agüentava mais. Quando ela estava me ignorando ataquei:
- Porque você tem de ser tão insuportável? O que te aconteceu? Sua amiga perdeu um filho, foi traída pelo ex-marido que roubou tudo que ela tinha e ainda passou AIDS pra ela. Mas ela ainda sai pra balada e curte a vida. Ela teria muito mais razão em ser frustrada com o mundo, mas não é. Não é curioso isso?
- Você virou um livro de auto-ajuda garoto? Se quiser aplaudir vai lá. Ela vai gostar.
- Não, assim como eu ela não está aqui pra dar show, vivemos o presente.
- Fale por você. Ela vive de ilusão.
- Você é amarga.
Ela apagou o cigarro e sorriu, jogando os cabelos para o lado, saboneteiras ondulando como veludo. Inclinou-se devagar para meu lado enquanto falava.
- Não. Vou te contar a verdade, já que estamos aqui após todo esse tempo. Eu e ela somos um espelho. Sou a sombra do teu reflexo. Nós somos tudo que restou do teu lado feminino. Esse é presente. Seja bem vindo.
Sônia chegou da pista, pegando a bolsa e acenando pra amiga. Gisele se levantou e vestiu uma jaqueta jeans clara, ocultando toda a beleza de seu vestido. Jota lamentou a partida delas e ensaiou uma longa despedida. Sentado de pernas quebradas olhei para Gisele, engolindo a verdade. Não podia terminar assim.
- Meu lado feminino? Cadê a terceira de vocês?
Sua delicada mão acariciou meu ombro enquanto ela se inclinava para sussurrar no meu ouvido. Suas voz tinha suaves cliques:
- Então espertinho, essa aí é aquela que assombra as tuas punhetas. Tenta ser mais criativo tá bom? Curte a vida. Tchau.
Deu-me um beijo carinhoso e levantou-se. Pegou Sônia pelo braço e acenou pro meu amigo. Jota sorria, satisfeito e radiante. Cerveja na mão passou o copo, enquanto me cutucava com o cotovelo, repetindo e aí, e aí?
Eu estava mudo, havia sido derrotado. Senti o copo na mão, a cerveja gelada descendo, ouvi minha voz, mas dentro de mim já tinha levantado e ido embora. O bar virou um jogo de luzes coloridas dentro de uma esfera de vidro que encolhia, cercada de escuridão. Eu tinha olhado o abismo e ele me olhou de volta. E riu da minha cara.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Ele chega em casa, abre a mochila e tira as compras da feira, o melado, o queijo e se apressa me guardar a manteiga na geladeira, tomando o cuidado de ajeitar o saco plástico para ela ter um formato mais ou menos quadrado quando endurecer.
- Transtorno obsessivo compulsivo dando sinal de vida!
Ignorando a observação, ele fecha a geladeira e vai tirar uma lasca do bolo recém comprado na padaria. Busca uma faca no escorredor e começa a arrumar a louça e as panelas. Tira a frigideira laranja lá do fundo primeiro, seca ela embaixo, onde ainda tem algumas gotinhas. Fica contemplando a frigideira de ferro pesada, a beleza de seu acabamento. Coloca-a no parafuso na parede, acima do fogão, que é seu lugar cativo. Sorri.
- Rindo de bobo né? Gostei de ver, limpando a bundinha, me sinto quase um bebê.
- Eu gosto de cuidar de você.
- É, tô vendo. Mas podia demonstrar mais consideração, fazendo comigo algo menos comum que um macarrão alho e óleo!
- Nossa que isso, tudo que cozinho em você é especial pra mim.
- “Tudo que eu cozinho em você é especial pra mim!” Que meigo! Mas então FAÇA! Usa direito o que é teu! Cadê o camarão que você prometeu?
- Camarão ainda tá caro. E mês passado eu fiz um quilo.
- Que tava quase vencendo! Sorte sua não ter tido uma caganeira!
- Olha quando for hora eu faço algo bem legal em você tá bom?
- Ah sei! Só porque tá na subsistência não quer cozinhar. Se fosse pra impressionar mulher você fazia.
- Calma lá, não é pra qualquer uma.
- Ah tá, não me esqueci. Só se ela der pra você né?
- Com certeza. Melhor elogio ao gourmet é um boquete na sobremesa.
- Escroto!
- Já que nesse local está armazenado meu banco genético de futuros, vou traduzir isso como se fosse um elogio, um novo termo para criativo!
- Você nem sabe fazer piada.
- Mas sei fazer posta de atum ao shoyu com cream cheese.
- Ah tá bom! Repete bastante que você acredita! Cala a boca, nem aprendeu que não se usa garfo comigo! Esse revestimento aqui não é falso que nem sua perícia na cozinha, ele estraga! Tem de saber cuidar!
- Desculpa, me atrapalhei ontem.
- Isso, vai tratando como se fosse a topa-tudo do cabo quebrado, vai. Essa você abusa, joga num canto deixa com óleo, casca queimada e ela ainda agradece a atenção. Não considera. Não é porque faz fritura que é facinha!
- Mas meu deus, é uma questão de praticidade! Uma pras leves outra pras pesadas!
- Isso, trata o afeto com praticidade pra ver o que é bom! Valoriza cara, valoriza!
- Meu amor é prático mas é amor tá? É sincero.
- Tudo bem, tudo bem... Eu sei, vou me contentar. Nativo de Galo é foda mesmo, muito chato.
- E nativas, então, nem se fala.
- Calado. Você nem lembra quando sua mãe me deu pra ti.
- Depois eu ligo e pergunto.
- Nem precisa. Come seu bolo, toma seu chá, vai dormir, faz melhor.
- Se eu soubesse que a astrologia chinesa ia te fazer mal, nunca teria feito aquele frango ao chop suey... Mas tudo bem, até o fim do mês um coq au vin vai consertar tudo isso.
- Ah, não me enoja, pára de ser vulgar!
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Posta de atum ao shoyu.
02 postas de atum cru
250 ml de molho shoyu
Cream cheese
Alcaparras
Faça o atum na frigideira, com shoyu em vez de óleo.
Se quiser, tampe a frigideira para ir mais rápido.
Quando as postas ficarem prontas, cubra cada uma com uma camada de cream cheese.
Salpique alcaparras a gosto por cima.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Chapa-te de abacate
O abacate já tem óleo até demais, então você só vai precisar de água para dar a consistência da massa, além do sal. Se quiser, pode acrescentar um pouco de suco de limão no abacate antes de misturar com a farinha.
Aí é só servir. Com café ou com suco cai bem.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Reforma
Pra começar um sambinha descompromissado.
Nada muito rápido, leia com uma melodia tradicional na cabeça,
entre Martinho da Vila e Paulinho da viola, sem pretensões, sem medos, sem metas.
Indiazinha universitária,
Dançando tão bela
Gingando, sorrindo.
Daquela festa ela
Estava fugindo.
Encontrei-te de novo
Na faculdade
No meio do povo
Falamos até tarde.
Um beijo tão doce,
Dissipando a tristeza.
Caminhamos até sua casa
Sentamos á beira da mesa.
Naquela sala você mudou de idéia.
Disse que era engano,
Seja meu amigo.
Minha beata virou atéia,
Atrás do pano
Sozinha, no sofá dormindo.
Sem malandragem,
Sem afeto.
No seu pé tatuagem,
Deixei em projeto.
Dia seguinte,
Cama arrumada.
Aluno ouvinte,
Tese rejeitada.
O tempo passou,
Eu me formei.
Uma pós calhou
E te encontrei.
Você me cumprimentou,
Eu rejeitei.
Á distância sem jeito
Esboçaste um abraço.
Não, nada feito,
Se já passou, eu passo.
Vejo esfriar
Tua espontaneidade
Podes culpar
Minha personalidade.
Não guardo rancor,
Daquele dia aziago.
Reconheço o valor
De um remédio amargo.
Dia seguinte,
Cama arrumada.
Aluno ouvinte,
Tese rejeitada.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Só quando acordo a lembrança de nunca ter dividido goma com outra boca se instala. Assim como jamais, jamais.
Lá, você retorna á penumbra, descendo devagar em um vasto tacho de óleo fervente. Suas roupas deslizaram para ás sombras, como tiras de serpentes voadoras. O cabelo curto espeta a curva do ombro quando seu rosto olha por cima, desaparecendo em silêncio no sibilo monocórdio do azeite imperturbável. Até restar só a superfície de um sussurro homogêneo, imiscível.
Uma manhã com um suspiro dúbio na mesa do café. Existem ironias e existem paradoxos. Mas melodrama nunca deixa de ser popular na tela da vida interior. Principalmente os bem feitos.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Uma análise posterior
Prosa de uma paixão
Uma linha reta cortando o espaço, naufragada de inumeráveis planos e nós agarrados a ela, com infinitas facas, fincadas nos pescoços dos dragões e me beijas, o ar lento eviscera flores selvagens do sorriso cálido, a banhar abismos vários, das faces que visto.
Sinta. Meu vôo é negro sobre os azuis, brilhando nos botões de almas ainda não abertos. Falésias raiadas rasgam-se nos ossos fundos dos gigantescos gestos, semeados na amplidão de flores vastas, dançarinas.
Meu bebê é um coração cálido aninhado no peito, imenso templo de fluido metal róseo, quente se faz vulcânica pena do penacho da ave fogo, a aquecer este ovo negro, por ela posto e nele imersa. O olho púrpuro na treva orgânica das palavras mágicas, do coral atômico de tuas células.
Eu sou longo como o instante da carícia e amplo como olhos que se tocam, nas almas cruas que se beijam, ao cair oceânicas na lágrima de alegria.
Quando releio esse meu delírio platônico, voyeurístico e auto-acariciante de meus dezenove anos de idade penso em metal melódico, emotividade, na poesia de botequim e como tudo isso ainda tem um assustador apelo e público consumidor até hoje. Um título mais apropriado seria Prosa de uma Masturbação, um panfleto adequado a um banheiro onde se realizaria enquanto arte laxativa, trazendo a tona o melhor de nosso mundo interior, o alívio de se desvencilhar daquilo que não mais nos é necessário.
Pais e mães, se seu filho adolescente está ficando muito interiorizado, reflexivo, demasiado devaneante, leve a sério, cuide. Não o deixe emostar demais. Façam uma boa e velha viagem: Colômbia, Namíbia, Coréia do Norte, ou ao menos, uma montanha russa, Simba Safári á pé, rapel em cachoeiras, canoagem, atividades felizes como essas. Isso tem que ser tratado como um canal dentário, meticulosamente.
Faça qualquer coisa, pra não ter de recorrer á quimioterapia quando for tarde demais. A febre do devaneio, quando se instala, demora décadas para ir embora. Acredite será bem melhor para seu filho não acordar de madrugada sonhando namorar alguém que o despreza.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Utopia Portátil
Um vazio que chama a viagem, chama o vazio da xícara, o oco da casa, da barraca, deste ônibus, o vão do sapato, a fôrma das calças, o éter dos telefonemas, a câmara das conversas, o escuro dos olhos, o branco do papel.
A mochila no bagageiro, como um cão triste esperando a volta do dono. No banco de passageiros vazio, como um gato pedindo cafuné. Semi-esvaziada em um canto da estadia, tal ídolo antigo, aceitando oferendas, distribuindo bênçãos.
Lagarta de carne rarefeita, roendo uma folha esvoaçante. Fruta única de árvore sem raízes. Da poeira do quarto para a poeira da estrada. Última lágrima do alento de um sonho, afinal derramada.
terça-feira, 5 de junho de 2007
Vigora
Vigência de um vício em insone lâmina transparente,
Tão rente á pele microbiótica
Certeza negada e outra vez deferida...
Eco em forma de vácuo emoldura tua piedade.
Vive visível vício?
Carne cortada, pústulas à venda,
Todo sangue escorrido e agora só essa luz elétrica fala por ti,
Com a dor amena de amanhecer...
Agudo pleito de plágio braquicárdio!
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Cacos no chão
Arranquei,
Da minha imagem
O coração,
Reflexo parasitado.
Um asseado verme
Sorriu-me
Óxidos de outras eras.
Era ele mais
Uma corda
Que toava,
Na minha alcova vil,
Lambendo as vestes
Das considerações reclusas?
No salão
Um pingo
Reverbera,
Compondo pavilhões,
No som
Da senil linha
Reta.
Aquele,
Outro em minha
Arcada,
Reflete os
Vultos assoberbados
Frente à máscara,
Portal da vida
Dentes,
Espelhos,
Sem saída.
quarta-feira, 16 de maio de 2007
Sou uma sentença
Sou uma sentença.
Sólida,
Sorumbática,
Caminhando de folha em folha.
Deixo minhas pegadas de tinta.
E não tenho pressa,
Tenho sono...
Vou dormir em outra mente,
Aqui o aluguel está caro.
Não lavam esse
Sangue-borrão
De onde me sento,
Mas me alimentam bem.
Letras gordas,
Morrem gritando como porcos,
Para me serem servidas.
É gentil o senhorio,
Nesta casa cheia de pó,
Tantas frases mofam
Nos corredores.
Expressões mumificadas,
Cadáveres de histórias ressecadas,
Amontoam-se nos quartos.
Ou então dormem nas infinitas pilhas
De papel em branco,
Roídas de ratos
Compostos de lápis.
Os coloridos sempre riem.
Pelo menos assim parece.
Sim sou sua sentença,
Já vou indo agora,
Tenho sede
E as folhas são secas
Mesmo
Sempre vivas.
Solilóquio
Com o papel,
Só se é louco.
Disso não há
Dívida.
Duvida?
Sono
Sono, eu os vejo pequeninos.
Sono, as imagens afogadas
No pulsar das facas.
Na queda pulsante,
Dos corpos,
Das lâminas,
Das línguas.
Uma vasta onda
Esfola a realidade.
Calma, a maré afasta o solo,
Gota à gota.
Somo psicóticos sim,
Chacinados carvões!
Dois olhos se erguem.
Um corpo, uma miríade,
De afiados metais.
Cada retalho é
Reflexo do ser som.
Uma multidão de rostos,
De gozos,
Na infinidade das dimensões,
Goza!
Dos deuses pessoais a carne,
Cacos de aço,
Ri e rima.
Mentes na Rodovia
Siga a estrada de espelhos, cortante, sem saída. O sangue de uma era dorme com você, em seu carro de ferro. Carona Azul é o ar condicionado, um pacote de carne e estilo, na dose certa pra te satisfazer. Agulhas de gasolina chacoalham lá atrás, aquelas com que estico o mapa de couro e suas rodovias cicatrizes, recheadas de um ouro cinza que já confundem com chumbo, após tantos fogos andarilhos.
Não espero mais que o olhar baço do horizonte, dormindo ao volante ao me ver, incessantemente vindo em sua direção. Ele lacrimeja, lacrimeja, enfim dorme, e fica mais atento. Sua inconsciência é precisa, fria, racional e tudo esvazia com sua presença.
Repercute em meu gosto essa espera da luz sem rumo, dispersa demais para ser minha amiga, onipresente professora de sorriso irônico e lábios amontoados de lã.
É este o lar do vento irmão eco, que agora se senta ao meu lado desdenhosamente mortificado.
É aqui que atropelo quem toca os genitais de minha alma em busca de abrigo.
Onde o asfalto estala unhas tetraplégicas, incrivelmente asseadas.
Local que jamais o será novamente.
Espaço endócrino-gástrico-intestinal.
Na hora certa em que vais a merda,
Musa filha-da-puta.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Sem sonhar se irrita
Não há sonhos na manhã deste dia. Não existem sonhos visitando a catedral. O pragmatismo lhes retirou todo fluido e o escorreu entre os dedos, em uma camisa molhada de suor e metais engraxa o cavalo a vapor.
Poderia ser o álcool, essa leve angústia, moléculas egoístas não abrem espaço para visitas. Mas são lápis desarmados em dedos grossos, densos demais para o piano, vastos para as cordas de violão, desajeitados entre as placas de circuitos, retângulos dentuços de polímero, cobre e outros metais pequeninos, nossas presas, com as quais queremos morder e mastigar o mundo.
Dedos grossos manipulam o mundo através da alavanca do próprio sexo. Terminam velhos e úmidos, recobertos de tempo recendendo á mágoa. Da gordura das horas se faz o sabão que lava a sépia dos sonhos de debaixo das unhas dos dedos calejados de procurar.
sábado, 5 de maio de 2007
Manhã Sem Café
Meu sangue carcomido,
O sexo exacerbado,
Reveste de sentido,
A ferida no estofado.
O polegar, esse exegeta,
Toca um fluido ignorado.
Corre limpa desinfeta,
Crítico, o tédio está sentado.
Espalha veneno
Uma xícara vazia.
Na mesa polida peno,
Um foco amargo ia.
Ser ameno, ser simpático.
Ignorar as pessoas,
Mesmo sorrindo, pragmático.
Até quando lhe entoam loas.
Na garrafa, sem aroma,
Não há gente, não há fé.
O amargor de existir assoma
Na sólida manhã sem café.
Demian Machado
sexta-feira, 4 de maio de 2007
Colegas
Transtornados, os amigos cantinflam,
O tempo comeu seu quinhão de paciência.
Senso de humor é exclusividade interna,
De clubes onde se colecionam olhares.
E o pitoresco é o verniz da moda.
Mas não comente tá bom?
Narrativas não vêem á luz parara serem
Atrapalhadas.
Há cronogramas a serem seguidos,
Regimentos pessoais de consciência
Cartilham o melhor lucro entre duas sombras.
O cinza é só processo pra ficar na nostalgia,
Numa lembrança fotográfica ou
Reminiscência agridoce.
Séculos de carinhos esquecidos
Estufam almofadas e ventam nos sorrisos,
Soltos só entre lençóis, mudos confidentes.
Auxiliares de direção desse teatro de
Angústias brocadas com alegrias centopéias,
Leves, leves, vão pisando o coração.
No ventre pousaram as mariposas do desdém
Sobram vazios gélidos entre pessoas.
Lâmpadas fluorescentes da arquitetura
Humana.
Conduta, conduíte e contato. O edifício está pronto.
Em cada pavimento a estética de
Vidas em comum
Esticam-se até o horizonte.
Demiam Machado
Cinema Rodízio
Ele acordou antes dos outros. Eram quatro e quarenta e nove da manhã e os onze minutos restantes apagaram a lembrança dos sonhos. Levantou-se e a madrugada de Porto Alegre ainda de pé sussurrava atrás do vidro do sexto andar. Foi tomar um banho frio. Após, nu e seco, sentou-se em lótus respirou fundo e tentou alcançar os outros. Todos dormiam e seus sonhos eram como cenas chuviscadas dentro de bolas de gude. Visualizou sua mão se erguendo e abriu os dedos imaginados. As esferas se aproximaram e ele foi puxado para entre elas, como se houvesse uma súbita gravidade. O truque exclusivo começou a funcionar e ele viu o futuro próximo.
São Paulo estava de pé lendo as notícias, Rio ainda nadava nos sonhos confusos da embriaguez no meio da semana, Brasília já seguia no trânsito rumo ao emprego ganho em concurso, Curitiba estava se despedindo da esposa. Natal estava no ônibus indo pra escola. E ele conversava com a colega do jornal no horário do almoço, e só ela existia naquele momento. Tentou adiantar mais as cenas. Uma mulher no apartamento em frente subia numa cadeira para arrumar uma lâmpada e em uma grande praça, o Rio conversava com alguém, mas essa pessoa era apenas um borrão escuro. Porto Alegre caiu subitamente em si mesmo, era manhã recém chegada e já estava vendo tudo de fora. São Paulo o observava da mesa do café, o ar levemente contrariado que Porto tinha na cara, sempre que algum de seus interesses era frustrado. Desde menino a mesma cara birrenta.
São Paulo olhava seus outros eus com mais distanciamento, como se todos fossem pueris. Ás vezes ele, e conseqüentemente os outros, pensava se seria por ser mais velho. Curitiba tinha um ano a menos e era o único casado, mas a estabilidade amorosa e um filho de quatro anos não o tornou menos despreocupado com a vida, talvez tudo lhe parecesse muito fácil, e aos trinta e sete tinha chegado ao apogeu. As impressões de cada um a respeito de si mesmo nunca eram claras aos outros. Era evidente, porém a facilidade de se existir ao mesmo tempo em tantas cidades, e conseguir segurar a barra dos seus outros eus, garantindo um emprego na empresa de um conhecido de outro estado, ou através de um empréstimo se fosse o caso. Mas a parte financeira da vida em comum estava resolvida, até havia um estágio esperando Natal, quando ele quisesse. Agora valia mais curtir a vida multifacetada, usando a metáfora do Rio de Janeiro, um constante entrar e sair de salas de cinema, que assistiam a si mesmas. Um impulso, um devaneio e se estava no outro. Uma dúvida em Brasília, e Curitiba dava a dica. Porto Alegre lia um livro, Natal já não tinha mais dúvidas na escola. São Paulo assistia ao filme, Rio de Janeiro fazia a resenha sentado no bar, e já recomendava pros amigos.
Ao mesmo tempo podiam permanecer horas sozinhas consigo, embora depois de algum tempo esses momentos se integrassem à memória daquele coletivo de um homem só. Quando pensavam nessa definição visualizavam um ônibus praticamente vazio, onde todos eram os únicos passageiros. Estranhamente nunca conseguiam ver o motorista...
O Rio de Janeiro teve de subir a serra certa vez. Foi um mês depois da madrugada mal dormida de Porto Alegre. Era um encontro de estudantes em Juiz de Fora. Brasília Aproveitava as horas ociosas do trabalho para secar as jovens universitárias, São Paulo prestava atenção nas conversas em busca de uma nova pauta, Natal olhava também as moças, Curitiba prestava atenção na arquitetura da federal. Então na tarde do segundo dia quando Rio de Janeiro caminhava no campus, naquele momento que ser permitia ficar sozinho, depois de curada a ressaca, quando afastava ou outros e admirava a paisagem introspectivo, sentiu mais um. De tão surpreso nem conseguiu avisar os outros, quando tentou percebeu que não adiantava. Seu até então desconhecido novo eu parecia bloquear as outras cidades. E ele sempre achou que Juiz de Fora não teria tanta influência.
Ele se aproximou sem pressa, deixando suas memórias fluírem para o Rio de Janeiro. Eram lembranças sem um denominador comum, lacunas familiares numa vida compartilhada, decoração ambiente despercebida ao longo dos anos. O professor universitário era o mais velho, mas como todos eles, aparentava menos. Sessenta e quatro anos... Para o Rio de Janeiro parecia uma realidade distante.
O professor sentou-se ao lado dele, saudando sem um aperto de mãos. Tal gesto forçaria um retorno à coletividade:
- Você pode não viver tanto quanto eu, sabia? Nenhum de vocês, nós, podemos.
- É, hã, porque nós, eu, puxa...
- confunde esse novo tipo de separação de agora né? Parece que não vai ter volta.
- Nem fale nisso! É muito esquisito.
- Mas vocês já sabiam no fundo que faltava algo. Já partilhei vários sonhos com vocês.
- É verdade, tô lembrando de relances... Mas porque você não está conosco, quer dizer...
- Deve ser o tumor. Diagnóstico de câncer cerebral. Começou quando Natal fez um ano. Você tinha Dez. Mas eu prefiro achar que é uma questão de sentimento, sabe? Sou mais emotivo que os outros, eles foram ficando muito frios com a idade. Você tá seguindo nesse rumo.
- Não, sou assim...
- Eu sei, de vez em quando não é mesmo. Você ainda idealiza a alma gêmea. É romântico como eu. Já achou ela?
- Ah não sei, tem uma amiga minha, mas não tenho certeza.
- Procure ter.
- Tá, só um minuto. A gente vai morrer por conta do seu câncer? Como você ficou vivo todo esse tempo?
- Vai saber? Não me preocupo com isso, depois de ter sido desenganado já vivi muito. Só sei que o tumor está lá por conta da cegueira de vocês. Estou em todos, mas sou só um ruído de fundo. É interessante, ter a ilusão de que sou autônomo. Eu gosto da sua metáfora, me sinto o lanterninha, ou o projetista.
- quando foi a última vez que nos reunimos todos?
- Olha, foi naquela festa em Belo Horizonte, três anos atrás, mas vocês não me notaram. Estavam na mesma sintonia.
- Mas teve um antes disso, posso sentir.
- Sim, mas você tinha só doze anos, ainda não tinha acordado para nós.
- E como foi esse encontro?
- Puro Onanismo.
- Hã?
- Nem queira saber. Você teve pesadelos não se lembra?
- É eu sei. Só não consigo definir a sensação. Mas deixe. Porque tenho de ter certeza sobre ela?
- Você precisa achar sua Rita de Cássia.
- Então ela não é lenda. Nosso reflexo, aquela que também é múltipla. Mas por que eu preciso?
- Pra aproveitar enquanto é tempo, curtir essa felicidade. Mas principalmente, porque em uma existência como a nossa quem morre primeiro leva todos. Vale pra elas também. Cada um de nós tem se encaminhado para sua contraparte, menos Porto Alegre, o mais egoísta. Ele tem ignorado a professora de piano, apesar de ela morar no apartamento em frente do outro lado da avenida. Ela está muito depressiva, viver com quatro felinos não é suficiente, o voyeurismo não basta, ela está muito só.
- Porque você não escreve pra Porto, assim como faz com ela?
- Já fiz isso. Ele não dá importância. Acho que ele quer ter vida própria.
- Você não pode ocupar o lugar dele?
- Não é assim simples, não se pode substituir uma peça do quebra-cabeça. Já tenho alguém aqui. Você deve estar vendo ela agora.
- Sim, a imagem está vindo... Hum, aluna sua hein?
- Do mestrado. Bom, o que importa é o seguinte, se a Rita de Porto morrer, ela leva a de Juiz de fora com ela, assim como quem quer que seja aquela que seria ideal pra você. Se eu ficar sozinho a essa altura da vida, não terei mais motivo pra viver. Desânimo acaba com a imunidade...
- Entendi. Mas sabe, você é muito determinista. Apesar de todo esse tempo de vida não temos certeza de nada, eu encontrar você é uma prova disso. Acho que você tem medo, isso é normal. Mas não esperávamos que Natal entrasse no jogo. Quem sabe se ele não veio pra te substituir? Afinal o mais isolado de nós é você... Desculpe o mau jeito, mas é a verdade.
- Tudo bem. Não tenho tido muitas expectativas quanto a nós ultimamente. Você pode estar certo. De qualquer forma, fique atento, quando você encontrar quem lhe corresponde, haverá uma pista. Um perfume, um tremor. Aguarde.
- OK, pode deixar. Foi um prazer conhecê-lo. Podíamos nos encontrar mais vezes.
- É, quem sabe no futuro.
Juiz de fora foi se afastando. Ainda ia demorar um tempo até aquele episódio pertencer a todas as cidades que somos nós. Mas um efeito colateral interessante daquela aura de individualidade de Juiz de Fora foi que o Rio de Janeiro se viu no lugar de Porto Alegre e percebeu neste uma revolta fria contra tudo aquilo que lhe era imposto previamente, como as leis da natureza ou o simples fato de estar vivo daquele jeito compartilhado. Um sentimento adolescente que tinha sobrevivido até os trinta e três anos de seu eu gaúcho. Como se houvesse um mundo a subjugar aos pés. O Rio de Janeiro soltou um longo suspiro, decepcionado.
Nunca tinha se sentido tão imaturo.
Demian Machado